Opinião – Mise-en-scène: Nova montagem de ‘Alta Sociedade’ atualiza farsa de Mauro Rasi no Rio

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Opinião – Mise-en-scène: Nova montagem de ‘Alta Sociedade’ atualiza farsa de Mauro Rasi no Rio


Mauro Rasi (1949–2003) sabia uma coisa: o riso da elite brasileira não vem de uma alegria genuína. Ele surge de um pânico bem disfarçado, em taças de champanhe francês. E essa verdade desconfortável vem à tona na nova produção de “Alta Sociedade”, que está em cartaz no Teatro Vannucci, no Rio de Janeiro, dirigida por Emílio de Mello. A farsa de Rasi foi reconfigurada de uma forma que não tem medo de ser indigesta.

Amanda Jordão fez um trabalho incrível na atualização do texto. Ela teve a sagacidade de espetar o Brasil de hoje na veia da narrativa. Nomes como Daniel Vorcaro, que pipocam nas colunas de finanças e escândalos, viram personagens de mentira que parecem verdades incômodas. O jargão das novas fraudes, das negociatas de gabinete, dos esquemas que a gente lê no jornal enquanto toma café: tudo entra em cena com uma naturalidade assustadora.

O mais perturbador é perceber como um texto escrito na virada do milênio se encaixa perfeitamente no noticiário de hoje, não porque seja profético, mas porque a ética da nossa burguesia continua paralisada no mesmo lugar. Os mecanismos de poder, a convicção na impunidade, as articulações nos bastidores: mudam os nomes, mudam os operadores, mas a engrenagem é sempre a mesma.

No meio dessa fogueira de vaidades, Julia Lemmertz e Orã Figueiredo protagonizam um duelo refinadíssimo. Eles interpretam Sylvia e Leopoldo, o casal milionário que passa o Réveillon encurralado no Edifício Chopin —não por acaso, mas por escolhas que agora batem à porta. Ambos estreiam na obra de Rasi e já mostram uma química magnética, dessas que se constroem na cumplicidade criminosa e no medo compartilhado de ouvir a sirene da Polícia Federal ou um telefonema do “sombra”.

Lemmertz compõe uma Sylvia esplêndida: sai da elegância quase aristocrática e desliza para uma histeria que arranca gargalhadas, especialmente quando trata o mandado de busca como se fosse um atentado pessoal aos seus privilégios de nascença. Do outro lado, Figueiredo dá a Leopoldo uma fisicalidade hilária e um timing cômico afiado — cada movimento dele expõe a covardia patética de um homem que sempre resolveu tudo com propina e telefonema para o amigo certo.

A graça está no contraste: lá fora, Copacabana explode em fogos e multidão; aqui dentro, o apartamento de luxo vira palco de um colapso moral. O público ri da soberba em frangalhos e da pequenez humana daquele casal, mas “Alta Sociedade” é um dos diagnósticos mais certeiros e venenosos que o teatro brasileiro já deu sobre a classe dominante.

Três perguntas para…

… Julia Lemmertz

A comédia de costumes e a farsa dependem fundamentalmente de uma cumplicidade cênica milimétrica com o parceiro de cena. Como foi a construção desse jogo de duelos verbais acelerados ao lado de Orã Figueiredo?

Eu e o Orã somos parceiros de longa data. Já estivemos juntos em “Molly Sweeney – Um Rastro de Luz“, “Deus da Carnificina“, “Os Mambembes” e, agora, em “Alta Sociedade”. Essa trajetória por diferentes gêneros nos deu uma intimidade e uma confiança cênica fundamentais.

O texto do Mauro Rasi traz tudo muito bem desenhado, então o segredo é a repetição: ensaio, prática e rigor para deixar a engrenagem precisa. O Emílio nos estimula constantemente a alcançar essa medida exata, o que torna o ritmo do diálogo mais ágil, vivo e brilhante no palco.

Emílio de Mello carrega no próprio corpo a memória cênica das criações de Rasi. Como foi ser dirigida por alguém com essa bagagem da obra e que tipo de liberdade ou precisão ele exigiu do seu trabalho nessa estreia pelo repertório do autor?

Emílio traz essa memória viva não apenas por ter atuado em montagens históricas como “Pérola“, “A Estrela do Lar” e “Viagem a Forli”, mas pela amizade íntima com o Mauro. Ele entende com profundidade o que o autor queria dizer e domina esse estilo de teatro.

Além de grande diretor, ele é um ator excepcional, sabe exatamente os atalhos e os bloqueios do intérprete, exigindo nuances que às vezes nem nós mesmos estamos enxergando. Ele não dá moleza: cobra precisão absoluta na partitura do Rasi. A carpintaria original do texto, escrito em 2001, foi preservada intacta, apenas pontuada por ajustes naturais para dialogar com o nosso tempo.

A farsa social ganha outra voltagem quando dialoga diretamente com o noticiário e com as novas engrenagens da impunidade no país. Para você, qual é o papel do riso incômodo nesse momento em que a ficção e as manchetes parecem se confundir?

O riso abre portas. Ele nos desarma e permite encarar nossas próprias mazelas com mais compaixão e reflexão. Em cena, os personagens tratam absurdos sociais com extrema naturalidade, e é aí que surge a provocação: até quando vamos achar tudo isso normal?

A peça não trata de disputa partidária, mas de justiça social e cidadania. Em um momento de tanta informação e tensão coletiva, o texto do Mauro Rasi propõe um olhar ácido, irônico e, ao mesmo tempo, indulgente sobre o país. O riso permite colocar o dedo na ferida sem perder o afeto, gerando um incômodo essencial para repensarmos a nossa realidade.

Teatro Vanucci | Shopping da Gávea – Rua Marques de São Vicente, 52, Gávea, Rio de Janeiro. Sexta e sábado, 20h30. Domingo, 19h. Até 27/9. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. A partir de R$ 60 (meia-entrada balcão) em sympla.com.br


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