Mais uma vez, a originalidade da moda brasileira morreu na praia —por ironia, no Rio de Janeiro. Não pegou nada bem para as grifes nacionais que importaram visuais de grandes maisons internacionais e tentaram convencer o público, durante a Rio Fashion Week, há duas semanas, de que se tratavam de peças autorais, sobretudo quando as criações originais, no caso, estiveram entre as mais viralizadas dos últimos seis meses.
Salvo exceções, como sempre. Lenny Niemeyer, com a elegância de sua moda praia, reconhecida muito além do Brasil. Patrícia Viera, que, na busca por ressignificar o couro, transformou curvas, calçadas e paisagens da capital fluminense em marchetaria, ao lado da artista Natalia Reys.
Handred, com sua moda soturna. A catarinense Karoline Vitto, com seu guarda-roupa para todos os corpos. E, por fim, a Blue Man, etiqueta carioca que entregou uma moda coerente com o legado que David e Simão Azulay construíram desde os anos 1970.
Em comum, estas marcas mostraram como ainda é possível transformar repertório em novidade. Algumas sabem fazer; outras preferem abstrair do próprio mundo em busca do look, mesmo que ele seja da Chanel.
De fato, o look nababesco que encerrou o desfile de estreia de Matthieu Blazy na casa francesa, da saia composta pelas incontáveis flores costuradas à mão pelo ateliê Lemarié, ecoou na passarela de Isabela Capeto. Ainda que não se trate de cópia —plágio, afinal, é crime—, é irrefutável de onde veio essa aproximação estética.
O episódio apenas relembra o quanto parte da moda brasileira permanece flertando menos com autoria e mais com uma lógica perigosamente próxima à do fast fashion. Trata-se da reprodução acelerada de desejos recém-consagrados sob matérias-primas mais palatáveis.
Curiosamente, considerando as notícias envolvendo as parcerias criativas entre estilistas como John Galliano, Stella McCartney e Victoria Beckham com Zara, H&M e Gap, respectivamente, até as redes de produção em massa vêm se distanciando do sistema baseado na mera reprodução, tentando encontrar alguma autoria além do previsível.
Isabela Capeto sustenta uma tradição artesanal, mas, quando a semelhança atinge esse grau, a discussão deixa de ser sobre processo para se tornar comparação. Nesse terreno, colocar-se do outro lado da Chanel dificilmente é um bom negócio.
Também não parece coincidência encontrar na passarela da Gucci as tiras do fio dental no decote do vestido usado por Carol Trentini no desfile da Osklen —menos ainda a sequência inicial de alças despontando das calças de cós baixo, além do fio dental com detalhe metálico sob o vestido transparente de Daiane Conterato.
Não se trata apenas de revirar os arquivos da Gucci, tampouco de um zeitgeist nostálgico celebrando os anos áureos de Tom Ford na maison italiana. Exceto para o próprio Demna Gvasalia, que se apoderou da herança criativa de seu antecessor na maison para reverenciá-la, ao reencarnar os cós baixíssimos e o fio dental icônico com o logo da Gucci lançado no verão de 1997.
O que pouco faz sentido para a marca carioca que, recém-retomada por Oskar Metsavaht, teria razões de sobra para colocar seu inovador couro de pirarucu como cerne da coleção. Entretanto, pareceu mais sedutor traduzir para o espírito tropical a versão do vestido preto fulgurante de mangas longas, com tiras de fio dental em evidência, usado por Kate Moss —peça que viralizou no instante em que ela surgiu na passarela durante a Semana de Moda de Milão e que, desde então, ainda não caiu no esquecimento.
O caráter histriônico na Misci não deixa dúvidas sobre o quanto o cenário está acima da roupa. A iluminação tampouco ajuda; o que se vê, há algumas temporadas, é a inconsistência criativa de uma marca que ainda parece não saber exatamente quem é.
Se, em novembro passado, a marca ocupou o Cine Marabá sob evidentes ecos de Dries Van Noten — perceptíveis nas combinações de texturas, cores e padronagens tão características do estilista belga—, no Sambódromo, escolhido como passarela carioca ao som de 80 ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis, surgiu uma miscelânea entre o que o diretor criativo Airon Martin chama de vestuário do interior e referências visivelmente alinhadas ao período de Matthieu Blazy na Bottega Veneta.
Não por acaso, os fios intrincados que marcaram vestidos do franco-belga reapareceram ali, do curto verde ao longo branco, como mais um aceno reconhecível do que propriamente uma assinatura.
No line-up da Rio Fashion Week, a semelhança também ultrapassou o evidente quando a Hisha ressuscitou o macacão bordado do verão 2017 da Roberto Cavalli, da era Peter Dundas.
Mas há nuances distintas quando se trata de ultrapassar o limite da similaridade. No caso da Aluf, trata-se do que se pode chamar de aproximação excessiva, a ponto de confundir até os mais atentos.
Ainda que Ana Luisa Fernandes trabalhe a experimentação de texturas e tenha construído, desde a fundação da marca em 2018, um vocabulário próprio de modelagens experimentais, persistem coincidências visuais capazes de aproximar suas criações do universo de Emannuelle Junqueira, estilista reconhecida pela mistura de rendas, seda e tule envelhecido, sobretudo em vestidos de noiva.
O primeiro grande ponto de tensão surgiu no ano passado, quando a Aluf anunciou sua linha de noivas, incluindo o modelo Osaka, peça cuja construção visual poderia facilmente ser confundida com uma criação de Junqueira, especialmente por seu efeito delicado em gazar de seda. Na passarela do Rio, Ana Luisa Fernandes apresentou o mesmo vestido em sarja de algodão, mas, mesmo sob outro material, a semelhança ainda provoca confusão estética entre os desavisados.
Procurada, a Aluf afirmou que sua construção estética se desenvolve de forma autoral e contínua, amplamente documentada ao longo de suas coleções prêt-à-porter e respectivos desdobramentos. Já a assessoria de Emannuelle Junqueira informou que, no início de março, foi enviada uma notificação extrajudicial à Aluf e que o caso está sob responsabilidade de seus advogados.
Em suma, o anúncio do retorno da Cidade Maravilhosa como sede de uma semana de moda foi animador, embora o verdadeiro boicote esteja na passarela. Infelizmente, ainda se espera que as referências venham de fora. É assim, afinal, desde Dom João 6º —e, por ironia, segue sendo no mesmo Rio de Janeiro.

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