“Bad. Bad. Really, really bad.” Como diz a canção, é ruim. Ruim. Muito, muito ruim.
O filme “Michael”, a nova cinebiografia de Michael Jackson (1958-2009), foi produzido por diversos dos seus parentes e associados próximos. Por isso, ninguém esperava que pudesse ser um retrato intenso do controverso astro do pop.
Mas ainda surpreende que eles tenham feito um filme tão fraco e pouco competente, digno de ser exibido à tarde na TV.
O longa se arrasta cronologicamente pelos tempos de Michael no grupo Jackson 5 e seu sucesso solo em seguida.
E a narrativa termina em meados dos anos 1980, antes que ele fosse acusado de abuso sexual de menores, retirando da história tudo o que pudesse ser considerado controvertido. E também tudo o que pudesse ser considerado dramático.
Com isso, restam cenas e mais cenas de mandachuvas da indústria fonográfica dizendo a Michael como ele é incrivelmente talentoso, e do seu pai horrível, Joe Jackson (1928-2018).
Interpretado por Colman Domingo, quase irreconhecível com sua maquiagem protética, ele corre como um duende malvado, rosnando: “Lembre-se da sua família, Michael!”.
O personagem principal é interpretado pelo seu próprio sobrinho, Jaafar Jackson.
Ele deve ter sido escalado pela sua semelhança física com a pessoa real. Certamente, não foi pela sua capacidade de expressar emoções —não que houvesse muita necessidade disso no filme.
Quando não está no palco, nem em um estúdio de gravação, Michael sorri enquanto assiste à televisão com sua mãe (Nia Long), quando visita crianças doentes no hospital e quando compra animais para sua coleção particular.
“Eles não são meus pets, são meus amigos”, ele diz, sorrindo.
Quando Michael canta “Billie Jean”, o espectador fica imaginando como aquele doce e santo inocente poderia ter composto uma canção paranoica, com tanto senso de urgência e tão sexualmente carregada.
Mesmo assim, Michael Jackson é um personagem fascinante e com múltiplas facetas, em comparação com seus coadjuvantes.
Miles Teller mostra um sorriso afetado como o advogado fiel e solidário do cantor, John Branca —que, por acaso, é um dos produtores do filme na vida real.
Os irmãos de Michael são pouco marcantes no filme. O que é bizarro, já que alguns deles também são seus produtores. E Janet Jackson, irmã do astro, foi totalmente omitida.
O principal produtor desta biografia altamente elogiosa é Graham King, que foi responsável pela cinebiografia de Freddie Mercury (1946-1991).
“Bohemian Rhapsody” (2018) ganhou quatro troféus no Oscar, mas o mais provável é que “Michael” concorra ao Framboesa de Ouro.
A equipe também inclui o diretor Antoine Fuqua (do filme “Dia de Treinamento“, de 2001) e o roteirista John Logan (“Gladiador“, de 2000, e “O Aviador“, de 2004, entre outros). Mas seria impossível perceber por este filme que alguém fora do fã-clube de Michael Jackson estivesse envolvido na sua produção.
Os diálogos funcionais parecem placas de trânsito e os visuais são tão sem graça que até a reconstituição dos revolucionários vídeos e shows de Michael é sonolenta.
Esta é a ironia do projeto como um todo.
Não importa o que se pense sobre Michael Jackson, sua criação artística foi inovadora e espetacular. E o filme não traz essa essência.
Claramente, “Michael” se destinava a ser um tributo à sua pessoa, mas é um grave insulto a ele como artista.
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