Quando o mundo se expande

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Quando o mundo se expande


Sob o tema “Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo”, começa nesta quarta o Festival Literário Internacional de Paracatu – Fliparacatu – em Minas Gerais


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Desta quarta, 26, até o domingo, 30, dezenas de escritoras e escritores compõem a programação do Festival Literário Internacional de Paracatu (MG), o Fliparacatu, que chega à quarta edição. A extensa programação de conteúdo, com a curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês, Daniela Prado e Rafael Nolli, pode ser acompanhada pelo YouTube, e a agenda, conferida pelo site oficial do evento em www.fliparacatu.com.br.

A coluna perguntou ao idealizador do festival, Afonso Borges, e a alguns participantes, qual o lugar da literatura no mundo, em sintonia com o tema “Sertão em nós: Meu lugar no mundo”, que o evento traz nesta quarta edição. “O lugar da literatura no mundo é o lugar da fundação”, afirma Afonso Borges, autor de “Tardes brancas”, publicado pela Autêntica. “Acredito que fala e escrita nasceram juntas, e não perderam em momento nenhum na história da humanidade a sua importância. Hoje, quando, na minha opinião, se fala e se escreve, sobretudo se escreve como nunca na história da humanidade, através das plataformas, das redes e dos livros, essa importância dobrou. O mundo digital e visual entrou em uma faixa de concorrência muito grande com a leitura. Isso dobra a nossa responsabilidade. O lugar da literatura é o da resistência, da concentração, e principalmente da memória”.

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Divulgação

Cristovão Tezza estará no Fliparacatu – Divulgação

 

Reserva de solidão e imaginação

Para Cristovão Tezza, “a literatura é uma reserva de sensibilidade e percepção diferenciada do mundo”. Para o autor de “Visita ao pai”, publicado pela Companhia das Letras, a literatura “é uma linguagem onívora, que se apropria de todas as linguagens que nos rodeiam mas não se confunde com nenhuma delas. E é também uma reserva de solidão, de imaginação e de reflexão individual no caos contemporâneo”.
Taiane Santi Martins diz que “no mundo, a literatura tem o lugar que a gente dá para ela. Gosto muito de pensar por essa perspectiva, que nos coloca como agentes e responsáveis pelas coisas. Afinal, as coisas do mundo têm um lugar e a importância que nós conferimos a elas”, diz a autora de “Mikaia”, obra vencedora do Prêmio Sesc e publicada pela Record. “A literatura por si só não faz nada. Pode ocupar espaço físico em prateleiras, em depósitos. Mas se nós, como leitores, lhe dermos um lugar, primeiro dentro da gente, aí sim, ela pode ocupar lugar no mundo e se transformar em vereda, para lembrar o Guimarães Rosa. Porque é isso que a literatura faz com a gente: nos leva a percorrer caminhos diferentes daqueles que estão inscritos em nós mesmos, nossos preconceitos, limitações, nossa forma de entender o mundo. Quando a literatura tem um lugar, o mundo se expande. E é por isso que é tão importante festivais como o quarto Fliparacatu, por exemplo. São nesses espaços que a gente se reúne não só para lembrar que a literatura tem lugar, mas também para construir esse lugar, que não é fixo e segue dependendo de nós”.

Lugar de poder, ação e vida

Fabiana Carneiro da Silva, por sua vez, pensa a literatura como uma força motriz, que move o mundo. “Cria existências para a própria existência do mundo. E na medida em que falamos o mundo, e essa é uma expressão com que batizo uma coleção de livros que tenho coordenado, a coleção Falar o Mundo, nós, escritores e escritoras concebemos o mundo por nossos próprios termos, com a força vital presente, escrita em nossos hálitos”, diz a autora de “Casa cheia”, publicado pela Segundo Selo. “Construímos um imaginário que, quando compartilhado, materializa o mundo e as possibilidades desse mundo. Dito de outra maneira, penso o lugar da literatura no mundo, dessa escrita que está no corpo, na pele do papel, como um lugar de poder, de ação e de produção de vida”.
Na compreensão de Natalia Timerman, autora de “Antes que apague”, publicação da Companhia das Letras, com a literatura “enxergamos e pensamos o mundo, saímos do mundo e chegamos nele”.

Lugar de quem escreve

E qual seria o lugar de uma escritora ou escritor no mundo em que a literatura tem lugar? Segundo Natalia Timerman, “é o de quem tem antenas para captar o estado das coisas em que vivemos e imaginação para inventar outros”. Para Fabiana Carneiro, esse lugar é “uma posicionalidade estratégica de afirmação e reivindicação da nossa liberdade inventiva. Desse gesto radical de imaginar outros mundos. E de disputar os sentidos que esse mundo tem, pensando nas várias temporalidades que se enredam no contemporâneo. Temos tido um lugar, e um comprometimento em reelaborar, em transcriar narrativas sobre o passado, em criar uma possibilidade de leitura nesse lusco-fusco que é o presente, como diz o Giorgio Agamben. Especialmente, para nós, considerando uma perspectiva afro-indígena, que é a minha, de entrever outras possibilidades de futuro”.
Afonso Borges vê o lugar “da resistência, da ética, do reposicionamento dos valores que estão sendo distraídos e subtraídos diariamente do nosso cotidiano. Valores como responsabilidade e tantos outros relacionados com a importância de se ter uma vida em comum. A vida em comunidade está cada vez mais sendo desabilitada nas nossas funções sociais. O papel do escritor é, através dos livros e da literatura, lembrar sempre que o humano em nós deve sobressair e prevalecer”.

Broto da palavra

Taiane Santi Martins aponta o lugar da escuta e da atenção. “Eu não acredito numa literatura sem troca, sem pé no chão, sem suor, sem sujar as mãos de terra, sem ter olho no olho e o espaço para o outro existir plenamente. Se acredito numa literatura que ocupe um lugar no mundo através de mim, primeiro como leitora, cidadã nesse mundo, não há outro caminho possível para uma escritora senão o do cultivo desse espaço em que a literatura possa habitar”, diz. E lembra o tema do Fliparacatu este ano: “O Sertão é dentro da gente porque dentro da gente existe uma terra árida. Uma escritora está nesse lugar, lavrando uma porçãozinha de terra por vez, com leitura, vivência, escuta. O primeiro broto de palavra escrita só aparece porque ali já existia muita literatura, antes de mim, antes da escritora”.
Cristovão Tezza acredita que é “o que escritoras e escritores quiserem; a literatura viva é sempre uma voz livre”.






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