Protesto cobra solução para dívida de R$ 40 milhões; falta de energia afeta água, escolas, postos de saúde e produção agrícola
Ryann Albuquerque
Publicado em 15/05/2026 às 10:53
| Atualizado em 15/05/2026 às 12:22
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Os produtores rurais voltaram a bloquear, nesta sexta-feira (15), a BR-428, em Orocó, no Sertão do São Francisco, em protesto contra a interrupção no fornecimento de energia elétrica na região.
O km 41 da rodovia foi fechado nos dois sentidos. A mobilização ocorre pelo mesmo motivo do ato realizado nessa quinta-feira (14), quando agricultores do Projeto Brígida protestaram contra o corte de energia que compromete o funcionamento das bombas de água, o abastecimento humano e a produção agrícola.
O impasse envolve uma dívida estimada em R$ 40 milhões junto à Neoenergia Pernambuco, referente ao fornecimento de energia em projetos do Sistema Itaparica. Com a interrupção, segundo os produtores, comunidades ficam sem água para consumo humano, escolas e postos de saúde deixam de funcionar plenamente e a produção agrícola é diretamente afetada.
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Medida de segurança
Procurada pela reportagem, a Neoenergia Pernambuco informou, em nota, que o desligamento emergencial foi ampliado na manhã dessa quinta-feira (14) devido ao impedimento de acesso das equipes técnicas à Subestação Brígida, em Orocó, para a realização de manutenções preventivas e corretivas.
Segundo a concessionária, a interrupção ocorrida no dia anterior fez com que as baterias responsáveis por manter os sistemas de monitoramento e comunicação da unidade se esgotassem, provocando a perda total de comunicação com a subestação.
Por medida de segurança, a empresa afirmou que foi necessário desligar integralmente a Subestação Brígida, o que também exigiu a interrupção do fornecimento de energia das subestações Santa Maria da Boa Vista e Caraíbas II.
Ainda de acordo com a Neoenergia, o restabelecimento do serviço depende do acesso das equipes técnicas ao local para a execução das manutenções necessárias, com o objetivo de garantir a segurança da população e da rede elétrica.
Produtores cobram
A manifestação realizada nessa quinta-feira foi pacífica e acompanhada pela Polícia Militar. Durante o bloqueio, os manifestantes liberaram a passagem de ambulâncias, veículos de segurança e carros com idosos e crianças. Agricultores afirmaram que o ato seguiria até que representantes do poder público apresentassem uma resposta concreta para o problema.
Vereador de Orocó e agricultor do Projeto Brígida, Patrício do Projeto (PSD) afirmou, em entrevista ao portal Café com Notícias, que a mobilização reflete a falta de solução para uma crise que atinge não apenas o Brígida, mas também outros perímetros irrigados do Sistema Itaparica.
“Esse movimento se faz necessário porque nós vivemos uma situação muito difícil no Sistema Itaparica, não só aqui no Projeto Brígida, mas também em outras localidades dos projetos de irrigação. O governo federal está com mais de R$ 40 milhões sem pagar à Neoenergia, e a empresa vem cortar a nossa energia. Com isso, fica sem água para o consumo humano, para as escolas, para os postos de saúde e para a agricultura”, disse.
Segundo o parlamentar, a cobrança dos produtores é direcionada principalmente ao governo federal, embora o problema também envolva órgãos e empresas ligados historicamente à operação do sistema, como a antiga Chesf, agora Axia Energia, e a Codevasf.
“A responsabilidade hoje é do governo federal. A Neoenergia cobra do governo federal, mas tem a Chesf e a Codevasf por trás dessa situação. O que a gente pede é que deputados, senadores, a governadora Raquel Lyra e o presidente Lula nos ajudem, para que esse dinheiro seja pago e a gente possa sair dessa situação difícil”, afirmou Patrício.
Axia Energia
A antiga Chesf passou a adotar a marca Axia Energia após a mudança de identidade da Eletrobras, controladora da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco. Apesar da alteração da marca, a personalidade jurídica das subsidiárias foi mantida, segundo comunicado da empresa ao mercado.
Procurada pela reportagem sobre a situação envolvendo o Projeto Brígida e o Sistema Itaparica, a Axia Energia informou, em nota, que “mantém sua atuação e seus compromissos relacionados aos processos sob sua responsabilidade no Sistema Itaparica”. A empresa afirmou, no entanto, que “não tem governança sobre a regularização de débitos de energia elétrica desses projetos irrigados”.
Projeto
O Projeto Público de Irrigação Brígida integra o Sistema Itaparica e foi criado no contexto do reassentamento de populações rurais afetadas pelo reservatório de Itaparica. De acordo com a Codevasf, o projeto fica em Orocó, no Submédio São Francisco, e possui 1.579 hectares de área irrigável total, 428 lotes, 10 agrovilas, um posto de saúde e seis escolas. A estrutura conta ainda com seis quilômetros de canais, 85 quilômetros de estradas e 610 quilômetros de drenos.
A principal cultura do projeto é a mandioca, responsável por 34% do Valor Bruto da Produção em 2023, seguida da banana, com 30%. Ainda segundo a Codevasf, o Brígida movimentou R$ 33,9 milhões em VBP no ano passado, com 1.316 hectares cultivados e 19,6 mil toneladas de produtos agrícolas.
Para os produtores, porém, os números econômicos contrastam com a insegurança no funcionamento da infraestrutura básica. Sem energia, as bombas deixam de operar e a água não chega às casas, às plantações e aos equipamentos públicos.
O agricultor J.B. Novais, que também participou da mobilização, disse, em entrevista ao portal Café com Notícias, que o corte no fornecimento de energia já atingia as vilas e as bombas responsáveis pelo abastecimento do sistema.
“Foi cortado o fornecimento de energia das vilas e das bombas também. Não tem energia, não tem água para o consumo humano, não tem nada”, afirmou.
Ele também destacou que o protesto não impedia atendimentos de urgência. “Carro de segurança, ambulância, idoso e criança estão sendo liberados. O protesto vai seguir até aparecer alguém do governo ou alguém competente para dizer alguma coisa”, disse.
A crise no Brígida faz parte de um problema mais amplo enfrentado por agricultores do Sistema Itaparica. Além do Projeto Brígida, outros produtores do sistema também relatam situação semelhante, com interrupção no fornecimento de energia e risco ao abastecimento de água e à produção irrigada.












