A escritora Olga Tokarczuk disse que usava inteligência artificial. Por isso, saíram várias notícias segundo as quais a escritora Olga Tokarczuk teria escrito o seu último livro com ajuda da inteligência artificial.
E então a escritora Olga Tokarczuk teve de vir esclarecer que usa a inteligência artificial para fazer pesquisa (que depois submete a verificação), tal como sempre fez e continua a fazer com livros, bibliotecas ou arquivos.
Durante alguns dias, porém, gerou-se uma pequena comoção: uma escritora galardoada com o prêmio Nobel escrevia os seus livros em parceria com um modelo de linguagem gerador de conteúdos.
Por isso, abri quatro desses modelos e perguntei-lhes se um romance escrito por eles seria literatura. De um modo mais ou menos categórico, todos disseram que não.
Alguns fizeram uma descrição pungente do que os desqualifica para produzir arte, que é o mesmo que nos impede de os considerar humanos: “Eu não tenho infância, ressentimentos, medo da morte, obsessões, não perdi alguém que amo, não senti o frio na barriga do primeiro beijo, não tive o coração partido.”
Mas todos iniciaram a resposta dizendo mais ou menos o mesmo: “Essa é uma pergunta extraordinariamente profunda”.
Este tipo de elogio ao utilizador é constante. Parece-me que o seu sucesso e popularidade dependem disso, e é por isso que as pessoas usam o ChatGPT como a Rainha Má usa o espelho. “Chat, chat meu, existe alguém mais belo do que eu ?”. E, como ele não conhece ou faz por ignorar a existência da Branca de Neve, a resposta é sempre satisfatória.
Uma amiga perguntou ao ChatGPT se devia importar para Portugal determinado produto americano. Ele respondeu: “Sim! Que ideia magnífica e criativa. Parece-me um projeto excelente.” Então ela disse: “Não sejas condescendente. Diz o que achas mesmo.” E ele respondeu: “É uma má ideia. As características do mercado português são bastante específicas e o que resulta nos Estados Unidos irá provavelmente fracassar em Portugal.”
Ela ficou convencida com esta última opinião, mas creio que devia ter desconfiado das duas. O ChatGPT limitou-se a lisonjear o que considerou ser a expectativa dela em cada momento, revelando assim o que me parece ser a sua natureza essencial: ele é um puxa-saco automático.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.














