De vez em quando os executivos de Hollywood despertam de um longo sono e lembram que Hollywood já foi Hollywood e decidem fazer um filme como faziam antes de mergulharem na sua burocrática tropa de super-heróis. Este “O Diabo Veste Prada 2”, por exemplo.
Podia ser uma bobagem extraordinária, a mera exploração de um sucesso de 20 anos atrás. Mas é uma surpresa, e merece atenção por mais de um motivo.
Primeiro, por executar um oportuno deslocamento. Se no primeiro filme a moda era o assunto, aqui já de início percebe-se que é mais um acessório, embora indispensável. No começo deste século, a moda era o centro da cultura no Ocidente. Esse tempo passou. Tanto os produtores notaram isso que, logo na abertura do novo filme, é de jornalismo que se trata.
Andy, papel de Anne Hathaway, ex-funcionária na revista de moda da terrível Miranda, vivida por Meryl Streep, agora é uma jornalista investigativa. Logo antes de receber um importante prêmio, no entanto, ela recebe uma mensagem dizendo que toda a equipe do jornal em que trabalha foi demitida.
Por quê? Novas diretrizes na corporação, economia de recursos, mais uma série de motivos que nos levam ao coração do filme nesta primeira parte. O mundo do jornalismo, tal como o conhecemos até o começo dos anos 2000, acabou.
A boa informação já não é impressa. Chega pela internet. No mais, ela interessa pouco. Os cliques é que valem. Esta é uma mudança essencial das últimas décadas, o esvaziamento das redações, os jornais encalhados nas bancas, vendidos para que os pets façam suas necessidades.
Por sorte, Andy consegue uma boa colocação na Runway, a revista que Miranda comanda com mão de ferro. No momento, a publicação está na lona por causa de algum escândalo, e nessa hora é bom ter um jornalista de talento por perto. Mas o começo de Andy é um fracasso. Ela produz ótimos textos, lidos apenas por pessoas importantes, mas quem se interessa por isso? Faltam os cliques.
Posso estar enganado, mas não me lembro de nenhum filme que tenha tratado da transformação que atingiu a cultura no início deste século, e da qual os jornais e revistas são de fato os sinais mais evidentes.
Faz sentido, portanto, Andy chamar a nossa atenção para a crise que eliminou uma quantidade enorme de empregos de profissionais, substituídos de imediato na percepção das pessoas por um batalhão de influencers e caçadores de cliques.
O retorno implica refazer relações do primeiro filme. E, convém lembrar, ele terminava com Andy largando Miranda, esnobando o mundo da moda. Andy virou uma repórter sem perder a ternura.
O jornalismo é uma profissão difícil, que supõe provas reiteradas de caráter e honestidade. E ter caráter no jornalismo significa muitas vezes ser impiedoso. É uma profissão um tanto insalubre. Conseguirá a doce Andy se manter acima dessas questões, agora que volta a um meio tão pantanoso quanto o das edições de moda?
Com isso, vai se introduzindo aos poucos a segunda questão que afetará o filme. Quando Andy retorna à Runway, a indústria da moda enfrenta uma transformação tão profunda quanto a da imprensa. Agora não é mais um meio de milionários e bilionários, mas de zilionários e celebridades —do esporte, da música, da moda ou do simples fato de serem célebres. O que conta, no entanto, são os zilionários, que ali se materializam nas figuras de Benji Barnes e de sua antiga mulher, Sasha.
Benji é absolutamente rico, uma riqueza que deriva para a inutilidade (o que fazer com tanto dinheiro?), de maneira que fica presenteando a namorada, Emily (a antipática garota do filme anterior), com quadros de Matisse, Manet ou similares, sem contar os colares e tal. Mas o maior presente que ele poderia dar à namorada seria a compra de Runway, a revista.
O que não seria grande problema, pois, com a morte do antigo proprietário, o filho e herdeiro mostra-se muito à vontade com os novos métodos —supressão de empregos e a economia de despesas produtivas.
Em resumo, aqui o filme começa a nos introduzir nos efeitos do neoliberalismo. E a própria Emily nos lembra que “agora só o que dá lucro é o prêt-à-porter”. O que faz sentido —a alta costura seria uma espécie de outdoor das grandes casas, que produzem não vestidos, mas arte. A segunda linha pode servir, então, a uma classe média enriquecida, porém subalterna.
Mas não é isso que o filme vê como questão, mas sim a formação de formidáveis monopólios. Assim como a Paramount comprou a Warner, que por sua vez tinha comprado HBO e mais uns tantos, agora a Runway está sob risco de perder sua alma. Um poder monopolista e absolutamente alheio à sua natureza pode abocalhá-la. Aparecerá um outro mais ou menos igual para salvá-la? Ou ainda, seria melhor se a Warner acabasse absorvida pela Netflix?
São questões dessa natureza, das quais a ficção hollywoodiana quase sempre acaba se desviando, que este filme revela em suas imagens.
É claro, sempre se poderá dizer que certas coisas fazem pouco sentido. Por exemplo, que uma jornalista como Andy troque de roupa a cada sequência. É verdade também que seu bom-caratismo permanente infantiliza o filme —e a personagem.
Sempre se poderá dizer que a série de reviravoltas —envolvendo seja a revista, seja algumas das personagens principais— é artificial e apenas serve para cobrir uma convenção.
Mas esses aspectos me parecem secundários diante daquilo que o filme leva ao espectador e que rompe com a continuidade esperada para uma sequência. Há, por exemplo, momentos de humor quando Miranda aparece tendo de dividir uma fileira de poltronas da classe econômica de um avião com o comedor de um sanduíche assustador. Ou quando, tendo de ceder às reclamações feitas ao compliance, precisa ela própria guardar o seu casaco em vez de jogá-lo na mão do primeiro que aparecesse.
No essencial, porém, a transformação de Miranda acompanha a mudança dos tempos —ela já não é a arrogante ditadora da moda do filme anterior, mas a guardiã de um bom gosto que vigorava nos velhos tempos, agora ameaçado pela vulgaridade da nova era dos zilionários.
“O Diabo Veste Prada 2” observa com acuidade um mundo em transição rápida e radical, no qual cada um tem que se virar como pode. Como bom conto de fadas hollywoodiano, a simpática Andy vai se dar muito bem na nova era.
O público, no entanto, parece perceber que o filme observa as dificuldades da transição para um mundo pós-industrial que ninguém ainda sabe no que vai dar. O público também parece entender que alternativas de trabalho viram pó com a mesma rapidez com que o emprego de Andy no jornal em que trabalhava, no início do filme, desaparece.
Enfim, a nova era está aí —ao desfilar seus Prada ou Versace, os zilionários se apossam de mais e mais coisas. Nós, espectadores, esperamos em suspense para saber no que tudo isso vai dar.











