Opinião – Gustavo Alonso: Uma fake news para chamar de minha

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Opinião – Gustavo Alonso: Uma fake news para chamar de minha


Não há mais para onde correr. Depois de passarmos anos reclamando das fake news e de seu grande perigo para o debate político no Brasil e no mundo, agora temos a certeza de que fake news são boas, desde que sejam nossas.

Nas últimas semanas, a máquina do petismo usou duas estratégias para atacar os adversários: moralismo e fake news. As duas eram consideradas detestáveis quando usadas contra o petismo há não tanto tempo.

Em 1989 Collor acusou Lula de ter uma filha fora do casamento. No programa de TV de Collor, a mãe Míriam Cordeiro afirmou que Lula lhe ofereceu dinheiro para abortar a filha de ambos, Lurian, e que ele a teria abandonado durante a gravidez. O episódio foi um dos momentos de maior impacto emocional daquela eleição, contribuindo para a derrota de Lula para Fernando Collor.

O episódio conhecido como o “caso da bolinha de papel” ocorreu durante as eleições presidenciais de 2010, quando José Serra disputava o segundo turno contra Dilma Rousseff. Em uma caminhada no calçadão de Campo Grande, no Rio de Janeiro, militantes do PT e do PSDB entraram em confronto. Em meio ao tumulto, o candidato José Serra foi atingido na cabeça por uma bolinha de papel e continuou caminhando. A equipe de Serra alegou que ele teria sido atingido depois por um objeto mais pesado (um rolo de fita crepe ou cano plástico), o que o levou ao médico.

Após deixar o local, Serra realizou exames, que não constataram lesões. Mas os médicos recomendaram repouso devido a sintomas de tontura e náuseas. A “bolinha de papel” foi uma fake news abortada por falta de verossimilhança. O exagero do episódio virou piada e meme na época.

E como esquecer a “mamadeira de piroca” e o “kit gay” da eleição de 2018? Os bolsonaristas tomaram a vanguarda na produção de fake news, catalisando o jogo das mentiras e exageros. Esta semana, bolsonaristas distorceram uma fala descuidada de Lula sobre prevenção ao câncer de próstata, como se o presidente tivesse dito que as mulheres estivessem “acostumadas ao toque íntimo”.

De tanto apanhar com temas morais e fake news, o petismo e seus simpatizantes contra-atacaram. Primeiro contra os da própria esquerda, minando alternativas. Nas eleições contra Marina (2014) e Ciro (2018 e 2022), os petistas mostraram-se eficazes produtores de fake news em seu próprio gabinete do ódio.

Importante também não esquecer a principal fake news do petismo, aquela capaz de capitalizar tudo na vitimização do partido: a caracterização do impeachment legal de Dilma em 2016 —embora criticável em sua legitimidade— como golpe de Estado. Clamaram tanto pelo golpe que ele de fato quase veio em 8 de janeiro de 2023.

Nesta eleição somos bombardeados por uma curiosa fake news. Um assunto sobre o qual ninguém comentava tornou-se central na eleição. A mentira contada infinitas vezes é a de que Flávio Bolsonaro irá destituir Nossa Senhora Aparecida do título de padroeira do Brasil. Para criar o pânico geral, bastou recuperar o projeto de lei de um deputado evangélico arquivado em 2008.

De ontem para hoje, mais uma fake news. A de que o debate na Globo não teria acontecido pela “falta de coragem” de Flávio. Todos sabemos que houve uma cronologia de acontecimentos que não sustenta essa teoria.

E assim chegamos ao ponto em que vale tudo pelo poder. Fake news é só aquela afirmação duvidosa produzida por alguém que não é do nosso grupo. Nós nunca produzimos fake news, afinal estamos do lado certo da história.

Já que é assim, resolvi criar uma fake news de minha lavra, e assim contribuir para o show de terraplanismo do debate político nacional.

Vocês já perceberam que o logo dos carros BYD, quando vistos pelo retrovisor, parece “CHE”? Repare! Tá provado: a China faz reviver o mito do comunista Che Guevara! E assim implanta mensagens inconscientes através dos sedutores carros elétricos.

Quando tive essa revelação, me orgulhei. Os colegas com quem compartilhei esta revelação foram tomados por epifania. Achei que tinha descoberto um esquema mundial de controle das mentes.

Antes de ver-me como pai solo de fake news, resolvi consultar o oráculo de nosso tempo, a internet. Uma rápida pesquisa me mostrou que há outras pessoas que também chegaram à mesma conclusão. Encontra-se confirmação para tudo na internet, de pacto satânico no disco da Xuxa tocado de trás pra frente ao pânico pueril anticomunista.

Somos poucos, é verdade, mas vamos transformar o mundo com a certeza dos ignorantes! Posso não ser pai solo de uma notícia falsa, mas o que importa? A fake news é de todos nós. Produtores de fake news de todo mundo uni-vos!


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