O primeiro julgamento sobre o assassinato do rapper Tupac Shakur, ocorrido em 1996, não é apenas um imenso circo midiático alimentado por uma vítima que já era um astro mundial do hip-hop aos 25 anos. Se Duane “Keffe D” Davis for condenado pelo conteúdo de seu livro autobiográfico lançado em 2019, a Justiça americana transformará em prova um relato pessoal e pouco confiável.
Essa é a conclusão lógica e óbvia depois da leitura das 224 páginas de “Compton Street Legend”, escrito por Davis em parceria com Yusuf Jah. A proposta inicial do autor era contar sua vida transitando pelo alto escalão da cena “gangsta rap” dos anos 1990, marcada por disputas violentas entre gangues que montaram gravadoras e produtoras de show.
A importância do livro se concentra no relato da noite de 7 de setembro de 1996. Davis admite que estava em Las Vegas para assistir à luta de boxe entre Mike Tyson e Bruce Seldon. Depois do combate, ele soube que seu sobrinho Orlando “Baby Lane” Anderson havia sido atacado por integrantes da gravadora pela qual Shakur lançava seus discos, a Death Row. Imagens de segurança registraram a agressão, na qual participaram Shakur e Suge Knight, dono da gravadora.
A narrativa de Davis descreve sua indignação diante do ataque ao sobrinho e relata que ele decidiu procurar Knight e Shakur. Davis conseguiu uma pistola Glock calibre .40 e entrou em um Cadillac branco com Anderson, DeAndre “Freaky” Smith e Terrence “Bubble Up” Brown. Ele afirma ter colocado a arma no banco traseiro do carro.
O Cadillac acabou encontrando o BMW preto no qual estavam Tupac e Knight. Davis descreve o momento como um confronto que aconteceu em segundos. O livro afirma que Shakur percebeu o carro, fez um movimento em direção ao assoalho de seu veículo e, imediatamente, começaram os disparos.
Davis se coloca em uma posição juridicamente perigosa. O que ele descreve é sua participação na cadeia de acontecimentos. Ele sabe da agressão, decide retaliar, traz a arma, entra no Cadillac e a entrega aos homens que estavam no banco traseiro. A acusação sustenta que essa participação o transforma em responsável pelo assassinato, mesmo que outro integrante do grupo tenha disparado.
O livro também afirma que Davis ajudou a esconder o Cadillac e a arma depois do crime, e que o veículo foi reparado e repintado antes de ser devolvido à empresa de aluguel. Esse detalhe aumentou o interesse dos investigadores porque não se limita a colocá-lo no carro, mas apresenta uma suposta participação posterior na ocultação de evidências.
Mas o leitor de “Compton Street Legend” nem precisa ser um profundo conhecedor do mercado musical americano para perceber que o relato de Davis vem carregado de autopromoção. Ao tocar negócios na cena milionária do hip-hop, Davis atua em um cenário violento, no qual reuniões de executivos tinham chance de resultar em tiros e morte. Esse tipo de episódio aconteceu várias vezes.
Na tentativa de Davis se mostrar tão arrogante e agressivo quanto seus rivais nesse mercado, muitas passagens do livro transmitem uma sensação de exagero. “Keffe D” parece ser mais do que um simples codinome rapper de Davis. Não é errado pensar que ele criou em sua cabeça um personagem durão e usa o livro como propaganda de seu poder.
As páginas concentram declarações sobre o assassinato de Shakur que Davis já tinha espalhado em entrevistas. Mas é no livro que o relato esboça uma suposta força de confissão.
A ironia é extraordinária. O homem que, durante anos, contou sua versão da história para ganhar dinheiro, notoriedade e status de testemunha privilegiada, passou a enfrentar a possibilidade de prisão perpétua justamente por suas próprias narrativas.
Davis, hoje com 63 anos, está sendo julgado em Las Vegas por homicídio com uso de arma letal e intenção de promover, fomentar ou auxiliar uma gangue. Ele se declara inocente.
A defesa encontrou uma estratégia óbvia. Davis passou a negar que “Compton Street Legend” possa ser tratado como uma confissão. Seus advogados sustentam que o livro foi produzido com a participação de Yusuf Jah e que partes do texto podem ter sido inventadas ou exageradas para fins comerciais.
Davis é claramente um falastrão, mas parece ser esperto na construção da narrativa. Ele se coloca dentro do carro na noite do ataque a Shakur ao lado de três pessoas que não podem contestá-lo. Anderson, Smith e Brown morreram nos anos seguintes, em disputas violentas com rivais. A expectativa de vida no gangsta rap parece ser realmente muito baixa.
Essa talvez seja a questão central do julgamento: a credibilidade do livro. “Compton Street Legend” não é um documento policial nem uma investigação independente. É uma autobiografia escrita por alguém que construiu uma imagem pública de gângster, traficante e “homem da rua”. Seu conteúdo foi vendido como um relato privilegiado de alguém que estava lá, mas tudo o que está escrito é inseparável da figura midiática de Keffe D, claramente um bufão.
O livro pode condenar um personagem, Keffe D, mas quem arrisca cumprir condenação de prisão perpétua é o homem, Duane Davis.













