Miranda July faz da menopausa tema literário incontornável em ‘De Quatro’

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Miranda July faz da menopausa tema literário incontornável em ‘De Quatro’


Após a leitura de “De Quatro”, não há tempo para meias palavras. Miranda July, em seu novo livro, inaugura um gênero tão indispensável —política e esteticamente— quanto imprevisto: o romance estrogênico.

Com graça e sem pudor, a autora insere a menopausa, e a fase maluca que vem logo antes dela, entre as incontornáveis questões da narrativa contemporânea. E também uma das mais eroticamente produtivas.

Nos deparamos com uma espécie de reinvenção do romance de formação ao acompanhar o percurso dessa narradora anônima que, aos 45 anos, vai descobrindo quem ainda pode se tornar. A metamorfose, porém, não segue caminhos óbvios. A personagem não sai em fúria assassina contra o patriarcado nem abandona a família —a experiência de maternidade é, aliás, uma das ancoragens mais doces do romance, e o divórcio, diz ela, é uma ideia tão conservadora quanto o casamento.

A ausência de uma ruptura exterior não significa que a transformação não seja radical. A tensão entre dentro e fora é belamente alegorizada por July ao fazer sua personagem abandonar logo na primeira parada um plano de cruzar os EUA de carro sozinha: a poucos quilômetros de casa, ela aluga um quarto em um hotel fuleiro e começa a redecorar o espaço luxuosamente.

Há no projeto um homem mais jovem envolvido —um dançarino amador—, e, embora a relação entre os dois não seja bem sexual, ou justamente por isso, ela descobre “o prazer furioso de desejar um corpo real e específico”, uma experiência mais centrada na fisicalidade imediata do que nas fantasias mentais com que sempre havia engatilhado o próprio desejo até então.

As paixões anteriores não são desmerecidas; ela vive apenas uma nova sexualidade, que descobre enfim estar ligada à flutuação hormonal da perimenopausa —há até um gráfico para nos ajudar a compreender tanto o comportamento do estrogênio ao longo da vida de uma mulher cis quanto o pânico que toma a narradora ao se dar conta de que, com a última menstruação, que vem chegando, despenca a produção do hormônio, e com ela a libido.

Tesão, intimidade e a perspectiva da velhice se misturam nesse momento liminar. “Desejar um corpo é uma coisa séria”, ela conclui. Dançando, transando, tateando ou sendo tateado, o corpo é levado a sério no romance de July. E é com seriedade que sua protagonista se joga nas paixões, efêmeras ou obsessivas, desde o dançarino —bem mais interessante do que o clichê sugere— até uma artista plástica narcisista.

Os hormônios, afinal, deixam a personagem “de quatro”, e o romance destrincha a experiência desde o terror até a percepção de que estar sobre mãos e joelhos é uma posição tão vulnerável quanto segura. “É difícil cair quando se está de quatro”, diz Jordi, sua leal melhor amiga. Para o equilíbrio, ela descobre, a reposição hormonal também ajuda.

O feminismo em “De Quatro” é nítido, mas jamais óbvio: a narradora fantasia com abusos de um padrasto fictício, reconhece a própria repulsa por idosas e não está particularmente empenhada em combater certos comportamentos machistas. E, antes de entender no próprio espelho esse drama, julga como vaidosa e louca a decisão de uma avó e de um tia de cometerem suicídio quando se percebem não mais desejáveis.

A prosa de Miranda July é ágil e esperta, e quem leu os contos da autora já conhece as analogias inesperadas e a desafetação com que narra os gestos mais estapafúrdios, tornando-os naturais, como se fossem precisamente aquilo que o leitor ou leitora fariam em seu lugar. Publicar o vídeo de uma dança sensual como se fosse um convite trivial e irrecusável para um encontro? Por que não?

O estirão final da narrativa pode decepcionar quem pensa que boa literatura demanda desespero, drama ou frustração. July aposta suas fichas, sem cinismo, em uma conclusão redentora, quase mística. É um desfecho corajoso, perfeito para um romance que não se esquiva do que há de mais intenso e contraditório no desejo, esse solavanco que —ao invés do que os romances testosterônicos nos ensinaram— pode trazer, também, alegria.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *