Como o título indica, o livro “Arquitetura e Natureza, 23 Casas na Serra do Guararu – Marcos Acayaba” apresenta o conjunto completo de casas projetadas pelo arquiteto para essa delicada região do Guarujá, no litoral paulista, uma bem preservada faixa de mata atlântica, mangue e restinga, situada entre o oceano Atlântico e o canal de Bertioga.
Com organização de Marlene Milan Acayaba e editoria de imagens de Nelson Kon, a publicação recolhe uma expressiva produção residencial do arquiteto Marcos Acayaba ao longo de 35 anos de carreira, de 1986 a 2021.
Ocupada pelos condomínios de Tijucopava, São Pedro, Iporanga e Taguaíba, a serra do Guararu é uma área de proteção ambiental com casas de veraneio de luxo que, em alguns casos, procuram soluções arquitetônicas não ostensivas, com presenças discretas na paisagem, e cuja implantação e processo construtivo não agridam o meio ambiente. Esse é o caso das obras apresentadas no livro, cuja sequência cronológica nos permite entender seus percursos e transformações.
Com a exceção dos terrenos planos próximos à praia, os lotes mais comuns desses condomínios apresentam grandes declividades e altas concentrações de árvores. Respondendo a esses desafios, Acayaba foi criando volumetrias cada vez menos monolíticas, decompondo as construções em volumes escalonados e organizações expansivas em planta.
Nesse sentido, se aproximou do engenheiro Hélio Olga, que já começava a construir obras com estruturas de madeira industrializada. Assim, em 1986, realizaram juntos a Casa AOT, visitando estéticas e materialidades japonesas.
A partir daí, o arquiteto começa a buscar combinações possíveis entre componentes de madeira para estruturas e pisos, de um lado, e paredes de alvenaria de tijolo, por outro. Ao mesmo tempo, nas implantações, alterna soluções em que encaixa os volumes fragmentados nas curvas de nível, ou então os eleva sobre pilotis, lembrando palafitas, com passarelas elevadas e torres-mirante. Dessa segunda família de projetos nasce a Casa Baeta, em 1991, que se tornou uma referência importante na arquitetura paulista e brasileira.
Nesse projeto radical, feito todo de madeira, vidro e painéis leves, com a Ita Construtora, de Olga, o arquiteto leva às últimas consequências o raciocínio feito a partir do material construtivo, soltando a casa inteiramente do chão e estruturando-a por meio de módulos triangulares de madeira autotravada, com apoios concentrados e encimados por mãos-francesas diagonais que sustentam as lajes.
Como explica Acayaba, a forma triangular possibilita desenvolvimentos volumétricos mais livres do que o padrão ortogonal, permitindo-se desviar-se mais facilmente de árvores existentes no terreno, por exemplo. Além disso, demanda um canteiro de obras simples e diminuto, já que os trabalhos no local se resumem quase que apenas à montagem de componentes produzidos fora. Experiência que se prolonga em sua própria casa, em 1996.
Assim, tocando muito pouco o chão e construindo de modo racional e sustentável, o arquiteto atinge, ao mesmo tempo, um alto grau de leveza, desafiando a gravidade por meio de tabuleiros de madeira articulados e em balanço.
Algo que apareceu como uma opção ecologicamente consistente diante da recente preocupação com a conservação de energia e o uso de materiais renováveis para a construção civil, em um momento de particular conscientização sobre o impacto de desmatamentos e o desenvolvimento de novas técnicas de manejo de florestas.
Para tanto, Acayaba desenvolveu, em colaboração com a Ita, uma linguagem distinta da imagem rústica e pitoresca normalmente associada à madeira no Brasil, aparelhando as peças, reduzindo ao mínimo a espessura dos perfis e concebendo um sistema compósito com peças metálicas de ligação, tirantes de aço para contraventamento, coberturas planas com mantas termoplásticas da Alwitra e fechamentos em painéis leves.
Linguagem que se afasta do uso artesanal e regionalista da madeira praticado historicamente no país, apontando para uma serialização industrial sofisticada, mas despojada.
Nessas obras, Marcos Acayaba dialoga em profundidade com a melhor tradição da arquitetura brasileira, baseada no projeto em corte, pensado a partir da estrutura. Mas o faz substituindo o concreto armado pela madeira industrializada, e com uma poética ascensional, de volumes que parecem brotar em flor, flutuando sobre os abismos escarpados, e em meio a uma mata densa.
E, ao fazer esse giro técnico e estético desde os anos 1990, e através de casas de praia no meio da mata atlântica, indicou um caminho promissor para a nossa arquitetura. Ambientalmente responsável e, ao mesmo tempo, conectado a uma tradição.











