Reciclagem de boas intenções

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Reciclagem de boas intenções



O lixo que se joga fora todos os dias pode ser mais bem aproveitado pelos brasileiros, impulsionando o desenvolvimento sustentável e justo

Por

JC


Publicado em 30/05/2026 às 0:00

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Os entulhos de lixo nas ruas representam um desafio para os municípios e as empresas contratadas para sua coleta e destinação. Mas além dos transtornos que podem causar algumas horas de atraso na retirada dos sacos e do material mal acondicionado ocupando o espaço público, o que jogamos fora também é uma demonstração do desperdício praticado no Brasil – tanto pelos cidadãos, quanto pelos governos, ou seja, pela nação inteira, na rotina que não reaproveita o que pode ser reaproveitado. O baixo índice de reciclagem é um sinal de atraso para o país, fazendo com que os brasileiros sejam um povo retardatário em relação às boas práticas de sustentabilidade visando um desenvolvimento em harmonia com o ambiente e, num lugar tão desigual, o que se recicla pode ser um diferencial de justiça para a parcela em maior vulnerabilidade.
As informações disponíveis apontam que o índice de reciclagem no Brasil não chega a 5% do material descartado, quando a Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê o alcance de pelo menos quatro vezes isso. E o que se obtém de reciclados é graças ao trabalho de cerca de 1 milhão de catadores, na maioria dos casos em jornadas informais e desprovidas de direitos básicos. O processo de reciclagem no país depende dos catadores, e seu fortalecimento poderia resultar na ampliação e qualificação desses trabalhadores, elevando sua renda, enquanto o benefício coletivo da sustentabilidade fosse disseminado.
A legislação que define as regras para a destinação de resíduos é de 2010, e previa a eliminação dos lixões, onde o depósito é feito a céu aberto, em 2014 – o que foi estendido até 2024, mas até hoje não se viabilizou. Milhares de lixões continuam a existir no território brasileiro, gerando problemas para o ambiente e para a saúde das pessoas. Inclusive dos catadores que, sem apoio nem orientação, tiram daqueles locais fétidos a sobrevivência para ser reciclada. Vidas que se fiam na reciclagem, para retirar do lixo o sustento.
O governo federal e a Itaipu Binacional lançaram uma campanha, esta semana, para conscientização da importância da reciclagem, através da coleta seletiva. Para o diretor-geral brasileiro da Itaipu, Enio Verri, trata-se de uma questão de cidadania. “A separação correta ajuda o meio ambiente e também gera renda para milhares de famílias”, afirmou, referindo-se ao ganho social atrelado ao ambiental, na atitude cotidiana que pode afetar outros indivíduos e melhorar a vida de todos. A campanha espera mobilizar universidades, prefeituras e organizações sociais em projetos relacionados à educação ambiental e ao desenvolvimento sustentável.
O envolvimento da sociedade é crucial para a efetividade de um objetivo postergado há muitos anos. Mas é basicamente com o engajamento dos governos, em todos os níveis, mas sobretudo as prefeituras, que as metas de reciclagem podem ser aceleradas e alcançadas. Se a coleta seletiva que começa dentro das residências, empresas e indústrias, não contar com o estímulo do poder público, a frustração da população com a falta de estrutura vai continuar gerando apenas campanhas e discursos de boas intenções – recicladas nos períodos eleitorais, mas que nunca se realizam.



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