Rosana Paulino, a paulista que se tornou um dos maiores nomes nas artes plásticas brasileiras e tem consagrado seu trabalho no exterior, recebe agora uma homenagem e uma exposição em Nova York pelo livro-manifesto “História Natural”, que completa dez anos.
A exposição fica baseada no bairro do Village, em Manhattan, no centro de pesquisa Vera List Center, ligado à New School. A pequena e pouco convencional universidade foi fundada em 1919 como uma alternativa progressista às tradicionais instituições de ensino.
Paulino foi laureada com o Jane Lombard Prize, um prêmio bianual do Vera List que reconhece um projeto de longo prazo de um artista com impacto em temas de justiça social. Tornou-se a segunda brasileira a fazê-lo, após Maria Thereza Alves, artista brasileira radicada em Berlim, ser agraciada com a premiação em 2017.
Ao entrar na sala da galeria, o olhar logo é levado à maior obra em dimensão: a bandeira que ocupa toda uma parede e na qual se lê “Pretuguês”, alusão à herança negra para a língua portuguesa. Nela está o rosto de uma mulher negra que, para o visitante brasileiro, instantaneamente remete à Marielle Franco.
Mas a matéria-prima da exposição, aquela que as curadoras Eriola Pira e Carin Kuoni quebraram a cabeça ao buscar maneiras de expor, trata-se do livro “História Natural”, talvez o trabalho mais basilar de Paulino junto à instalação “Parede de Memória”.
As páginas do manifesto artesanal contra o racismo científico são destacadas e expostas em uma grande mesa de madeira logo no centro da exposição.
É o que Eriola chama de imitação de uma mesa de ensino que quer ser a espinha dorsal da mostra, bem no centro da galeria, inescapável ao visitante. Ali também estarão dois cadernos de notas de Paulino, expostos ao público de forma inédita. Neles lêem-se as ideias iniciais da artista, seus estudos e desafios mais materiais: como melhorar a impressão de um tecido; qual tinta usar.
Foi uma demanda da própria artista. Professora, Paulino viu na exposição na New School a chance de criar um projeto educativo no coração de um centro de ensino. Em um país como os Estados Unidos, em que o debate racial também segue uma ferida aberta, as curadoras não tinham outra opção senão concordar com essa necessidade.
Rodeando a mesa de estudos estão algumas das principais colagens de Paulino, algumas dos últimos dois anos, como a série Brotações. Nelas, mulheres negras são gestadas em sementes, alimentadas pelo cordão umbilical que sai da terra. É o sinal da ligação da mulher negra com a natureza, uma das figuras fundamentais da obra da artista plástica.
Também estão ali suas colagens, que reúnem a fauna e a flora brasileiras com as imagens de pessoas escravizadas na época colonial. Seus rostos estão cobertos por preto. Mas seus corpos são bem conhecidos dos livros de história. São o que Paulino chama de “tipos”.
Como é, então, a ideia de usar uma imagem tão estereotipada como elemento base de uma obra que, em sua gênese, quer combater a falsa ideia da superioridade branca? “Para curar os males causados por essas imagens, só usando as mesmas imagens, mas em outra chave”, ela diz.
“Quando coloco raízes nessas mulheres, por exemplo, é como dizer que essas pessoas enraizaram uma cultura. Apesar de todos os horrores, ainda assim conseguiram assentar uma cultura. É desfazer a ideia do tipo. E assim vou restituindo a humanidade para esses personagens.”
Essa não é a primeira vez que Nova York estampa o seu trabalho. Ela expôs na cidade no ano passado, no espaço da galeria brasileira Mendes Wood DM em Manhattan. Tem uma obra em exposição no Studio Museum, no Harlem, coração da cultura negra local.
Uma das três cópias de “História Natural” foi adquirida pelo MoMA, que ainda a mantém em seu enorme acervo. E, claro, ao longo dos últimos anos, a paulista acumula participações de destaque em outras mostras internacionais.
Ao lado de Adriana Varejão, expôs no pavilhão brasileiro da última Bienal de Veneza, espaço no qual já tinha marcado presença, em menor escala, em 2022. Em 2024, tornou-se a primeira artista negra a ter uma mostra no Malba, em Buenos Aires. Em breve, expõe em Paris.
Se um dia pensou que sua obra nunca teria espaço fora do Brasil, dado que versa sobre feridas essencialmente nacionais, entendeu com o passar do tempo que muitos desses males são compartilhados. É o que se vê, por exemplo, como conexão com o fato de agora expor nos Estados Unidos.
“Brasil e Estados Unidos tiveram escravidão, e são marcados de maneira parecida”, diz, antes de embarcar para Nova York.
“E esse debate é completamente atual em um momento de retorno de uma extrema direita com agenda compartilhada, que é muito fundamentada em questões que eu levanto no livro, da falsa superioridade branca, do racismo científico.”
No catálogo da exposição, a curadora brasileira Diane Lima, que tem trabalhado com Paulino, descreve o seu trabalho como uma manifestação do que chama de resistência epistemológica: uma luta para contrariar um modo de conhecimento colonial e preconceituoso.
Que Paulino o faça nos Estados Unidos neste ano, em meio a uma renovada onda de perseguição à teoria crítica da raça por grupos conservadores, tem ainda mais significado.













