À Rádio Jornal, Priscila Lapa também avaliou a repercussão da polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida e os limites da transferência de votos
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A seis dias do primeiro turno, a pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta segunda-feira (28) colocou Lula (PT) com 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro (PL) com 34%, enquanto os dois aparecem com 42% cada em um eventual segundo turno.
Em entrevista ao Passando a Limpo, da Rádio Jornal, a cientista política Priscila Lapa avaliou que a reta final mantém um cenário de movimentos mais sutis, mas destacou mudanças nos segmentos religiosos, a repercussão da polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida e a dificuldade de candidatos transferirem seus próprios votos para outras candidaturas.
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Para Priscila, a pesquisa reforça a percepção de que não houve, ao longo da campanha, uma grande migração do eleitorado de um dos polos da disputa para o outro. Segundo ela, as mudanças ocorreram em movimentos menores, em um cenário que se aproxima do que o professor Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, chama de “cristalização do voto”.
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“A gente não observou, desde o início da trajetória da campanha, nenhuma grande movimentação do eleitor, nem em direção a um candidato dessa polarização e nem ao outro. Todas as movimentações que aconteceram sempre foram movimentos sutis.”
A nova rodada da Quaest mostrou, de fato, redução do eleitorado indeciso. Segundo a análise divulgada pelo próprio instituto, os indecisos passaram de 10% para 5% nas últimas semanas, enquanto o grupo que declara não votar em nenhum candidato ou branco/nulo também se reduziu no período.
Priscila relacionou essa movimentação ao engajamento maior dos eleitores na reta final. Ela também chamou atenção para diferenças entre homens e mulheres, afirmando que o voto masculino aparenta estar mais cristalizado, enquanto as mulheres apresentam maior mobilidade na intenção de voto.
A Quaest mostrou Lula passando de 37% para 40% entre as mulheres, enquanto Flávio caiu de 32% para 29%. “As mulheres, parece que elas estão sendo mais afetadas, e têm uma capacidade de fazer um trânsito maior na sua intenção de voto do que o voto masculino. Parece que o voto masculino é aquele que está mais efetivamente cristalizado.”
A cientista política também destacou o peso da condição de Lula como presidente. Para ela, a candidatura à reeleição combina uma avaliação negativa do governo com o chamado fator incumbência, que permite ao ocupante do cargo tomar decisões e adotar medidas com potencial de repercussão eleitoral.
Na rodada mais recente, a aprovação do governo oscilou para 46%, enquanto a desaprovação ficou em 49%. “O presidente Lula é o incumbente, e isso tem um ônus e tem um bônus. (…) existe, sim, ainda o fator incumbência presente em qualquer eleição.”
Evangélicos e católicos
Um dos principais pontos da nova pesquisa está nos recortes religiosos. Entre católicos, Lula passou de 43% para 48% no primeiro turno, enquanto Flávio oscilou de 27% para 29%. Entre evangélicos, Lula foi de 23% para 27%, e Flávio caiu de 49% para 46%. No segundo turno, entre católicos, Lula aparece com 50% contra 37% de Flávio; entre evangélicos, Flávio tem 54% contra 30% de Lula.
Priscila avaliou que a diferença tem relação também com a forma de atuação política dos dois grupos. Para ela, o bolsonarismo possui um relacionamento mais consolidado com lideranças evangélicas, enquanto o eleitorado católico é mais heterogêneo.
“O que a gente pode observar nessa pauta religiosa, especificamente em relação à Igreja Católica, é como se o bolsonarismo navegasse com muita facilidade já no segmento evangélico, que é onde, de fato, boa parte das lideranças já criam um diálogo permanentemente com lideranças bolsonaristas. É um terreno mais conhecido.”
Na avaliação dela, a situação é diferente entre os católicos justamente pela diversidade existente dentro desse segmento.
“Você tem, sim, um núcleo duro bolsonarista dentro também entre os católicos, mas você tem aí uma maior diversidade (…) A religião católica se caracteriza muito por um perfil mais diverso dos seus fiéis, o que leva também a perfis de escolha política também mais diversos.”
