Ele não conseguiu o papa, mas conseguiu um Beatle. Não tinha um novo projeto para anunciar, mas nos deixou uma música (na verdade, duas). Não escolheu encerrar seu programa, mas o encerrou do seu jeito estranho e maravilhoso.
Stephen Colbert apresentou seu último “Late Show” na quinta-feira à noite, completando a história do cancelamento mais notório e rancoroso do ano televisivo. Mas sua hora final — um velório emocionante e deliciosamente bizarro para uma instituição da comédia — transformou tudo em uma “cancelebração”.
Colbert começou a noite não com um monólogo, mas com o que pareceu um discurso motivacional. A equipe do “Late Show”, disse ele, sempre se referiu ao programa como a “máquina da alegria” (também o nome da banda da casa atual, liderada por Louis Cato, a Great Big Joy Machine). A rotina diária significa que a produção precisa ser uma espécie de máquina, disse ele, “mas se você escolher fazer isso com alegria, dói menos quando seus dedos ficam presos nas engrenagens”.
O “Late Show” sofreu sua lesão fatal no trabalho por cortesia da CBS, que anunciou seu cancelamento há um ano. A emissora disse que a decisão foi puramente financeira. Mas coincidiu com a venda de sua empresa controladora, a Paramount, para o estúdio Skydance, um acordo que exigia a aprovação de uma administração cujo líder não aprovava a comédia de Colbert.
Os fãs de Colbert sentiram cheiro de coisa errada. Mas, em sua maior parte, o apresentador saiu com um sorriso. Sim, houve alfinetadas na CBS nessas semanas finais — ela teve o que pagou. Mas o veneno foi principalmente terceirizado para os convidados, como Bruce Springsteen, que chamou Colbert de “o primeiro cara na América que perdeu seu programa porque temos um presidente que não aguenta uma piada“.
Tivemos uma pista do espírito com que Colbert se despediria em seu discurso de aceitação no Emmy do ano passado. Ele disse que começou o “Late Show” pensando que queria fazer um programa de comédia sobre amor, mas percebeu em certo momento — “vocês podem adivinhar qual foi esse momento” — que estava fazendo um sobre perda. Mas encerrou com uma nota de esperança, parafraseando Prince: “Se o elevador tentar te derrubar, enlouqueça e aperte um andar mais alto”.
Sempre houve uma energia na sátira de Colbert que eu considero “desespero esperançoso”. É uma visão de mundo e uma estética. Em uma entrevista de 2009 no “The Colbert Report” com John Darnielle, da banda The Mountain Goats, Colbert fala sobre como admira a maneira como Darnielle coloca histórias desoladas em músicas animadas. O efeito, diz Colbert, é de dizer “‘É só isso que você tem, velhote?’ enquanto você sacode o punho para Deus”.
Então, quando você sofre uma perda, você se levanta dos escombros, sacode a poeira da sua roupa de palhaço e faz um show. Foi o que Colbert fez na quinta-feira à noite. De fato, o final começou como um “Late Show” bastante normal, embora de despedida, com um monólogo sobre atualidades interrompido por convidados famosos, incluindo Bryan Cranston, Paul Rudd e Ryan Reynolds.
Na verdade, o episódio gradualmente revelou um arco narrativo, mais parecido com o episódio final de uma comédia surreal do que de um talk show. A piada recorrente era que o último convidado seria o Papa Leão XIV, a quem o devoto apresentador católico de fato chamou de sua “baleia branca”. Após um contratempo roteirizado — no qual o papa nascido em Chicago ficou irritado por receber um cachorro-quente que não foi devidamente preparado ao estilo Chicago — Colbert apresentou seu verdadeiro último convidado, Paul McCartney.
Os últimos convidados de talk shows às vezes podem parecer troféus — quanto maior a conquista, maior o legado. Mas a escolha de McCartney, ainda com charme juvenil e a voz marcada pela idade, foi em si uma referência à história da TV.
O “Late Show” era transmitido do Ed Sullivan Theater, onde os Beatles invadiram as salas de estar americanas em 1964. Foi um momento monumental não apenas para a música, mas para a televisão; “The Ed Sullivan Show” era uma plataforma de mídia de massa que podia dizer à América de uma só vez que a cultura havia mudado. Agora, mais uma de nossas poucas instituições remanescentes de TV de massa — um programa noturno fundado por David Letterman em 1993 — estava desaparecendo.
E o episódio tornou esse desaparecimento literal em um clímax que conseguiu ser ao mesmo tempo absurdista, hilário e docemente filosófico. O episódio foi repetidamente interrompido por flashes de luz verde, emanando de um enorme buraco de minhoca espaço-temporal que, como explicado pelo convidado Neil deGrasse Tyson, foi causado pela contradição lógica de a CBS cancelar o programa mais popular do horário noturno.
Acompanhado por seu velho camarada do Comedy Central, Jon Stewart, e um quarteto de seus colegas do late-night — John Oliver, Seth Meyers, Jimmy Fallon e Jimmy Kimmel — Colbert enfrentou o vórtice verde. Era, claro, uma metáfora para o cancelamento, assim como para qualquer coisa que deve inevitavelmente ter um fim. Também foi hilário.
Conhecemos Colbert como um comediante político, mas ele sempre foi também um absurdista experimental. O episódio lembrou o final de 2014 de seu talk show anterior, “The Colbert Report”, que terminou com ele matando a morte e se tornando imortal, depois voando com Papai Noel, um Abraham Lincoln com chifre de unicórnio e Alex Trebek.
Naquele momento, claro, ele estava voando para apresentar o “Late Show”. Aqui, a cena foi agridoce, mas estranhamente bela.
O que resta para nós depois do “Late Show”? O que resta em um ambiente midiático no qual as emissoras estão cada vez mais hesitantes em enfrentar o poder ou investir em entretenimento ambicioso? Não sabemos. Mas, Colbert parecia estar dizendo, você precisa acreditar que há amigos do outro lado, e uma música, e talvez um novo começo. Isso foi um adeus; que seja também um olá.












