Profissionais relatam dificuldades em conseguir pautas, equipamentos técnicos defasados e necessidade de investimentos estruturais em espaços públicos
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Reconhecido como um dos principais polos das artes cênicas do país, o Recife convive com desafios que afetam parte de seus teatros públicos.
Profissionais da cultura relatam dificuldades para conseguir pautas, equipamentos técnicos defasados, problemas de manutenção e necessidade de investimentos estruturais em espaços administrados pelo município.
As críticas atingem desde teatros históricos, como o Santa Isabel, até equipamentos que hoje concentram boa parte da produção local, como o Apolo e o Barreto Júnior.
Embora a Prefeitura do Recife afirme manter um programa permanente de manutenção e investimentos nos equipamentos culturais, artistas e técnicos afirmam que as intervenções ainda não são suficientes para atender às demandas da cena cultural da cidade.
Atuando há décadas nos palcos e bastidores, o iluminador cênico Cleison Ramos avalia que a situação dos teatros compromete tanto o trabalho dos profissionais quanto a experiência do público.
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“A maioria dos edifícios teatrais desta cidade está sucateada, funcionando de forma precária ou apenas com estrutura básica. Recife já deveria ter pelo menos dez salas de espetáculos completas, modernas e funcionando plenamente”, afirma.
Responsável pela iluminação de mais de 20 grupos e coletivos de teatro, dança e ópera da Região Metropolitana do Recife, Cleison considera que os equipamentos culturais deveriam funcionar como estruturas permanentes de incentivo à produção artística.
Para ele, “há uma preocupação maior em aparências a entender que esses equipamentos deveriam ser como uma máquina pulsante que precisa bombear cultura de forma excelente, não havendo espaço para insuficiência ou falência estrutural”.
Quem vai morrendo é o direito e a necessidade de fazer arte nesta cidade
Cleison Ramos, iluminador cênico
Sob responsabilidade da Prefeitura do Recife estão os teatros Santa Isabel, Apolo, Hermilo Borba Filho, Barreto Júnior e Teatro do Parque. Já o Teatro Luiz Mendonça, localizado no Parque Dona Lindu, passou a ser administrado pela concessionária Viva Parques.
O Governo de Pernambuco é responsável pelo Teatro Arraial Ariano Suassuna.
Teatros municipais concentram críticas

Iluminador relata problemas estruturais no Teatro Barreto Júnior, gerido pela Prefeitura do Recife – JAILTON JR./JC IMAGEM
Produtores culturais apontam dificuldades para conseguir datas nos equipamentos municipais. A produtora Fernanda Paulino relata que, desde 2024, artistas e produtores têm questionado os critérios adotados para a distribuição das pautas.
“Sempre tive muita dificuldade para conseguir pauta no fim do ano. Perguntava quais eram os critérios, se havia fila de espera ou um período específico para solicitar. Em sete anos produzindo espetáculos de dança, consegui utilizar o Teatro Luiz Mendonça apenas uma vez, nunca consegui pauta no Teatro do Parque e utilizei o Barreto Júnior em poucas ocasiões”, pontua.
Cleison Ramos também afirma que produtores encontram dificuldades para realizar temporadas em espaços como o Teatro do Parque, o Barreto Júnior e o Hermilo Borba Filho.
Em nota, a Prefeitura do Recife informou que os teatros registram uma grande procura, “priorizando produções e montagens locais e praticando valores abaixo da tabela de mercado para garantir que a cidade assegure palcos para escoar sua rica e diversificada produção cênica, musical e artística, mas que também seja capaz de dialogar com outras praças e suas produções”.
“Faz-se necessário considerar ainda que esses equipamentos precisam dar conta também das dimensões da oferta cultural gratuita e da formação de plateias, oferecendo eventos calendarizados, como festivais culturais, além de programações sistemáticas, como os concertos da Orquestra e da Banda sinfônicas”, destaca a gestão municipal.
Equipamentos apresentam problemas estruturais

Teatro de Santa Isabel Enquanto no histórico Teatro de Santa Isabel enfrenta problemas em iluminação, sonorização e cenotécnica, segundo Cleison Ramos – JAILTON JR./JC IMAGEM
Entre os principais problemas apontados pelos profissionais estão infiltrações, deficiência nos sistemas de iluminação e sonorização, dificuldades de logística e falta de modernização dos equipamentos.
No Teatro Apolo, área central do Recife, Cleison cita infiltrações na plateia e deficiências técnicas. “Da plateia ao palco, há muitos problemas antigos que permanecem sem solução”.
Já no Barreto Júnior, no bairro do Pina, zona sul da cidade, segundo ele, praticamente toda produção precisa complementar a estrutura com equipamentos próprios.
“Não há interesse em melhorias, sensação de abandono geral. É muito difícil trabalhar neste ambiente, gastamos muita energia lidando com problemas que existem e os que surgem durante os trabalhos”.
“O Apolo e o Barreto estão se deteriorando, sendo eles que estão recebendo grande parte da produção local agora”, reforça Fernanda.
Já no Hermilo Borba Filho, os relatos envolvem dificuldades para carga e descarga de cenários e limitações de acesso nos fins de semana.
Enquanto no histórico Teatro de Santa Isabel, Cleison afirma que os déficits em iluminação, sonorização e cenotécnica se arrastam há mais de uma década.
“No geral, falta interesse de gestão e gestores, ocasionando às vezes em embates e até desgastes com as equipes das casas de espetáculos. Quem vai morrendo é o direito e a necessidade de fazer arte nesta cidade”, reflete.
Prefeitura destaca investimentos
A Prefeitura do Recife afirmou que desde 2020 mantém o Move Cultura, política que garante aos equipamentos culturais manutenções periódicas contínuas para garantir condições adequadas de uso, segurança, conforto e qualidade técnica para artistas, trabalhadores da cultura e público em geral.
“Paralelamente, a gestão municipal vem realizando investimentos estruturais e técnicos voltados à modernização e qualificação desses espaços, reafirmando o compromisso com a valorização da cultura e com a ampliação do acesso da população”, diz o texto.
A gestão municipal listou as seguintes intervenções recentes e em andamento:
- Teatro do Parque: serviços de restauração da pintura artística em todo o edifício, revisão completa da coberta e das calhas e investimento no sistema de prevenção e combate a incêndio
- Teatros Apolo e Hermilo Borba Filho: estão sendo executadas manutenções na coberta e nas calhas e está previsto investimento para a reabertura do Cine Apolo, contemplando adequações de acessibilidade, implantação de guarda-corpo e corrimãos e a modernização dos equipamentos técnicos
- Teatro Barreto Júnior: manutenções rotineiras
- Teatro de Santa Isabel: encontra-se em amplo processo de restauro, para requalificação geral do teatro, substituição da tapeçaria e dos estofados (em fase de execução), intervenções no sistema de prevenção e combate a incêndio, manutenção da coberta e melhorias no sistema de climatização
Luiz Mendonça e concessão

