Muitos deverão procurar os quatro capítulos da série “Alucinação” na busca de entender o que aconteceu com Belchior. Um dos maiores cantores e compositores da MPB, ele morreu em 2017, depois de dez anos escondido da mídia e dos fãs, fugindo de dívidas.
Mas a série não oferece respostas, ela é uma história de perguntas. Baseada no livro “Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano“, do jornalista Jotabê Medeiros, a narrativa apresenta fragmentos de duas fases da vida do cantor —a juventude, como seminarista, estudante de medicina e músico iniciante, e o período de exílio silencioso.
Dois atores interpretam o protagonista —Caian Zattar, na fase jovem, e Luiz Carlos Vasconcelos, na maturidade. O diretor Eduardo Albergaria, que escreveu o roteiro com Daniel Dias, optou por construir a série com uma incessante alternância entre os dois períodos.
“Foi um longo processo, uma tentativa de compreensão dessa história. Entender o que estava por trás do personagem”, conta o diretor, que recorda os movimentos iniciais do projeto.
“Estava em São Paulo, no Aeroporto de Congonhas, e me deparei com o livro do Jotabê. Imediatamente eu comprei, e devorei o livro. Lá encontrei o que foi uma revelação para mim —a proximidade do Belchior com o sagrado, como o jovem estudante que os colegas chamavam de Frei Sobral.” O cearense recebeu esse apelido por ter nascido em Sobral.
Albergaria percebeu que essa fase de juventude, de alguma forma, dialogava com algumas perguntas que ele fazia sobre o personagem e seu gesto artístico, no fim da vida, de ficar calado.
Cenas curtas mostram Belchior abandonando o seminário e, anos depois, a faculdade de medicina. A partir daí, a câmera o acompanha no início da carreira e nos encontros com figuras fortes da MPB que marcaram seu caminho artístico, como Luiz Gonzaga, Vinicius de Moraes e Elis Regina.
Em paralelo, Belchior aparece sessentão, na jornada de negação que começou em 2007, quando saiu de São Paulo e iniciou uma década de périplo entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai. Nessa fuga, deixou para trás família, carreira e muitas dívidas, entre elas duas contas astronômicas em estacionamentos, em que largou dois carros.
Na juventude, tem Fagner como seu amigo na luta pelo sucesso. Na velhice, percorre rotas obscuras ao lado de Edna, sua nova companheira. Isabela Garcia a interpreta numa química forte com Vasconcelos. Belchior e Edna têm uma postura de “nós contra o mundo”, carregada de cumplicidade.
A série não é didática. Quem não estiver familiarizado com o desaparecimento de Belchior, que percorreu os noticiários por anos, pode não entender alguns trechos. Nem mesmo o encontro inicial de Belchior com Edna é explorado. O filme prefere apostar em cenas que ressaltam esse amor companheiro entre os dois.
Talvez alguns espectadores possam estranhar a falta de cenas de Belchior cantando. Albergaria conta porque ele não aparece no palco. “É impossível fugir do cancioneiro do Belchior, de suas músicas. O primeiro desafio de uma adaptação é sempre escolher um recorte. Começamos trabalhando com as músicas”, explica.
Mas uma proibição legal se impôs. “É uma questão um tanto delicada, junto da família. Em um dado momento, o recorte que quis dar à história não interessou à família. Tive então um problema objetivo com a licença das músicas.”
Admitindo que inicialmente se sentiu enlutado por não poder usá-las, Albergaria diz que logo entendeu que o recorte da série mudava de caminho. “Eu estava contando a história de um personagem que, na última fase da vida, no inverno da vida, se recusou a cantar. Se pensarmos em dividir a vida dele em três atos, o segundo, quando ele faz sucesso, era o que menos me interessava.”
A vida nômade de Belchior e Edna é exibida em cenas às vezes angustiantes, até a morte dele na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul, devido ao rompimento de um aneurisma. Por anos eles moravam de favor, não tinham dinheiro, e volta e meia precisavam partir de um instante para o outro, fugindo da polícia, de credores ou da imprensa.
Os atores levam muitas cenas do casal emudecidos, transmitindo emoções por gestos e olhares. “A série tem cenas silenciosas, ela não cede a ferramentas do audiovisual que hoje são consideradas para criar dinamismo. As idas e vindas no tempo têm uma dinâmica”, diz Albergaria.
A série terá seus episódios lançados semanalmente no Canal Brasil, aos sábados, às 22h, até 20 de setembro. No dia seguinte à estreia, cada capítulo passa a ficar disponível no Globoplay.












