Opinião – Gustavo Alonso: A história do Maranhão em ruínas

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Opinião – Gustavo Alonso: A história do Maranhão em ruínas


Entre 2012 e 2014 trabalhei em São Luís como professor de história e pesquisador associado à Universidade Estadual do Maranhão. A faculdade funcionava, e funciona até hoje, num bonito sobrado histórico e, na época que cheguei, bem aconchegante e todo reformado. Era uma das poucas construções em ótimas condições no centro histórico ludovicense.

Como historiador que sou, decidi morar no centro histórico da capital. Mas minha decisão foi insólita. Não lembro de outro professor que morasse por lá. Nem historiadores.

Pesava contra minha escolha o fato de as ruas históricas não permitirem que carros passem em alta velocidade. A classe média brasileira não sabe mais viver em lugares que não têm garagem privativa. E a ausência de comodidades básicas, como padarias, farmácias e mercados próximos, dificultava ainda mais.

Os ludovicenses conhecem o centro histórico por Reviver, nome do projeto de reforma executado no fim dos anos 1980 pelo então governador Epitácio Cafeteira.

Assim como em boa parte dos centros históricos brasileiros, de Ouro Preto (MG) a Olinda (PE), do Pelourinho soteropolitano (BA) a Parati (RJ), de São Cristóvão (SE) a Goiás Velho (GO), os sobrados de São Luís só se salvaram da sanha modernizante do século 20 porque se tornaram desinteressantes às classes médias e altas, que se mudaram para lugares mais distantes.

No caso de São Luís, os ricos passaram a morar nos bairros de São Francisco, Renascença, Calhau e outros bairros além da ponte José Sarney. Assim, os lindos sobrados sobreviveram, mas ficaram em frangalhos. O tombamento do Iphan em 1974 garantiu-lhe a preservação, mas não a manutenção útil do centro histórico.

O projeto Reviver foi concebido como um programa de revitalização dos casarões coloniais. O intuito era modernizar a infraestrutura subterrânea (fiação e esgoto) e transformar o local em um polo cultural e turístico. A governadora Roseana Sarney colheu os louros em 1997, quando a cidade foi alçada pela Unesco a patrimônio cultural da humanidade.

Quando morei em São Luís, a última reforma de peso havia sido a do projeto Reviver. Era triste ver o bairro parecer um filme de terror quando escurecia. Dependendo do mandante, as coisas melhoravam um pouco. Por volta de 2019, quando visitei a capital durante o mandato do governador Flávio Dino, a preservação pareceu-me um pouco melhor, mas ainda assim muito longe do desejável.

Para que o centro histórico voltasse a ter vida real, era preciso que as classes médias passassem a habitá-lo, algo longe da realidade. Os casarões seriam melhor cuidados e mantidos por moradores ativos e vigilantes, conscientes do valor histórico do bairro.

Conto tudo isso pois é com dor que ouço de amigos maranhenses que o Apem (Arquivo Público do Estado do Maranhão) está em frangalhos. O prédio, que ocupa um enorme sobrado histórico na rua de Nazaré, 218, está interditado pelo Corpo de Bombeiros. A construção histórica está com infiltração, com risco de curto-circuito e ameaçada de desabar.

Criado em 1974, o Apem reúne um acervo do século 18 aos nossos dias oriundo do Arquivo da Secretaria do Governo (1728-1914) e suas sucessoras (1914-1991) e do Arquivo da Polícia (1842-1963). Os arquivos do Dops maranhense da época da ditadura estão debaixo de seu teto. O Apem tem aproximadamente 1,5 km de documentos textuais (manuscritos, datilografados e impressos) dos períodos colonial, imperial e republicano, além de mapas, plantas, partituras musicais e discos.

Semana retrasada houve denúncias de um grande acervo documental (notas, contratos, fotos) jogados fora numa caçamba ao ar livre. Professores, alunos e pesquisadores da Uema, UFMA, IFMA e outras instituições de graduação, mestrado e doutorado estão com pesquisas na instituição suspensas há mais de um ano.

O governo estadual, atualmente capitaneado por Carlos Brandão (PSB), nada faz para proteger a rica documentação que ali se encontra. O novo secretário de Cultura prometeu remanejar o acervo para um local seguro, enquanto o prédio seria reformado. Mas até agora nem fez o remanejamento, nem começou a reforma.

Estamos no período de chuvas no Maranhão. Quem já morou lá sabe que é chuva torrencial a cada três horas. Sol e tempestades extremos. Há o risco real que o sobrado do Apem desabe com tudo dentro. A sociedade maranhense vê sua memória indo para o ralo da história.


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