Após concessão do Parque Dona Lindu, Teatro Luiz Mendonça passou a ser gerido pela empresa Viva Parques – Divulgação
Um dos poucos equipamentos na zona sul do Recife, o Teatro Luiz Mendonça recebeu investimentos da empresa Viva Parques, gestora do Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, onde está localizado.
De acordo com Cleison Ramos, as melhorias foram na iluminação, projeção e estrutura do espaço. Para ele, “tudo que foi realizado no equipamento até o presente, poderia (e deveria) ser realizado com recursos do município enquanto o mesmo geria o edifício”.
Apesar disso, o iluminador criticou a dificuldade em conseguir pagar a pauta – valor para a utilização do espaço -, que teria aumentado após a concessão.
“O teatro ganhou estrutura, mas virou as costas para a própria cidade ao restringir o acesso da produção local.”
Em entrevista ao JC em 2025, o gestor cultural da Viva Parques, Celso Curi, explicou que o valor seria negociável “desde que o projeto seja importante para a cidade ou para a produção cultural local”, sem mínimo ou limite. Inclusive, projetos podem ser subsidiados e a locação do espaço pode ser gratuita.
Já a Prefeitura do Recife afirmou que a manutenção e a operação do Parque Dona Lindu são, por ora, de responsabilidade da concessionária Viva Parques Recife.
Valdemar de Oliveira permanece fechado

Fechado há mais de 5 anos, Teatro Valdemar de Oliveira foi classificado pela Defesa Civil com alto risco de desabamento – JAILTON JR./JC IMAGEM
Fechado há mais de cinco anos, o Teatro Valdemar de Oliveira, no bairro da Boa Vista, área central do Recife, acumula episódios de invasões, furtos, depredação e um incêndio registrado em 2024.
O imóvel foi classificado pela Defesa Civil do Recife como de alto risco de desabamento neste ano e é alvo de investigação do Ministério Público de Pernambuco (MPPE).
Administrado pelo Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), o espaço permanece sem previsão de reabertura.
“O Valdemar de Oliveira está jazendo em abandono e miséria”, resume Fernanda Paulino.
Para o promotor Sérgio Gadelha Souto, o teatro, “um patrimônio cultural com importância histórica, foi vítima de depredações crescentes desde 2023, culminando em um incêndio em fevereiro de 2024”.
Também ressalta que, “apesar de iniciado o processo de tombamento estadual (Lei nº 7970/1979), o local permanece desprotegido, enfrentando descaso dos órgãos responsáveis”.
Teatro estadual
Responsável pela administração do Teatro Arraial Ariano Suassuna, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) informou, em nota, que o equipamento “encontra-se em pleno funcionamento, com pauta ativa e condições adequadas para a realização de atividades culturais”.
“Ao assumir a gestão, em 2023, o equipamento estava temporariamente fechado devido a questões de manutenção estrutural, incluindo a inoperância do sistema de climatização. As intervenções necessárias foram realizadas e o teatro retomou suas atividades, mantendo-se em funcionamento regular e com plena capacidade de uso desde então. Recentemente, o espaço passou por um processo de restauração dos vitrais”.
No campo da programação, o Ariano Suassuna conta com edital anual de ocupação de pauta, “contemplando espetáculos gratuitos de teatro e dança, voltados ao público adulto e infantil. Além disso, o espaço também recebe solicitações de pautas ao longo do ano”, aponta a gestão estadual.
Segundo o Governo de Pernambuco, não há cobrança de aluguel para utilização do teatro. A contrapartida é o destino de 10% da bilheteria dos espetáculos à manutenção do equipamento, contribuindo para a sustentabilidade de sua operação.
Cleison Ramos analisa que em todos os equipamentos há demandas urgentes a serem solucionadas pelo poder público.
“A gente trabalha numa área muito frágil. Não há fiscalização como nas outras profissões nem valorização pela sociedade. Financeiramente, o setor da cultura é o último a receber investimentos e o primeiro que sofre cortes e isso piora em certos períodos políticos”, aponta.
O cenário também é lamentando pela produtora Fernanda Paulino. “Uma cidade cheia de fervor artístico está sem espaço para dar vazão aos seus projetos. Uma pena. Uma vergonha”.














