Hylde Lynn Helphenstein foi encontrada morta na cama ao lado de comprimidos e uma garrafa de vodca, um copo atirado ao chão da suíte onde dormia no luxuoso hotel Rosewood, no centro de São Paulo. O nome desconhecido de muitos, mais muito conhecido por trás do disfarce Jerry Gogosian, ganhou as manchetes na última semana, detonando uma onda de declarações dos mais poderosos personagens do mundo da arte, que em suas paródias ela fez parecer agressivos, ambiciosos, sexy, ingênuos, trapaceiros, criminosos, quando não assediadores —isso sem nunca perder a classe, a elegância e o humor dos mais sofisticados.
O perfil no Instagram que a jovem artista batizou com um mash-up dos nomes do crítico Jerry Saltz, da revista New York, e Larry Gagosian, marchand dono de um dos maiores impérios de galerias de arte no planeta, seguido por dez entre dez dos habitués desse mundo de altos e baixos, e altas baixarias, denunciava as contradições e as mais sedutoras idiossincrasias de um universo opaco e muitas vezes impossível de entender para quem não passa da porta ou da antessala das alcovas do chamado mundinho.
É tudo muito sedutor, ao mesmo tempo que pode ser raso, decepcionante, ou pior ainda, muito perigoso. Enquanto a polícia investiga o que terá acontecido a Helphenstein na tarde daquele último domingo do mês passado, quando ela foi encontrada já sem vida, é difícil não pensar que a jovem artista que fez de seu diário mordaz das extravagâncias desse sistema não pode ter sido mais uma vítima de suas engrenagens selvagens.
De um lado, os artistas em busca da fama, do reconhecimento e do dinheiro. De outro, os colecionadores no topo do sistema financeiro apostando suas fichas na estrela da vez. No meio do caminho, galeristas, consultores, os críticos que importam cada vez menos, cada um buscando um fiapo de luz e glória num circo regido por regras indecifráveis, subjetivas, tão inexatas quanto é mesmo a natureza da arte.
Nesse mundo, movido tanto por dinheiro quanto por quantidades industriais de champanhe, cocaína e antidepressivos, “uppers” e “downers”, é difícil manter a sanidade —não são poucos os artistas e agentes de mercado que vez ou outra saem de cena para se internar em clínicas de reabilitação, e ainda fazem disso o assunto de suas obras mais confessionais, da mesma forma que não são muitos os que saem de cena de vez, num momento de descontrole qualquer. Será que tudo está tão acelerado que já perdeu a graça?
FREIO DE MÃO Uma das maiores galerias do mundo, a americana Pace, chocou o mercado na última semana ao anunciar que deixaria de representar 50 de seus artistas e cortar uma parte importante de sua força de trabalho, num sinal de que gigantes também tropeçam. O anúncio vem no rastro do que parece ser o início de uma quebradeira generalizada, logo depois das poderosas Blum, em Los Angeles, e a Stephen Friedman, em Londres, fecharem as portas de vez. Está cada vez mais difícil ficar no azul num mundo em chamas.
FAÇAM SUAS APOSTAS Enquanto isso, quem não pensa em comprar nada nessas galerias já pode entrar no jogo pela porta dos fundos. Plataformas de apostas como Kalshi e Polymarket, que promovem jogos de azar envolvendo a previsão de um resultado eleitoral ou de um jogo de basquete, agora já entraram na seara dos leilões de casas como Christie’s, Sotheby’s e Phillips. Você pode apostar se uma tela de Pablo Picasso baterá seu recorde e lucrar com isso —só lembre que o “insider trading” aqui é feroz e irrefreável.
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