Transporte por moto: Cúpula nacional de médicos e indústria discute medidas para reduzir mortes e mutilações sobre duas rodas no País

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Transporte por moto: Cúpula nacional de médicos e indústria discute medidas para reduzir mortes e mutilações sobre duas rodas no País


Aplicativos de moto viraram emergência de saúde pública. Por isso, cúpula nacional discute como frear mortes puxadas por serviços como Uber e 99 Moto


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A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) promovem nesta quarta-feira (10/9), na sede da Fiesp, na Avenida Paulista, uma cúpula nacional para discutir os impactos sociais e sanitários do uso crescente de motocicletas no Brasil.

O encontro nasce da constatação de que o avanço acelerado do transporte remunerado de passageiros por aplicativos — como Uber Moto e 99 Moto — somado à explosão dos serviços de entrega por motofrete, tem transformado emergências hospitalares em linhas de frente de guerra, sobrecarregando o sistema de saúde e deixando um rastro de mortes, amputações e sequelas permanentes entre jovens.

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Em levantamento realizado com os 192 hospitais do País que formam médicos residentes, a SBOT identificou que 68% dos leitos das unidades que atendem emergência e têm ortopedia estão ocupados por vítimas de sinistros de trânsito envolvendo motos.

E, segundo o ortopedista Marcus Musafir, presidente da Comissão de Campanhas Públicas e Responsabilidade Social da SBOT, não é apenas o volume de vítimas feridas que preocupa: das 35 mil mortes anuais no trânsito brasileiro, 15 mil são de ocupantes de motocicletas.

SINISTROS MAIS GRAVES SOBRECARREGAM HOSPITAIS E TRAVAM CIRURGIAS ELETIVAS

Marcos Musafir relata que o perfil das lesões também mudou nos últimos anos. Se antes predominavam fraturas expostas e luxações, hoje os traumas envolvem explosões de ossos e articulações — ferimentos muito mais graves, que exigem internações mais longas e cirurgias mais complexas. “Essa mudança tem efeito direto na gestão hospitalar: o tempo de internação triplicou, o que trava a fila de cirurgias eletivas, como próteses de quadril e procedimentos de menisco, represadas pela ocupação prolongada dos leitos por vítimas de sinistros de moto”, alerta.

O desgaste emocional da categoria médica também marca o relato do ortopedista, que fala do cansaço da rotina de atendimentos a jovens feridos nas emergências do País. Ele lembra que os 18.600 ortopedistas brasileiros têm hoje uma missão que ultrapassa o consultório: evitar encontrar esses jovens na mesa de cirurgia. Segundo Musafir, 80% das vítimas são homens jovens, muitos dos quais acabam gerando despesas e perda de renda para suas famílias, em vez do sustento que buscavam ao pilotar uma moto para trabalhar.

Para dar à discussão um viés também comunicacional, a jornalista Roberta Soares, titular da Coluna Mobilidade do JC, foi convidada a coordenar um dos eixos temáticos da cúpula, com foco em transformar recomendações técnicas em linguagem capaz de engajar motociclistas, mototaxistas e motofretistas.
A expectativa da organização é que o evento produza um conjunto de diretrizes práticas — batizado provisoriamente de “10 mandamentos” — capaz de se popularizar à semelhança das campanhas antitabagismo e de combate à Aids, citadas por Marcos Musafir como referências de comunicação de impacto social.

A programação do dia 10 de setembro combina visão internacional, debate nacional e construção coletiva de propostas. Às 8h30, abertura oficial com os presidentes da Fiesp, do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da SBOT. Às 9h, painel magno internacional sobre a estratégia “Visão Zero” e desafios globais, com participação da ONU e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Às 10h40, o Grande Painel Nacional reúne oito visões integradas, da engenharia de tráfego à saúde pública, passando pela perspectiva de quem vive do motofrete. À tarde, às 14h, um painel de controvérsias contrapõe as realidades do motofrete e do piloto profissional, seguido, às 14h22, pelo workshop de construção de propostas. O encontro se encerra às 17h30 com a leitura da Carta de São Paulo e o lançamento de uma rede nacional dedicada ao tema.

MOTOS JÁ SÃO O VEÍCULO QUE MAIS MATA NO TRÂNSITO BRASILEIRO

Os números do impacto que as motos têm provocado na saúde pública e na segurança viária dão a dimensão do problema que a cúpula pretende enfrentar. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as motocicletas já respondem por cerca de 40% de todas as mortes no trânsito do País — em alguns estados, o índice chega a 70% —, sobrecarregando o Sistema Único de Saúde (SUS). O Atlas da Violência 2026 mostrou que as mortes no trânsito brasileiro atingiram 37,1 mil registros em 2024, o maior patamar desde 2016, impulsionadas pelo crescimento da frota de veículos.

Levantamentos setoriais indicam ainda que mais de 1 milhão de pessoas foram internadas no país em 2023 como vítimas de sinistros envolvendo motos — um aumento de 32% em dez anos — e que o risco de morte para ocupantes de motocicletas é 26 vezes maior do que para ocupantes de automóveis. Some-se a isso o recorde histórico da frota nacional, hoje superior a 35 milhões de motocicletas, com produção anual de 1,8 milhão de unidades, o que coloca o Brasil como sexto maior produtor mundial do veículo — crescimento que, segundo especialistas, avança mais rápido do que a capacidade das cidades de se adaptar em infraestrutura e segurança viária.






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