‘Ted Lasso’ abraça o futebol feminino e vê contradições do esporte em seu retorno

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‘Ted Lasso’ abraça o futebol feminino e vê contradições do esporte em seu retorno


Jornalistas celebram o retorno de Ted Lasso ao Richmond, time que virou uma família simbólica graças ao otimismo do técnico. Embora insistam em questioná-lo sobre o futebol masculino, a sua missão é outra —treinar o primeiro time feminino do clube.

É o que o traz de volta à Inglaterra nesta quarta temporada, que chega amanhã ao Apple TV, depois de um terceiro ano que ensaiou um final após o personagem de Jason Sudeikis voltar aos Estados Unidos. É que, em 2023, os criadores disseram que os episódios da vez concluíam uma história inicial, mas não negaram um possível retorno.

Vencedora de 13 Emmys —incluindo dois de melhor série de comédia, pelo primeiro e pelo segundo ano— a atração cativou o público com o treinador bigodudo, especialista em cultivar a sensibilidade de machos alfa e reduzir a pressão de se buscar a vitória.

Foi o que ocorreu, mesmo que por acidente, na última leva. Apesar de indicações e da boa aprovação entre críticos, a terceira temporada passou quase despercebida em prêmios. Além disso, muitos afirmaram que a abordagem alto-astral, antes um trunfo, passou a girar em círculos.

Numa mistura de correção de rota e ajuste a temas atuais, Sudeikis volta ao campo após vencer dúvidas. “Conversei com o Brendan [Hunt] e os roteiristas num retiro. Queria entender se o que sentia reverberava neles, e lidei com uma dose saudável de autocrítica”, explicou o ator, que criou o seriado junto de Hunt, o curioso treinador Beard, do roteirista Joe Kelly e do produtor Bill Lawrence, em conversa com jornalistas.

“Depois do primeiro ‘sim’, você não quer decepcionar ninguém”. No novo ano, a frase parece um lema para Rebecca Welton, a poderosa dona do clube, papel de Hannah Waddingham. Se no início ela tentou arruinar a seleção masculina que herdara do marido, agora tenta se firmar como um tipo de ícone feminista.

Entre livros da autora bell hooks e o elo com a melhor amiga, a chefe de marketing do Richmond, ela tenta conquistar a nova treinadora, a rabugenta Alice Chilton. Vivida por Tanya Reynolds, que dedicou a carreira a rever estereótipos femininos, a assistente é o oposto de Ted.

“Tive que segurar muitas risadas, mas foi uma alegria ser a ‘mulher séria’ em meio a rapazes ridículos”, diz a atriz, cuja personagem questiona o esforço de Rebecca em ser bem vista —especialmente pela diretora ter escolhido um homem para liderar o time feminino.

São contradições que a série abraça com bom humor, e que, como diz Waddingham, ela mesma encarou numa certa idade. “Somos criadas em uma sociedade em que homens reinam como soberanos, e existe um nível de aceitação dessa ideia. Foram essas experiências que fizeram de mim tão feminista quando adulta.”

Não que a temporada abomine totalmente a relação entre o feminismo e a mídia. Em dado momento, por exemplo, após fracassar numa reunião com acionistas, Keeley Jones, a publicitária, critica um texto sobre sua ascensão meteórica.

Mais tarde, ao conhecer um entregador que diz ser um grande fã, ela recupera o otimismo. Sua intérprete, Juno Temple, defende a sutileza de “Ted Lasso” ao abordar questões sociais e destaca a relação entre sua personagem e a dona do time —segundo as artistas, um ponto fora da curva na forma com que amizades femininas costumam ser retratadas na ficção.

“Se atacamos pessoas com pensamentos, elas não querem ouvir”, afirma Temple, que virou grande amiga de Waddingham também fora das telas. “É raro ver duas mulheres que se amam genuinamente. Elas têm um elo em que chamam a atenção uma da outra, mas também celebram umas às outras sem inveja. Há outras formas de se explorar esses temas.”

É diferente de dizer que a trama higieniza personagens femininas. Pelo contrário. No campo, as jogadoras trocam palavrões, ironizam a vida sexual de superiores e se divertem sem amarras. Nas palavras de Jude Mack, que vive uma goleira sem filtros, são mulheres que subvertem estereótipos de Hollywood ao trazer à tona um lado barulhento da natureza feminina.

Sobre a próxima Copa Feminina, que o Brasil hospedará no ano que vem, os criadores confirmam que o timing influenciou a estreia da nova temporada. Segundo a equipe, é uma ótima ocasião para debater o lugar das mulheres nos esportes.

“A seleção feminina dos Estados Unidos tem ido bem há tempos, mas admito que só passei a acompanhar a partir da edição de 2015. Maneirem nos cartões vermelhos, estamos de olho”, brinca Brendan Hunt, que diz que a série soube manter sua universalidade.

“Estive na Copa do Mundo de 2014 e posso dizer —o Brasil sabe fazer um bom torneio.”



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