Nossa Senhora Aparecida
A movimentação entre católicos ocorreu em meio à repercussão da falsa notícia que associou Flávio Bolsonaro à retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Não há registro de declaração do candidato nesse sentido. O que existe é um projeto apresentado em 2007 e arquivado no ano seguinte.
Priscila afirmou que a controvérsia não surgiu isoladamente. Segundo ela, já havia um ambiente de tensão nas redes sociais após manifestações públicas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre democracia e a atuação do Supremo Tribunal Federal, que, conforme sua análise, foram interpretadas por parte do eleitorado bolsonarista como um aceno a Lula, embora o documento não citasse o presidente ou sua candidatura.
“Então, acabou que quando veio a questão da Nossa Senhora Aparecida, já havia esse contexto plantado de uma certa animosidade do eleitor bolsonarista em relação a esse posicionamento público pela democracia, pela uma eleição consciente, manifestado pela CNBB. Então, foi o ingrediente, foi a tempestade perfeita.”
A cientista política afirmou ainda que, historicamente, o bolsonarismo costuma pautar adversários a partir de temas ligados à religião e, desta vez, teria passado a reagir a uma pauta desse campo. Ela também avaliou que as respostas dadas pela campanha de Flávio mantiveram a controvérsia em circulação.
“É como se agora ele tivesse, de alguma forma, perdido um pouco o protagonismo dentro, especificamente, desse fato, dessa discussão, e está tentando aí fazer as reações como se estivesse havido uma inversão.”
Questionada sobre o que poderia ser feito pela campanha, Priscila afirmou que uma alternativa seria deslocar a discussão para outro assunto.
“Talvez o único remédio que reste à campanha do Flávio Bolsonaro é mudar a agenda, é tentar construir, identificar um tema que possa tirar a atenção do eleitorado dessa pauta e levar para uma outra pauta.”
Ela citou ainda a possibilidade de uma mudança de foco para temas como os debates eleitorais ou a corrupção, mas ponderou que a própria questão da corrupção, segundo sua leitura do cenário, não vinha produzindo grande movimentação do eleitorado.
Transferência de votos
Outro ponto discutido na entrevista foi a possibilidade de uma liderança transferir seus votos para outro candidato. A pergunta surgiu a partir da situação de Romeu Zema (Novo), que aparece com 1% na Quaest, e de uma possibilidade, mencionada na entrevista, de apoio do ex-governador de Minas Gerais a Flávio.
Priscila afirmou que a transferência de votos existe, mas não ocorre automaticamente. Segundo ela, lideranças com forte conexão com seus eleitores podem levar parte desse eleitorado consigo, mas o processo depende da própria força eleitoral da liderança.
“Historicamente, a gente viu que lideranças políticas que têm muita proeminência, que têm discursos bem elaborados, que têm muita conexão com seu eleitor, surfam em algumas ondas e conseguem levar junto consigo uma parte do eleitorado que faz essa movimentação quase que como um gesto de fidelidade.”
No caso de Zema, ela chamou atenção para a dificuldade de manter sua influência política no próprio estado depois de deixar o governo e afirmou que isso torna mais complexa uma eventual transferência de votos no cenário nacional.
“Ele não conseguiu encontrar uma articulação, uma correlação de forças dentro do próprio Estado de Minas Gerais que pudesse encontrá-lo em um caminho para manter a sua liderança e até formar, de certa forma, o seu legado político, o seu grupo político.”
A conclusão de Priscila foi direta: “Transferir votos numa situação dessa é bem complexo. Ele precisa primeiro ter voto para ele, para conseguir fazer essa transferência para alguém.”
No fim da entrevista, a cientista política também foi questionada sobre a possibilidade de uma definição ainda no primeiro turno. Ela destacou a existência de eleitores mais consolidados nos dois principais polos, mas ressaltou que fatores como abstenção e voto útil podem produzir mudanças nos últimos dias.
“Uma boa parte do eleitorado toma decisões de última hora, baseada em chances de vitória, em chances de derrota.”
A pesquisa Quaest ouviu 2.004 pessoas entre 24 e 27 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
SUPER MANHÃ NA RÁDIO JORNAL ESPECIAL DEBATE DO SJCC COM IGOR MACIEL | 01.10.26














