O cenário eleitoral está dado. O prazo para registro das candidaturas termina no dia 15 de agosto, porém, com as convenções dos principais partidos já realizadas, habemus finalmente um cheiro (não muito agradável diga-se de passagem) de quem serão os candidatos à Presidência da República.
E diante do mapa que se desenha à caneta permanente, a óbvia ausência de mulheres pleiteando o cargo me traz um incômodo enorme.
Em 2022 tínhamos Simone Tebet e Soraya Thronicke. Em 2018, tivemos Marina Silva, em 2014, Marina e Dilma. E em 2026 não temos ninguém. Nenhuma mulher figura entre os candidatos à Presidência de grandes partidos.
Vale esclarecer, antes que a machosfera meritocrática venha me tacar pedra, que meu incômodo não advém de uma possível definição de voto a partir do gênero dos candidatos. Afinal, há mulheres engajadas nos mais diversos cantos do espectro político, que cultivam as mais diferentes visões de mundo e que acreditam em soluções diametralmente opostas para os desafios que precisamos enfrentar no Brasil.
E claro que, diante de uma candidata que não representa meus valores e que não apresenta soluções que me parecem eficientes, eu entregaria meu voto com tranquilidade a um homem que melhor me representasse.
Dito isso, não ter uma candidata mulher, independentemente do lado do espectro político em que ela se encaixe, faz falta. Num Brasil em que mulheres são 51,5% da população, em que mulheres chefiam 49,1% dos lares e em que as mulheres ganham em média 21,3% menos do que os homens, não ter uma mulher, uma que seja, de qualquer ideologia, disputando o cargo mais alto do executivo, faz falta.
Faz falta por muitos motivos. O principal deles, claro, é a falta de representatividade. Ter uma mulher nos debates, nos palanques, nas urnas é demonstrar para outras mulheres que estar naquele espaço é possível. Eu posso discordar do que aquela mulher diz ou deixa de dizer, posso querer arrancar os meus próprios cabelos ouvindo as coisas que saem de sua boca das quais discordo veementemente. Mesmo assim, prefiro que ela, esta mulher que não me representa em tantas ideias e valores, esteja ali, ocupando aquele espaço, usando sua voz.
Sou uma assídua espectadora de debates e já imagino a cena: a televisão ligada, minha filha sentada comigo no sofá fazendo qualquer coisa, quando sua mente fervilhante se atenta para aquele display de homens brancos que ocupam a tela. E já me preparo psicologicamente para responder ao indagamento que com certeza surgirá: por que não tem mulher candidata, mamãe?
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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Eu gostaria de ter esperança de que estamos avançando, mas confesso certo desânimo. Enquanto a extrema direita flerta com a ideia de que não deveríamos nem votar, a esquerda que hoje governa não parece estar interessada o suficiente em mudar as coisas.
Na convenção do PT, realizada neste domingo, a programação não previa a fala de nenhuma liderança feminina no palco. Não faltavam opções de peso: Marina Silva, Simone Tebet e Benedita da Silva poderiam facilmente ter sido convocadas. No lugar delas, um Lula constrangido pela gafe e consciente da importância das mulheres eleitoras para uma possível vitória em outubro chamou Janja de improviso.
E essa é a sensação que fica. A de que a luta pelos nossos direitos é secundária, chamada ao palco apenas por conveniência.
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