Dia 9 de maio de 2026, às 11 horas da noite. Lembro da data e hora exatas porque esperei por esse dia e hora por muito tempo. Quase oito anos, para ser mais exata.
Sei também o local e a posição em que nós dois nos encontrávamos, deitados na cama do quarto de hotel em Ilha Grande, ele com a cabeça no travesseiro e as costas no colchão, eu de bruços, com os cotovelos dobrados e os punhos cerrados segurando a cabeça que olhava para ele me olhando de volta.
As cervejas ainda circulavam pelas veias, a comida já tinha assentado no estômago, os aparelhos celulares se encontravam em algum lugar fora do alcance das mãos. No ar, ouvia-se apenas o barulho dos sapos, das cigarras e de nós mesmos, concatenando pensamentos a partir de palavras, tomando em doses generosas esse que é o maior afrodisíaco que conheço: o diálogo.
Foi neste contexto magicamente banal, envolta pelo manto aconchegante do descanso, que senti, depois de oito anos, minha libido dar o ar da graça novamente. Não entrarei em detalhes do que se passou durante as horas seguintes de modo a não ruborizar os leitores mais sensíveis, mas, pela primeira vez em muito tempo, dormi o sono tranquilo daqueles que são capazes de desejar e de terem seus desejos saciados.
A essa altura, talvez você esteja se perguntando o que havia matado a minha libido para início de conversa. Confesso que a causa exata não está clara nem mesmo para mim, mas olhando a linha do tempo e o cascateamento dos fatos ao longo dela, posso afirmar que sua derrocada teve início na minha primeira gravidez.
O ano era 2018 e minha filha ainda não tinha nome, era apenas um punhado de células dentro do meu útero. Mas, à medida que ia formando esse projeto de pessoa, senti a libido escoar de mim como se meu corpo procurasse coisas para jogar fora a fim de fazer caber ali dentro aquela nova criatura. E o que de melhor para se jogar fora do que o desejo de uma mulher?
Entre gravidez, puerpério, amamentação, pandemia, outra gravidez, mais um puerpério, amamentação, a rotina preenchida por dois filhos pequenos e um ritmo de trabalho intenso, meu tesão foi virando “tezinho”, um aspecto muito pequeno da vida, uma sensação tão rara e fugaz, que na maior parte do tempo passava despercebida.
Apesar disso, eu não fiquei oito anos sem transar. Transei, mas não necessariamente por ter sentido um desejo intenso que precisava ser satisfeito. Transei muitas vezes porque minha memória me dizia que era bom, que me faria bem, e na maioria das vezes, fez. Transei também porque achava que deveria, que não era justo com aquele parceiro que estava lá enfrentando a vida ao meu lado, dando conta junto, mas que, ao contrário de mim, ainda sentia tesão, ão.
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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Faz uns meses, vi um vídeo de um cantor famoso cuja esposa tinha dado à luz. Ele dizia estar contando os dias para “o fim do resguardo”. Confesso ter sentido raiva desse marido que foi à televisão fazer propaganda do seu desejo inquebrantável, enquanto sua mulher ainda curava as cicatrizes do parto.
Lembrei desse vídeo no dia 9 de maio e me perguntei se a tal moça tinha tido mais sorte do que eu. Talvez ela tenha sido uma dessas afortunadas cujo desejo permanece intacto durante a gravidez e o pós-parto. Mas aí me toquei que sorte mesmo é ter alguém do nosso lado que entende o nosso tempo, e que sabe que a libido de uma mãe não renasce de uma alta médica. Ela é gestada lentamente, nutrida pelo privilégio do autocuidado, da reconstrução da identidade e da autoestima.
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