Se você jogasse uma moeda para o alto 92 vezes e ela caísse “cara” em todas as jogadas, você questionaria as leis da física ou a sua própria sanidade? É com esse tipo de pane no sistema da lógica que a nova montagem de “Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos” dá as boas-vindas ao espectador.
Idealizada por Rafael Gomes e Daniel Haidar, a peça celebra os 60 anos da consagrada obra de Tom Stoppard e ocupa o Nu Cine Copan, sob a direção afiada de Dagoberto Feliz. O espetáculo nos joga no infortúnio de dois homens perfeitamente comuns, meio perdidos e sem bússola, tentando decifrar uma situação colossal que foge totalmente ao controle deles — e, convenhamos, quem nunca se sentiu assim?
A experiência do público começa logo na chegada, ao se deparar com os corpos dos protagonistas cobertos, em uma atmosfera que evoca um necrotério; em seguida, todos são convidados a entrar na engrenagem da peça por um clown, figura enigmática que surge no topo da escada.
O golpe de mestre de Stoppard foi pegar dois personagens periféricos da tragédia de “Hamlet”, tirá-los da sombra e colocá-los no centro do palco. Eles não são heróis ou vilões; são homens comuns, como nós, presos em uma teia de segredos políticos que não conseguem decifrar.
É aí que o espetáculo encontra o pensamento de Arthur Schopenhauer. O filósofo defendia que a pior forma de tragédia não vem de vilões terríveis, mas da própria situação. É quando pessoas simples, sem maldade alguma, são colocadas em circunstâncias que, pelo mero desenrolar dos fatos, as levam a destruir umas às outras.
Schopenhauer também dizia que nossa sensação de controle é uma ilusão e que somos movidos por um destino cego. Na peça, essa força é o próprio texto de William Shakespeare. Como Ros e Guil são personagens de uma história escrita há séculos, o futuro deles já está selado. Eles jogam moedas e fazem perguntas para entender o que acontece, mas as páginas já estão prontas. Eles têm a liberdade de andar pelo convés do navio rumo à Inglaterra, mas o barco navega direto para a forca.
Para fazer esse mecanismo de diálogos rápidos funcionar, a produção conta com o trabalho de um trio de atores em perfeita sintonia. Daniel Haidar interpreta um Guildenstern cerebral e tenso — o que faz sentido, já que ele também está no elenco de “Hamlet, Sonhos que Virão”, espetáculo irmão que está em cartaz em simbiose com este. Haidar transita com elegância entre a urgência da tragédia e a exaustão de quem busca lógica no absurdo.
Ao seu lado, Dom Capelari faz o contraponto como Rosencrantz, usando ironia e tempo de comédia. Capelari, que já viveu o próprio Hamlet em outra montagem, aproveita essa bagagem para construir o cansaço do personagem, que aos poucos desiste de lutar contra o inevitável.
Fechando o trio, Victor Mendes dá vida ao líder da trupe de teatro, O Ator — o clown da abertura da peça. Mendes funciona como o mestre de cerimônias que compreende as regras do jogo e lembra aos cortesãos que a arte tem um desenho rigoroso, enquanto a vida real é um caos.
A química dos três transforma o debate filosófico em um jogo dinâmico, onde o humor disfarça a melancolia. Ainda assim, a obra assume riscos. Quem assiste a peça vizinha tem uma experiência complementar, mas o espetáculo pode deixar o espectador desavisado deslocado na enxurrada de referências. Além disso, uma montagem mais enxuta, talvez 15 minutos a menos, evitaria o risco do tédio e garantiria o entusiasmo da plateia do início ao fim.
O ciclo se fecha de forma literal. Quando as luzes se apagam e os protagonistas somem de cena após o anúncio do embaixador inglês de que “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos”, o público, ao sair, reencontra os corpos inertes e cobertos sobre as macas, exatamente como no início. Suas existências viram apenas uma nota de rodapé na tragédia alheia, restando o silêncio solene que encerra o texto de Shakespeare.
Três perguntas para…
… Daniel Haidar
Você e Rafael Gomes idealizaram esta montagem como uma experiência simultânea ao Hamlet em cartaz no mesmo espaço. Como nasceu a ideia de criar um universo cênico compartilhado, quase como um “lado B” da tragédia?
Eu já estava revisitando o texto — que conheço há alguns anos para fins de pesquisa — durante os ensaios de “Hamlet, Sonhos Que Virão”. Entusiasmado com as possibilidades do Nu Cine Copan, o Rafael me perguntou: “Será que não fazemos ‘Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos’ em paralelo ao ‘Hamlet?'”. Foi o necessário para me incendiar. Até então, não sabia que isso era uma possibilidade, mas a realização se deve muito a essa parceria. Pareceu-me a ocasião perfeita para o início das comemorações de 60 anos dessa obra: trata-se da primeira montagem site-specific do texto no mundo e a primeira vez, no Brasil, que ela coexiste com sua obra-mãe.
A experiência fica mais rica para quem assiste às duas montagens, mas também corre o risco de deixar os desavisados um pouco deslocados. Como vocês lidaram com esse desafio na criação?
O processo dos próprios personagens durante a peça é o de relembrar a trama e de descobri-la nesse caminho. O próprio Ator, personagem do Victor Mendes, narra a trama de Hamlet para o Ros e para o Guil. Claro que o aproveitamento mais profundo das nuances e do domínio shakespeariano de Tom Stoppard é muito mais evidente para quem está com a peça fresca na cabeça; mas o Dagoberto Feliz prezou muito, durante o processo, para que quem não conhece a história também possa se divertir através de nós.
“Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos” entrega o fim logo de cara. Na sua visão, onde reside a tensão dramática quando o destino já está selado?
No mesmo lugar que na vida! A graça está no que acontece no meio do caminho. Todos nós sabemos o nosso inevitável fim, e nem por isso paramos ou deixamos de nos divertir no “entre”, no “durante”. Nós nos apaixonamos, debatemos, queremos evoluir e nos questionamos sobre o nosso propósito aqui. No espetáculo, os dois amigos não sabem o seu final, embora o público já o conheça, então é prazeroso vê-los desenhando — ou sendo desenhados por — seu destino.
Como diria Guildenstern: o único começo é o parto; o único fim é a morte. Se você não puder contar com isso, com o que poderá contar?
Nu Cine Copan – av. Ipiranga, 200 – região central. Domingo, 20h30. Até meados de julho. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 75 (meia-entrada) em byinti.com













