A repercussão em torno da convocação de Neymar para a Copa do Mundo fez lembrar outras épocas. Eras em que o futebol se mostrava central na vida da nação e o Mundial definia a identidade brasileira. Já faz tempo que não é assim.
O distanciamento do brasileiro com a seleção e com a Copa do Mundo é um fenômeno real, complexo e amplamente documentado. Pesquisas recentes do Datafolha e da AtlasIntel confirmam essa tendência histórica: mais da metade da população (cerca de 54%) declarava desinteresse pelo Mundial, e o otimismo em relação ao título atingiu patamares baixíssimos.
Há diversos fatores frequentemente elencados para se explicar o desinteresse do brasileiro pelo futebol. Entre eles a facilidade de acompanhar as ligas estrangeiras e o crescimento do interesse das novas gerações pelos grandes clubes europeus. Muito se diz que a ida de jovens jogadores brasileiros para o mercado externo enfraqueceu a identidade do povo com a seleção. O jejum de títulos formou uma geração que não sabe o que é ganhar uma Copa do Mundo (já se vão 24 anos!). Por fim, a forma como a CBF lida com o futebol nacional, sempre permeada de acusações de corrupção e escolhas muito questionáveis, sem nenhuma transparência, também afasta o cidadão médio da seleção brasileira.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Mas talvez nenhum destes fatores tenha o peso do identitarismo como determinante nessa mudança de comportamento. Digo isso pois para mim, nascido em 1980, todos os outros fatores já existiam, e não levaram a tamanho desinteresse pela seleção. Foi apenas de 2013 para cá, com a ascensão das pautas identificadas mais com nichos políticos do que com o discurso nacional, que a seleção perdeu importância.
O futebol funcionou durante a maior parte do século 20 como um dos principais mitos fundadores da nossa identidade nacional —aquela ideia de uma “pátria de chuteiras” que unificava o país para além das divisões de classe, sexo, raça ou região. Mas tudo ruiu recentemente.
Os identitários de direita, leia-se os bolsonaristas, instrumentalizam a camisa da seleção, docilmente esnobada pela esquerda, contribuindo para borrar a ideia de um time nacional acima das diferenças sociais particulares.
Por sua vez, os identitários de esquerda jogaram luz sobre contradições históricas do país como o racismo, o machismo, a homofobia e os preconceitos difusos contra minorias em geral. Para estes, a ideia de se unir cegamente em torno de um símbolo nacional (a camisa, a bandeira, o hino) perdeu o sentido ou passou a ser vista com ceticismo. A seleção brasileira deixou de ter o monopólio da representação de “ser brasileiro”. Mais grave do que isso, discutir o Brasil tornou-se sem sentido para estes grupos. Cabe mais falar de mulheres, negros, homossexuais, indígenas, grupos minoritários X ou Y do que propor uma identidade nacional para além dos guetos discursivos.
E é aí que o debate em torno da convocação de Neymar ganha centralidade. A repercussão de sua participação na Copa ganhou cores de um Brasil de antigamente, na qual os debates eram restritos a poucos temas comuns, mas muito importantes, porque associados à ideia brasilidade.
É de fato quase insuportável a onipresença do jogador em todas as mídias, tradicionais ou sociais. Seja como for, ela é simbólica de que a brasilidade é um tema que ainda repercute como antigamente. Em toda as suas ambiguidades, inclusive aquelas de caráter mais duvidoso, Neymar é a cara do Brasil. Nossas limitações e potencialidades são ilustradas pelo craque mais uma vez.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.













