Depois de trabalhar nos três maiores discos de Michael Jackson, Quincy Jones e o astro pop encerraram uma das mais importantes parcerias da história da música. Em sua autobiografia —”Q”, de 2001—, o produtor, que morreu no domingo (3), aos 91 anos, deu algumas explicações para que os dois seguissem caminhos distintos.
Michael Jackson, disse Jones, ouviu das pessoas em seu entorno que o produtor estava recebendo crédito demais pelo sucesso do cantor. Não deixa de ser curioso pensar que a maior estrela pop de todos os tempos estava preocupada em ser ofuscado por alguém cujo rosto era infinitamente menos conhecido que o dele e tinha atuação limitada aos bastidores.
Michael teve hits antes e depois de Jones, mas nunca foi tão bem-sucedido —artisticamente ou comercialmente— quanto nos discos que fez com ele. Mas esse encontro, definitivo para a música popular ao redor do mundo, não teria a mesma potência sem as experiências do produtor até ali.
Criado no sul de Chicago pelo pai, que era carpinteiro das gangues da região, e neto de escravizados, ele vivia num contexto de violência e segregação racial. Cogitou entrar para o crime, mas a experiência de brincar com as teclas de um piano aos 11 anos o fez ter certeza de que seu futuro era na música.
Aos 14, conheceu um também jovem Ray Charles, que o fez ir a Nova York. Na década de 1950, já na cidade, Jones se tornou um de operário da música. Aceitava qualquer trabalho como freelancer para compor e fazer arranjos —incluindo trabalhos com Count Basie, Louis Armstrong, Duke Ellington e Sarah Vaughan, além de turnês com as orquestras de Lionel Hampton e Dizzy Gillespie.
O jazz e o R&B eram a base de Jones, que via homens negros bem vestidos e prestigiados como estrelas desses gêneros. Ele já tinha um álbum solo, “This Is How I Feel About Jazz,” quando foi a Paris em 1957 para trabalhar na gravadora Barclay Records.
Lá, estudou com Nadia Boulanger, mentora de Igor Stravinski e influente educadora musical do século passado. Foi motivado a quebrar uma barreira —a de que músicos negros não eram contratados para fazer arranjos de corda em Nova York. No documentário “Quincy”, de 2018, Jones disse que a França o fez se sentir livre “como músico e como homem negro”.
Mas o ensinamento mais importante de Boulanger talvez tenha sido uma frase que ficou marcada na memória de Jones. “Só existem 12 notas”, ela disse. “Você tem que investigar o que todo mundo fez com essas 12 notas.”
Jones foi então absorvendo todo tipo de música que ouvia —incluindo a latina, e em especial a do Brasil, que ele homenageou no disco “Big Band Bossa Nova”, de 1962. Paulinho da Costa, percussionista brasileiro, virou colaborador frequente do produtor e tocou em “Thriller”.
De volta a Nova York, Jones viveu um período intenso de colaborações com Frank Sinatra. Com o produtor nos arranjos e regendo a orquestra, além de Count Basie no piano, eles gravaram discos como “It Might as Well be Swing”, de 1964, um dos melhores do cantor, do hit “Fly me to The Moon”.
Àquela altura, Jones já vinha expandindo sua atuação para a composição de trilhas no cinema. Já era um dos grandes quando o assunto é criar arranjos. Quando Michael Jackson o convocou para iniciar sua carreira pós-Jacksons 5, Jones já tinha ouvido —e praticado— muito do que era possível se fazer com as 12 notas que existem.
“É um contraste interessante de gêneros“, ele disse a Vulture, em 2018. “Desde que era muito jovem, toquei todo tipo de música —música de bar mitzvah, as marchas de Sousa, música de clube de strip-tease, jazz, pop. Tudo. Não precisei aprender nada para produzir Michael.”
De 1979, com “Off the Wall”, a “Bad”, de 1987, incluindo “Thriller”, o disco mais vendido de todos os tempos, de 1982, Jones e Michael viveram juntos o apogeu de suas carreiras. Nenhum dos dois seria tão grande quanto foi sem a colaboração com o outro.
Através de Jones, Michael atingiu pop perfeito. Além do cantor, o produtor é a presença mais notável nessa trinca de álbuns, que marcou a incursão de Jones nos sintetizadores e batidas eletrônicas programadas.
Nos três discos, o produtor usou a tecnologia mais avançada disponível para fazer música baseada na tradição. É como um mestre que domina tudo que veio antes encontrando alma artística inquieta enviada do futuro para forjar uma arte que soava ao mesmo tempo extremamente nova e estranhamente já conhecida.
Não é à toa que o pop de Michael —acompanhado depois por Madonna— foi unânime aos ouvidos americanos quando havia uma divisão clara do que se tocava nas rádios brancas e negras. Na verdade, até hoje os astros pop buscam aquele som que toca no sótão ou na cobertura, no boteco ou na boate, na canoa ou no iate. Um pop abrangente e que veste terno e gravata sem perder a alma das ruas —bem a cara de Jones.
Em toda sua carreira, ele trabalhou para tornar uma grande composição numa grande música. Como um verdadeiro arquiteto, soube ocupar os espaços em branco de uma canção, desenhando construções sofisticadas o suficiente para elevar um conjunto de notas da Terra até as estrelas.
Com Michael, Jones conseguiu o equilíbrio perfeito entre preencher essas lacunas sem deixar as gravações saturadas e confusas. Em “Rock With You”, as cordas são a ponte —primeiro, entre o instrumental inicial e a voz sussurrada do cantor; depois, permitindo ao canto romântico de Michael alçar voo sublime. No refrão, os sopros batem um papo com as camadas sobrepostas de voz.
Em muitos momentos com Michael, Jones fornece a ambientação adequada para uma música —é assim em “Billie Jean”—, mas talvez sua presença seja mais notada quando ela chega sem pedir licença. Em “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”, as cordas surgem como um soco na cabeça, uma avalanche sonora mais pesada que qualquer instrumento eletrônico poderia soar.
Jones já disse que muitas músicas do estilo rap soavam monótonas por repetirem uma mesma melodia, entediando o ouvinte. É exatamente o oposto de como ele fez os discos Michael, um parque de diversões para os ouvidos, onde há sempre uma camada de som abrindo ou fechando caminhos harmônicos.
É impossível fazer uma composição ruim se tornar uma boa gravação, disse Jones certa vez. O que dá para ter certeza, pelo menos com ele, é que um punhado de boas composições podem virar ouro nas mãos de um grande produtor e de um grande intérprete.
Nada melhor resume o poder de Jones do que uma frase sobre como fazia arranjos —a busca por sonoridades tão cheias de personalidade quanto o elemento sonoro mais distinto da história da música, a voz humana. “Posso fazer uma banda tocar como um cantor canta”, ele afirmou. “Fazer arranjos é isso, e é um grande dom.”

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