Muito tem se falado sobre o autor francês Édouard Louis, que flanou pelas ruas de Paraty, jogou futebol com Chico Buarque, foi ovacionado na Flip, passou por programas de televisão, encontros com artistas, além de baladas no centro de São Paulo.
Apesar dessa popularidade, é interessante pensar no que sobrou da fama de Louis com um público que não se sente tão bem recebido em determinadas rodas em que o autor foi aclamado: os leitores jovens.
Se em seu livro “Mudar: Método”, recém-lançado com tradução de Marília Scalzo, o escritor conta que se debruçou pela literatura do mundo para conseguir escapar do lugar opressor em que morava, o mesmo se pode dizer sobre os jovens que têm usado os livros para fugir de um mundo que os oprime.
São eles (e me incluo nessa, apesar de já produzir conteúdo há mais de dez anos para a internet) que resolveram ligar uma câmera para opinar sobre as leituras que faziam e não viam sendo aclamadas em nenhum outro lugar. São eles que transformam obras literárias em fenômenos comerciais, tudo pela graça alcançada de se ver nas linhas escritas.
Louis, que tem 32 anos, é contundente em afirmar em entrevistas que sua literatura é um paradoxo e que deve causar “ódio, ira e revolta“. Tudo isso porque os livros lidos por ele foram uma espécie de catapulta para fugir de onde vivia.
No programa Roda Viva, ele disse: “Todas as regras da literatura foram criadas a partir de um mundo que não é igual ao meu. A literatura costuma dizer que as pessoas que saem de seus lugares, que são excluídas, são mais sensíveis e por isso saem. Eu não saí por ser mais sensível, eu saí justamente por ser excluído e maltratado.”
“Se hoje eu pudesse voltar no tempo, faria com que as pessoas me chamassem de ‘bicha’ porque foi isso que me motivou a ir embora”, continuou. “Ao mesmo tempo foi um sofrimento terrível. E isso não é ser salvo pela violência? Não é ser salvo pela exclusão? É uma espécie de paradoxo que eu tento compreender pela literatura.”
Esses livros nos salvam constantemente, como se fôssemos Dom Quixote atrás dos moinhos de vento, ao mesmo tempo em que somos constantemente excluídos dessas histórias.
Tudo a Ler
Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias
Se hoje há uma gama de pessoas que acusam a literatura de ter se rendido a um suposto “mimimi”, ou que não há histórias, mas apenas pautas sociais, por que ainda há tanta gente que não se vê nos livros?
Ovacionar Édouard Louis e não validar a literatura dita comercial, que agrega e produz identificação, é no mínimo incongruente.
Em seus livros e palestras, o francês questiona seu lugar no mundo e ainda atiça (de novo, no Roda Viva): “Quando entrei no mundo literário, quando comecei a escrever livros, eu ouvia por toda parte uma espécie de ideologia da burguesia, que repetia que a literatura unia as pessoas, que ela construía pontes, que abria o nosso espírito. A literatura não fez nada disso pela minha mãe. A literatura humilhou a minha mãe”.
Em seu “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher”, ele escreve que “construíram o que chamam de literatura contra vidas e corpos como o dela”.
É claro que para além da identificação, falamos aqui de um recorte de classe social. Mas é importante dizer que toda a literatura que cria esse recorte de público jovem versus adulto também passa pelas mesmas questões.
Quando Édouard Louis conta o quanto precisou se adequar para pertencer, mudando até seu nome de batismo, ele também mostra quão difícil é pertencer com as narrativas que já existem e são apresentadas como as únicas com qualidade suficiente para nos inserir na categoria de leitores (ou intelectuais).
E fica mais esquisito quando lembramos que livros que fogem dessa narrativa e que, por consequência, avançam com leitores mais jovens, são colocados em uma caixinha menos especial, um lugar de apenas entretenimento, baixa qualidade literária ou qualquer outra observação fantasiada de crítica.
E não é de hoje: quem nunca ouviu que determinada obra não era literatura de verdade por ser comercial demais que atire a primeira pedra.
Como possível escapatória, Louis aponta a autobiografia (ou até a autoficção) como uma arte de sobreviventes, justamente um lugar onde essas vozes, até então excluídas, podem se ver, ler e ouvir.
Mas até quando esse será o único lugar possível? Por que tantas outras formas de se comunicar não foram liberadas? Mais do que isso, por que não podemos frequentar os mesmos lugares dos que falam as mesmas coisas que são faladas desde que o mundo é mundo? Por que, ainda, a literatura que retrata a nós não pode ser ovacionada mesmo quando não fala ou parte de um lugar burguês?
Perguntas ainda sem respostas, mas que estão presentes em várias indicações no seu feed do TikTok.
/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/previsao-do-horoscopo-do-dia.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/freepik-canteiro-de-jardim-ensola-2845945784.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)






/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/previsao-do-horoscopo-do-dia.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/freepik-canteiro-de-jardim-ensola-2845945784.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)