Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Agualusa non supra grammaticos

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Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Agualusa non supra grammaticos


Algumas das coisas mais interessantes que eu sei sobre a língua portuguesa aprendi com um húngaro. Esta lição não é exatamente sobre língua portuguesa, mas é sobre língua.

Em “Não Perca o Seu Latim”, Paulo Rónai conta que o imperador Sigismundo se enganou no gênero de uma palavra e ordenou que, dali em diante, a palavra passasse a ter o novo gênero que a sua ignorância tinha inventado.

Foi aí que um monge, recusando a ideia, proferiu a frase célebre: “Caesar non supra grammaticos”, ou “o imperador não está acima dos gramáticos”, isto é, não manda na gramática. É um argumento com o qual é fácil simpatizar —de fato, ninguém manda na gramática, nem mesmo um imperador.

O escritor José Eduardo Agualusa propôs que, por ter evoluído em contato com o árabe, o guarani, o kimbundo, etc., a língua portuguesa mudasse de nome para língua geral.

O problema é que esse maravilhoso processo evolutivo é precisamente o que torna a nossa língua particular. E particular é o antônimo de geral. Por outro lado, o processo que Agualusa descreve é comum a todas as línguas vivas, o que se verifica no modo como o inglês evoluiu e evolui nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e no Reino Unido; acontecendo o mesmo ao espanhol em Espanha, Argentina, México, Uruguai e Peru, e ao francês em França, Costa do Marfim e Canadá.

Mas estes falantes não falam “general language”, nem “lengua general”, nem “langue générale”. De acordo com os critérios de Agualusa, o mundo inteiro falaria língua geral.

Ele só propõe a mudança para o português, dizendo que “talvez seja uma boa altura para pensar numa designação que reflita o que a língua é hoje, não mais uma língua portuguesa, não mais um idioma colonial, de opressão, de exploração, de domínio”.

Sucede que, se tudo isso manchou a língua, mudar-lhe o nome não resolve muito. Trocar o rótulo da garrafa não melhora a qualidade do vinho. Além disso, a proposta de Agualusa parece padecer do moderno vício da literalidade.

A palavra “portuguesa”, na expressão “língua portuguesa”, não significa “aquilo que pertence exclusivamente a Portugal”. Do mesmo modo, quando um cidadão brasileiro passeia na rua com o seu pastor alemão, ninguém supõe que o bicho é propriedade da República Federal da Alemanha. Não vale a pena passar a chamar-lhe cão geral.


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