Opinião: Filme ‘Ainda Estou Aqui’ converte relato de filho em retrato de mulher

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Opinião: Filme ‘Ainda Estou Aqui’ converte relato de filho em retrato de mulher


O livro “Ainda Estou Aqui” surgiu de uma epifania de Marcelo Rubens Paiva, como ele diz com frequência. “Ao longo do tempo, percebi que a grande heroína da história é minha mãe”, registrou a uma revista, resumindo seu tom elegíaco.

“Minha mãe esteve na capa de todos os jornais no dia seguinte. Com o atestado de óbito erguido, alegre. Uma batalha foi vencida”, escreve o filho sobre o momento em que seu pai, Rubens Paiva, foi enfim reconhecido como morto pela burocracia do Estado que o torturou e assassinou 25 anos antes. “Angústia, lágrimas, ódio, apenas entre quatro paredes. Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou.”

Eunice Paiva, no livro, é quase sempre “minha mãe”. No filme que chega aos cinemas nesta quinta-feira, ela perde o “minha” e, sem perder o “mãe”, se torna uma mulher.

O longa de Walter Salles parte de um roteiro de intenções cristalinas de Heitor Lorega e Murilo Hauser, operando de cara uma mudança de primeira para terceira pessoa. Não há mais a mediação do filho: para entender aquela mulher encurralada numa situação limite, é preciso se concentrar nela com foco e diligência.

É claro que Marcelo ainda está aqui, saracoteando pelo filme como um menino travesso e, mais velho, na performance irreverente de Antonio Saboia. Mas a mãe não é vista através dele: a câmera está na altura de olhos adultos.

É essa recalibragem que permite que Fernanda Torres, numa interpretação corretamente percebida como divisor de águas em sua carreira, a encarne sem o filtro mitológico da maternidade.

Não importa quanto talento tenha um autor —e é evidente que Paiva faz um esforço de sobriedade no livro ao descrever a carreira e as imperfeições da mãe—, ninguém é menos apto a escrever de forma objetiva sobre uma pessoa que seu filho. Está perto demais do sol.

Não por acaso, dois dos momentos mais memoráveis do filme não existem no original, porque se passam numa subjetividade inacessível àquelas cinco crianças —apesar de ser essencial que elas estejam ali, às margens da cena.

A primeira é quando Eunice volta do cárcere, imunda e fragilizada, e toma um banho demorado antes de se prostrar na cama. Com os filhos, não consegue lidar agora. A longa limpeza, severa e aflita, abre as portas para uma transformação ritualística dentro da mulher.

A segunda deve ser a cena mais comovente do filme, quando Eunice leva os filhos à mesma sorveteria em que a vimos com o marido algum tempo antes. Agora, ele está morto e ela sabe. A câmera acompanha o olhar da mulher para casais e famílias íntegras, inteiriças, como a dela nunca mais vai ser, e o silêncio basta para que entendamos de onde vem a lágrima que brota à nossa frente.

As cenas não estão no livro, em que Marcelo reconhece não dar conta das multitudes da mãe. “Eunice não foi uma só. Existiram algumas que não se contrapunham, completavam-se, não se contradiziam, somavam-se, reconstruíam-se da tragédia, alimentavam-se dela para renascer.”

As memórias do filho narram suas peripécias de adolescente em paralelo à história de Eunice, das broncas que levava por ser arteiro até as meninas em que tinha tesão, na literatura-moleque que fez de “Feliz Ano Velho” um dos maiores best-sellers do país.

O livro de 2015 foi a primeira incursão mais detida do autor no gênero autobiográfico desde aquele sucesso de 1982, movida por duas urgências: o Alzheimer que levava a memória de sua mãe e a Comissão da Verdade que resgatava a memória de seu pai.

A adaptação cinematográfica, sabiamente, evita diluir a narrativa em diversos afluentes de memória, ou pior, tentar emular na tela a voz literária de Marcelo. A escolha por outro tom e estrutura se revela acertada, como mostram duas diferenças essenciais.

Primeiro, quando Eunice é levada para a prisão e submetida à violência arbitrária da ditadura, o livro intercala a narração com a temporada do pequeno Marcelo, ao mesmo tempo, protegido no sítio de amigos em Araras. O filme ignora o filho, e a via-crúcis da mãe acumula muito mais força.

Mais adiante, o autor conta de quando finalmente viu sua mãe chorar. “Chorou tudo o que havia segurado, tudo o que reprimiu, tudo o que quis”, escreve. “O rompimento de uma represa.”

Essa represa jamais se rompe no filme. Torres contou em entrevista recente ao jornal O Globo que Salles não usou nenhuma das várias tomadas em que ela chorava. “Ele cortou todas!”

É uma escolha que deixa o espectador mais imerso na personagem, mais intrigado por suas engrenagens sentimentais, por aquilo que ela não mostra. No lugar da pergunta “por que minha mãe não chora?”, há a afirmação “Eunice não chora na frente de seus filhos”. Aí está toda a diferença do mundo.



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