Terezinha Nunes: Polos ideológicos dominam eleição proporcional e voto de opinião desaparece do cenário

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Terezinha Nunes: Polos ideológicos dominam eleição proporcional e voto de opinião desaparece do cenário


Quando decidiu abandonar a vida pública, o ex-governador Roberto Magalhães apontou um motivo considerado bizarro: “se acabaram os outdoors, como eu vou conseguir ser votado no Recife?”. Na época, a Justiça Eleitoral proibira que candidatos majoritariamente eleitos pelo chamado “voto de opinião” no Grande Recife divulgassem sua propaganda nos outdoors que eram negociados e disputados nas campanhas eleitorais. Era através deles que pedestres, usuários do transporte público e quem tinha carro próprio tomavam conhecimento de quem estava na disputa.

Não era possível a um simples desconhecido vencer eleição para deputado colocando seu nome, foto, partido e uma mensagem de incentivo em um outdoor, mas quem tinha serviços prestados conseguia através desse meio, como foi o caso, entre outros, de Magalhães, Jarbas Vasconcelos, Gustavo Krause, Joaquim Francisco, Marcos Freire e Roberto Freire comunicar que era candidato e despertar a simpatia dos seus admiradores que multiplicavam os votos. Na época, essas pessoas eram chamadas de “formadores de opinião”.

Opinião escassa

Se sabia quem estava bem na disputa quando seu nome começava a circular em bares – muito frequentados pela esquerda – restaurantes, barbearias, ou nos convescotes familiares. Com o tempo, como previa Magalhães, não necessariamente pela falta de outdoors, mas do aparecimento do chamado voto comprado na periferia já dominada pelos coronéis do asfalto, em sua maioria vereadores bem votados em bairros populares como Casa Amarela, Ipsep, Várzea, Ibura e outros mais, o voto de opinião foi ficando escasso e quase desapareceu.

O voto de misericórdia parece ter sido dado com o surgimento dos polos ideológicos dominados, na esquerda, pelo PT e pelo lulismo e, na direita, mais recentemente, pelo bolsonarismo, que reuniu os conversadores a partir da eleição de 2018, quando Jair Bolsonaro assumiu o anti-petismo, deixando para trás a social democracia do PSDB. Atribui-se nos meios políticos a este fenômeno o fato de pessoas tarimbadas como Miguel Coelho, que teve expressiva votação para governador em 2022, Daniel Coelho, outrora campeão de votos no Recife, Maurício Rands, Lucas Ramos e Renildo Calheiros tenham ficado de fora na eleição para deputado federal.

Extinção do centro politico ideológico

Para o cientista político Felipe Ferreira Lima, “há um claro movimento de extinção do que chamávamos, até pouco tempo atrás, de voto de opinião ou de centro político ideológico e que hoje se confunde dentre os votos dos extremos, seja de direita, seja de esquerda. Os políticos moderados que ainda tentam dialogar com ambos os espectros políticos tiveram muitas dificuldades nas últimas eleições, retirando do parlamento (ou impedindo que voltem) muitos nomes como Cristovam Buarque, Carlos Sampaio, Orlando Silva e Roberto Freire, a nível nacional. A nível local, ele dá como exemplos os mesmos nomes citados acima.

Daniel Coelho concorda com Felipe, mas para ele, “o voto de opinião continua existindo, mas migrou para os extremos. As pessoas não querem moderação, diálogo, querem guerra. Migraram para os extremos e estão optando pelas alas mais radicais. O fenômeno é mesmo nacional, mas aqui temos alguns exemplos claros como o dos políticos bolsonaristas que tiveram muitos votos este ano e estão desbancando inclusive os evangélicos e da esquerda radical que elegeu Jones Manoel, do PSOL, que se declara comunista, como o segundo deputado federal do estado, mais votado com 240 mil votos, e Rosa Amorim, do PT, que é do MST. A centro-esquerda e a centro-direita ficaram para trás.

Raquel, único exemplo de governadora de centro

Ele também cita o fato de existirem hoje muito poucos governadores eleitos que não pertencem aos extremos : “Raquel é uma raridade e talvez seja a única não vinculada ao lulismo e ao bolsonarismo entre os governadores eleitos ou reeleitos”. Para Daniel, “no geral, o que valeu foram as posições extremas. Na grande maioria, os que defendem o diálogo, a construção de pontes e soluções racionais não tiveram espaço”.

A eleição proporcional em Pernambuco mostrou um domínio predominante dos extremos. Se Dani Portela, do PT, que veio do PSOL e é considerada radical foi a deputada mais votada, o segundo foi o bolsonarista Gilson Machado Filho, que teve na capital 46.487 votos. Dos 10 estaduais mais votados no Recife, cinco são bolsonaristas ou lulistas. Os demais são vereadores ou ex-vereadores que dominam suas áreas eleitorais como verdadeiros coronéis do asfalto.

Bolsonaristas e lulistas, os mais votados

Na eleição para deputado federal, entre os dez mais votados no Recife, cinco são lulistas e cinco bolsonaristas. Não houve campo para o meio-termo. Jones Manoel foi campeão, com 81.364 votos, desbancando Pedro Campos, irmão do ex-prefeito João Campos, que chegou em segundo com 72.444 votos. O terceiro foi o bolsonarista Eduardo Moura, com 54.534 votos, seguido pelos também bolsonaristas Gilson Machado e Anderson Ferreira. Em sexto lugar ficou Rosa Amorim, lulista do MST. Em sétimo, o bolsonarista Thiago Medina, em oitavo, Liana Cirne, do PT, em nono, Clarissa Tércio, também bolsonarista e em décimo, Kari Santos, lulista.

O deputado estadual Wanderson Florêncio, do Podemos, ex-vereador, sempre foi bem votado no Recife, mas admite que este ano só escapou da degola porque foi abraçado pelo Agro. “O voto de opinião acabou. Daqui para a frente, só disputo eleição representando um segmento que me ajude na conquista de votos como foi o Agro agora, ou se tiver ajuda clara de um candidato a governador”, adianta. Ele cita o exemplo de Daniel Coelho, que trabalhou bem, mas sem um campo específico, não chegou lá.

Há ainda o caso de deputados que têm muitos prefeitos alimentados por emendas e que conseguem sobreviver. Estes estão cada dez mais concentrados no interior e deixaram de lado o Grande Recife ocupado por parentes de prefeitos que ainda conseguem furar a bolha ideológica mas que, em geral, conseguem mandatos na Assembleia, na Câmara Federal é uma raridade. Nessa situação, poucos parlamentares abraçam a causa da Região Metropolitana, como é o caso de João Paulo, do PT, que já foi prefeito do Recife. Na tribuna da Alepe, fala-se mais do interior do que do Grande Recife, onde reside 40% da população pernambucana.




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