Opinião – Luiz Felipe Pondé: A liberdade dos modernos degenerou em puro e simples egoísmo

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião – Luiz Felipe Pondé: A liberdade dos modernos degenerou em puro e simples egoísmo


Somos livres? Essa pergunta é cansativa. Deixemo-la para os iniciantes. Uma coisa é discutir liberdade no âmbito de algum autor específico, outra coisa é fazê-lo a céu aberto, tipo “liberdade é…”. Principalmente depois da contracultura, esse assunto se transformou, na melhor das hipóteses, num debate vazio acerca de produtos dentro da esfera do marketing de comportamento —criado na sequência da contracultura—, ou, na pior das hipóteses, coisa de picareta, vendendo dicas infantis de “como ser livre, em sendo mulher…”, por exemplo.

Quanto a autores, a lista é vasta. Agostinho (354-430) e a fundamental pergunta se temos ou não livre-arbítrio depois da queda e do pecado original, ou se, desde então, nos arrastamos no mundo sob a égide de compulsões como orgulho, luxúria, busca por poder e por aí vai. Quem tentar provar essa tese como falsa, provavelmente, acabará mentindo ou passando atestado de dano cognitivo.

O liberalismo humanista descendente de gente peso pesado como John Locke, no século 17, criará quase uma religião centrada na ideia de que, agindo de forma livre e racional —Kant, no século 18, tem seu lugar nessa linhagem do mito da autonomia moral humana—, progredimos para estágios superiores de comportamento político e moral. Passamos da tolerância religiosa de Locke para a liberdade individual absoluta de consumo, penso, como um dos mitos típicos da modernidade.

A controvérsia entre a diferença da liberdade dos antigos e a dos modernos a partir da conferência de 1819 de Benjamin Constant é, seguramente, um marco para a ideia de liberdade derivada do liberalismo. Enquanto para os antigos, a liberdade era a participação nos assuntos da pólis grega ou da república romana —iremos ou não à guerra, decidimos qual forma de governo devemos ter, o orçamento—para os modernos, a liberdade passou a ser a liberdade individual das nossas escolhas na vida privada.

A partir daí, a liberdade ficou identificada com o que compramos, com quem dormimos, gostamos ou não de apanhar no sexo, sou homem ou mulher, qual estilo de roupa usamos, para onde vamos nas férias, se temos filhos ou não, se podemos interromper a gravidez ou a nossa própria vida se assim o quisermos, em quem votamos, acreditamos em Deus, em Elvis ou em ETs, enfim, uma lista enorme de escolhas que, para muitos de nós, chega a ser cansativa. Paremos por aí.

A produção literária, artística, filosófica ou audiovisual, por exemplo, ao redor da ideia de liberdade da mulher é hoje maçante. Para todo lugar para onde se olha, o tema se repete como um samba de uma nota só. Casar-se ou não, se livrar de um marido tóxico, ver a maternidade como opressão patriarcal, viajar para amar, rezar, transar, beber, viver a menopausa como o melhor período da vida livre, enfim, encontrar a guru definitiva que ensinará a ela a lição única de como ser mulher, livre e feliz —lição esta, evidentemente, que não existe para ninguém. A presença do tema, hoje, na produção cultural, é entediante diante da sua infinita e melosa repetição.

A personagem da mulher livre e feliz é, hoje, um mito, como a do novo homem soviético. Não porque todos esses problemas sejam falsos, mas, sim, porque a espécie humana é contraditória, confusa, e dada, desde a pré-história, a soluções imaginárias delirantes. Freud, em 1930, já havia nos ensinado sobre o mal-estar estrutural da civilização, devido à repressão do desejo, matriz do homem civilizado —”a felicidade é episódica”—, mas como efeito da sociedade que vende tudo, demos uma virada em direção ao culto idiota da felicidade nos últimos tempos. A vida virou um comercial barato.

O que viria a ser um homem, gênero e não espécie, livre? Essa temática ainda é quase inexistente na produção cultural. Muitos tentam dizer que o homem hétero livre deveria ser igual a uma mulher porque ele também seria um oprimido pela masculinidade tóxica. Sei…

Mas, para além desse imperativo, provavelmente, caras diriam que ser livre é não assumir compromissos com mulher nenhuma, não sustentar mulher nenhuma, não engravidar ninguém —crianças hoje, contencioso amanhã—, trabalhar no que gosta, ganhando muito dinheiro ou não, não ter ninguém mandando você fazer coisas em casa, viajar pelo mundo com uma “sugar baby” jovem, bonita, divertida e cara ou buscar autoconhecimento —para os mais sofisticados— no caminho de Santiago de Compostela.

Enfim, no ideal de liberdade de hoje, tanto para mulheres quanto para homens, a liberdade dos modernos degenerou em puro e simples egoísmo e narcisismo. E o resto é blábláblá.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *