Anvisa amplia indicações de Wegovy e Ozempic e reconhece que tratar obesidade pode reduzir infartos, AVC e piora da doença renal no Brasil
Cinthya Leite
Publicado em 03/02/2026 às 12:24
| Atualizado em 03/02/2026 às 12:30
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A ampliação das indicações da semaglutida (Wegovy e Ozempic), pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), oficializada no último dia 2, não representa só a autorização de novos usos para medicamentos já usados no Brasil para controle da diabetes tipo 2.
As novas indicações da semaglutida mudam a forma como a medicação é vista: Wegovy e Ozempic também se mostram peças centrais na prevenção de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e agravamento da doença renal.
Com isso, a Anvisa reconhece a compreensão científica e a evidência acumulada de que Wegovy e Ozempic não são apenas “remédios para perder peso” e passam a ser incorporados como tratamentos que dialogam diretamente com a cardiologia e a nefrologia.
A mudança também reforça uma ideia que vem ganhando força na medicina: a obesidade não é um problema estético, mas uma doença crônica profundamente ligada às principais causas de morte no Brasil.
Wegovy: de tratamento metabólico a proteção cardiovascular
Uma das mudanças recai sobre o Wegovy, que agora tem indicação formal para reduzir o risco de eventos cardiovasculares adversos graves, como infarto do miocárdio e AVC, em adultos com doença cardiovascular estabelecida que também apresentam obesidade ou sobrepeso.
Por décadas, a prática médica focou em controlar pressão arterial, colesterol e diabetes, enquanto o excesso de peso era frequentemente tratado como consequência desses problemas, e não como alvo terapêutico direto.
A decisão da Anvisa sublinha que o excesso peso passa a ser visto como um fator de risco que pode e deve ser tratado.
O contexto ajuda a entender. Cerca de 400 mil brasileiros morrem por ano em decorrência de infartos e derrames. Incorporar um medicamento como a semaglutida, que atua sobre múltiplos mecanismos (apetite, metabolismo e inflamação associada à obesidade), amplia o arsenal de prevenção além dos tratamentos tradicionais.
Para o cardiologista Audes Feitosa, professor da pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Pernambuco (UPE), a mudança tem implicações práticas importantes. Para ele, a decisão vai além do emagrecimento: baseada em evidências científicas, ela coloca a obesidade no mesmo patamar de outros fatores de risco cardiovascular.
“Mas atenção: essa indicação é para adultos com doença cardiovascular estabelecida, isto é, para quem já teve infarto ou AVC e obesidade ou sobrepeso. E o mais importante: o uso (da semaglutida) deve sempre ser associado à dieta e atividade física. Isso muda o jogo”, ressalta Audes.
Na prática, o Wegovy passa a ocupar um espaço próximo ao de estatinas e anti-hipertensivos, não por agir diretamente sobre colesterol ou pressão, mas por atuar sobre uma das raízes do adoecimento cardiometabólico.
Ozempic: impacto que vai além do açúcar no sangue
A ampliação de uso da semaglutida também alcança o Ozempic, que passa a ter indicação para pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.
Os estudos apresentados à Anvisa mostram que a semaglutida não apenas melhora o controle da glicemia, mas também retarda a progressão da insuficiência renal e reduz mortes por causas cardiovasculares em pessoas com diabetes.
Isso é especialmente relevante no Brasil, onde a carga de doença renal é alta: em 2024, 29% dos brasileiros em diálise apresentavam diabetes, segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia.
Na prática, isso significa que o medicamento pode ajudar a afastar muitos pacientes do desfecho mais temido da nefrologia: a hemodiálise. Em paralelo, a medicação se mostra eficaz para diminuir risco cardíaco, ao criar um duplo benefício clínico.
Medicamento como parte de uma estratégia maior
Apesar do avanço, especialistas reforçam que a semaglutida não atua sozinha. Os benefícios cardiovasculares e renais observados nos estudos aparecem de forma consistente quando o tratamento vem acompanhado de cuidados com a alimentação e atividade física regular.
Ou seja, a semaglutida não substitui hábitos saudáveis. A verdade é que a medicação pode funcionar como um aliado das mudanças no estilo de vida.
A nova indicação do medicamento não está em prometer um atalho farmacológico, mas em integrar medicamento, acompanhamento médico e mudança de estilo de vida em uma mesma estratégia de cuidado.
O que isso significa para o Brasil?
A decisão da Anvisa alinha o País a uma tendência internacional de tratar a obesidade como doença crônica com consequências sistêmicas. Isso pode impactar protocolos clínicos, diretrizes médicas e, no médio prazo, debates sobre cobertura desses medicamentos por planos de saúde e pelo sistema público.
No Brasil, onde obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares caminham juntas, ampliar o uso da semaglutida sinaliza que enfrentar a obesidade passa a ser também uma estratégia direta de combate às principais causas de morte no Brasil.





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