Zanele Muholi, que retrata a comunidade queer da África do Sul, vem ao Brasil

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Zanele Muholi, que retrata a comunidade queer da África do Sul, vem ao Brasil


A mesma pessoa de pele retinta posa para uma série de retratos em branco e preto. Ora usa um moderno penteado black e um vestido de fina seda, olhando para cima como se vislumbrasse o futuro, ora usa dezenas de prendedores de madeira que seus cabelos emolduram o que parece ser o rosto de uma antiga divindade.

A série “Somnyama Ngonyama” é a mais recente de Zanele Muholi, que ganhou fama mundial por retratar a comunidade queer na África do Sul após o fim do apartheid, em 1994. Nos novos retratos, Muholi explora a própria imagem para investigar estereótipos físicos criados pela fotografia ocidental, fortemente influenciada pelo colonialismo.

Muholi está no Brasil, onde conversará com o público neste sábado (2), no festival Zum, no Instituto Moreira Salles. O local também sediará sua primeira exposição individual no país, prevista para fevereiro.

Em 2010, a série “Faces & Phases”, com retratos da comunidade queer sul-africana, foi exibida na Bienal de São Paulo. Na época, o trabalho, que lembra o de Catherine Opie nos Estados Unidos, tinha poucas fotos. Hoje, são milhares delas.

O trabalho de Muholi transpassou os limites da arte para se tornar uma missão de vida —documentar rostos e estilos LGBTQIA+, para que as pessoas da comunidade possam ver seus semelhantes em museus no futuro.

Nos retratos, pessoas aparecem com diferentes estilos e adereços, que Muholi afirma nunca escolher. “A vida é a vestimenta, e a estética é muito pessoal. As pessoas que estão nas minhas fotografias só precisam estar bonitas e serem orgulhosas de quem são, mostrar valentia e não a derrota”, diz ela.

Muholi, pessoa não binária, sempre frequentou locais destinados ao público queer em Umlazi, sua cidade natal. O olhar mais atento foi instigado nos anos 2000, quando trabalhou como fotojornalista para o site Behind the Mask.

Quando decidiu estudar fotografia, recebeu a mentoria de David Goldblatt, célebre fotógrafo sul-africano, para depois se especializar em Toronto, no Canadá, com uma série que investigava a identidade de lésbicas negras na África do Sul. Dali para frente, exibiu suas fotos por museus como a Tate, em Londres, e o Brooklyn Museum, em Nova York.

Viajando por cidades do continente africano, ela percebeu a ausência de retratos de pessoas LGBTQIA+ em museus. “Precisava documentar para garantir que as pessoas queer estivessem na história visual da África do Sul”, lembra. “Quando falamos de movimentos sociais, há as pessoas que estão na linha de frente e aquelas na linha de fundo. Queria entender quem eram as pessoas que moviam o país, na linha de fundo.”

Dessa forma, Muholi aderiu ao ativismo. “Documentei para desmantelar a invisibilidade e o racismo que existia dentro do movimento queer”, diz, ao se lembrar de uma juventude de descoberta em um país que acabara de pôr fim ao apartheid.

“Hoje, temos uma Constituição que nos dá o direito de expressar a nossa orientação sexual, de casar e adotar crianças. Era difícil antes de 2000, especialmente nas zonas rurais”, conta Muholi, sobre a repressão dos direitos de pessoas negras, um impeditivo para que muitas delas chegassem a pensar sobre a própria sexualidade.

“O racismo impossibilita as pessoas de se expressarem. O que significa ser negro e sofrer racismo antes de se dizer queer?”, questiona. “É por isso que precisamos de narrativas visuais em todos os espaços, para caminharmos por museus e outros espaços públicos com orgulho e sem medo.”



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