No começo da noite da última segunda-feira, encontrei-me com Bruna Barros, ilustradora da coluna. Fazia tempo que queria conhecer seu apartamento, numa esquina da rua Helvétia entre a avenida São João e praça Princesa Isabel. Cruzei na portaria com um anão que, disse ela, é campeão de pingue-pongue.
Seu pai veio de Timóteo, no interior de Minas, para ajudá-la na reforma. A aporrinhação durou meses, mas o apartamento está um brinco. Tem um terracinho, estúdio, plantas e pássaros que ela desenhou nas paredes. Cobicei uma onça artesanal da Ilha do Ferro.
Fiquei meio surpresa com o convite do Mario para jantar. Apesar de nos falarmos toda semana, havia mais de um ano que não nos víamos. Como a mensagem chegou justamente no meio de uma crise existencial, de cara sentenciei: vixe, tá me chamando para dizer que não gosta mais dos meus desenhos. C’est la vie…
Passa aqui em casa, você conhece o apê e depois descemos para caminhar —respondi no WhatsApp. Já que vai me demitir, aproveita e me conhece direito, né, concluí com meus botões.
Ele trouxe pó de café de presente. Aonde quer ir? perguntou. Depois de nove anos trabalhando juntos, está claro que dos restaurantes que ele gosta não passo nem perto. Sugeri aquilo que mais gosto: “fare una passeggiata”, passear pela energia caótica e multicultural do centro de São Paulo. O caminho nos levaria a algum lugar para comer.
Pegamos a Barão de Limeira e passamos pela Folha. Contei como era a redação no final dos anos 1970. Sentava ao lado de Angeli e Laerte, que tinha um bigodão mexicano e militava no Partido Comunista. Angeli era chegado à esquadrilha da fumaça.
Bruna chamou atenção para os prédios antigos, hoje escangalhados. Estudou artes plásticas em Veneza, morou em Dorsoduro e na praça San Marco, tem olho para arquitetura. Vê a beleza que as fachadas berrantes ocultam. Burguesote que sou, aventei irmos ao Casserole. Ela abriu seu lindo sorriso de holofote: “Ah, sabia que escolheria restaurante um chique”. Mas estava fechado e ela sugeriu um africano, o Biyou’Z, perto da praça Júlio Mesquita.
Como já sabia, o pequeno restaurante de imigrantes não deixou a desejar. Pedimos bananas da terra de entrada e comi jiló recheado. Tudo uma delícia. Passamos horas papeando enquanto tomávamos cerveja e observávamos o movimento da rua. Apesar de todos os pesares do centro, me encanta ver que muitas crianças ainda brincam na rua.
A garçonete, vinda de Camarões, pouco falava português. Pedi fumbua, uma folha do Congo com pasta de amendoim, azeite de dendê, mandioca e galinha. Pus meia gota de pimenta, virei lagartixa e subi pelas parede. A cerveja apagou o incêndio. Fomos para a aula aberta de Charme, ideia da Bruna. Eu vira na internet que a dança veio de bailes cariocas. Frequentados sobretudo por negros, tem coreografias de grupo, sensuais e sincronizadas. É a minha cara!
Na descida para o Vale do Anhangabaú, vimos jovens caminhando, alegres e estilosos. Nos chateou perceber que a aula de charme já havia acabado. Não foi dessa vez que vi um jornalista branquelo aprendendo passinhos com a juventude negra! Andamos até a Basílio da Gama para eu conhecer o velho Almanara, que é lindo. O Supla —ou um sósia— estava na única mesa ocupada. Voltamos para casa e acertamos de ir à noite seguinte ao Theatro Municipal, ver a ópera “Intolleranza 1960”.
Bruna chegou deslumbrante, num look despojado-chique. A ópera começou e vieram os versos: “Fomos trocando mais de países que de sapatos/ Através das lutas de classes, desesperados/ quando só havia injustiça e nenhuma revolta”. “Isso é do Brecht”, disse a ela e logo me arrependi do “mansplaining”. Na saída do espetáculo, só consegui dizer que fiquei aflito com a moça ruiva que despencava no chão como um corpo morto, deve estar toda roxa. Bruna ficou tonta só de ver as pessoas que giravam sem parar, de braços abertos, por uns dez minutos.
O restaurante francês que o Mario quis ir não deixou a desejar. Cortinas bordadas, guardanapos de pano, painéis de madeira e uma clientela diferenciada. Com destaque para Silvia Poppovic, que veio à nossa mesa. Enquanto comia escargot pela primeira vez, lembrei das tardes da infância, quando depois de todas as atividades do dia minha mãe se sentava na sala assistia ao programa dela tomando café e comendo bolo.
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