Costuma acontecer em momentos de absoluta distração, na pressa de encontrar um documento, um objeto perdido, fazer uma mudança, organizar um armário, matar cupim, qualquer providência prática da vida. É nessas horas que chega o susto, a presença voluntariosa da ausência, sem aviso nem preparo.
Foi assim que encontrei o caderno de francês da minha tia, minha maior saudade.
Eram anotações de aulas do primeiro semestre. Pronomes, verbos básicos, algumas frases de apresentação e de sobrevivência em viagens. Era um caderno de arame torto, páginas amareladas e a letra dela do mesmo jeito, como se fossem exercícios feitos ontem.
São pelo menos 40 anos entre essas aulas e o dia do reencontro. Mesmo depois de fechar e guardar o caderno, dava pra ouvir a voz do professor falando. Nunca o conheci, não sei como era, não estive lá, mas a cabeça arma cenas pra gente, acha uma voz genérica com sotaque.
A saudade é uma armadilha enferrujada, não tem chave, a gente fica e se acostuma com as maneiras diferentes de doer.
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Um dos problemas da morte, a indesejada das gentes, é chegar antes do fim da estrada. Ou do que achamos que seria a hora certa do fim.
Dias antes de eu achar o caderno, minha gerente do banco me ofereceu um seguro de vida, cheia de constrangimento, batendo na madeira. Demora, mas chega, eu disse, já estou ciente.
Saber a gente sabe, mas só aguentamos na ilusão de que será no tempo mais justo, quando tudo estiver ordenado, todos amparados, quando não houver mais sol.
A minha tia queria terminar o curso de francês, mas não deu tempo. Por isso, eu não aguentei ficar com aquele caderno nas mãos. Ela não teve tempo para ser fluente, viajar para a França no pacote de excursão.
Não sei como uma mulher de tanto bom gosto tinha paciência para excursões, mas ela adorava. Fazia todos os programas na maior alegria, por pior que fosse a furada “pega turista”. Não herdei essa paciência, mas iria feliz com ela se hoje fosse possível.
Encontrei o caderno de francês enquanto arrumava meus livros para a nova estante que vai chegar. Estão sendo organizados em caixas temáticas, e minha decisão de doar muitos deles tornou-se mais fria. Alimento a ilusão de um futuro com mais tempo livre para ler em paz, mas pelo visto ainda vai demorar.
A obviedade dolorosa de que não temos todo o tempo do mundo sangra e salva. Ainda estamos aqui. Enquanto minha tia esteve, fez muitas coisas. Por exemplo: tocava piano e acordeão muito bem. O piano foi vendido antes do meu nascimento para custear um mestrado em entomologia em São Paulo. Era caro ter piano em Maranguape nos anos 1960.
Lembrei que falávamos disso, do quanto eu tinha vontade de tocar piano também, de ter um piano em casa. Sempre desistimos da ideia pelos percalços, a dificuldade de afinar, chamar um afinador sempre. E tem o cupim, as teclas de marfim quebradas, deixa o piano pra lá.
Esse fio de lembranças aconteceu enquanto eu levava os livros para as caixas. Ao escrever a data, percebi que era o aniversário dela. Oitenta anos, ela faria.
Achei justo que eu ganhasse um presente, alguma coisa que minha ilusão me fizesse pensar que também seria dela, para ela, por ela. Foi assim que realizei um sonho grande e comprei um piano.
Que a vida me dê tempo, muito tempo, para aprender a tocar “Volver a los 17“, nossa música favorita. Ainda bem que a saudade sabe cantar.
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