Opinião – Caetano W. Galindo: Espírito sabichão sapeca erros pretensiosos no português do dia a dia

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Opinião – Caetano W. Galindo: Espírito sabichão sapeca erros pretensiosos no português do dia a dia


Dia desses, passando em frente a um supermercado 24 horas recém-inaugurado, topei com um cartaz que anunciava um “mutirão” de contratação.

Eu estava indo pra aula, e uma breve conversa com os alunos já me deu todas as informações que, no fundo, seriam óbvias. Trata-se de uma grande rede local que oferece condições de trabalho —digamos— pouco dignas e está com tremendas dificuldades pra contratar a mão de obra necessária pra manter a loja aberta o dia todo, sete dias por semana.

Típico.

Mais típico ainda, especialmente se a gente pensa na onda atual que tenta fazer as relações entre empresários e trabalhadores parecerem mais palatáveis, é o processo meio eufêmico de caracterizar essa rodada de contratações como um “esforço coletivo”.

Chamar triagem de candidatos de “mutirão” é da mesma natureza do movimento que levou os empregadores a chamar seus antigos “empregados” de “colaboradores” (e que antecedeu, por alguns anos, o processo violento de pejotização e gradual dissolução do pacto trabalhista brasileiro —as palavras não mudam o mundo, mas são poderosos indicadores de mudanças já em curso).

Só que o tal cartaz ainda tinha mais coisas interessantes (além do fato de estar todo escrito na onipresente e maravilhosa fonte “vernacular” empregada em cartazes de preços dentro das lojas dos supermercados: portanto, mais um elemento que tentava caracterizar a cooptação desesperada de trabalhadores precarizados como uma “promoção”).

E uma dessas coisas interessantes era um erro.

Porque, leitora minha, a palavra escrita no cartaz, na verdade, não era “mutirão”, mas “multirão”.

Dá pra dizer que essa grafia é um caso daquilo que na linguística a gente chama de “etimologia popular”, quando os usuários reinterpretam (equivocadamente) a formação de uma palavra e sapecam uma pretensa correção que não tem base na vida real do vocábulo.

Se um “mutirão” descreve um trabalho coletivo, múltiplo, ora: a forma mais acertada da palavra deveria ser “multirão”, pensou alguém.

Mas perceba outras duas coisas.

Uma, que esse processo tem ar de falsa superioridade. É um movimento sabichão, bacharelesco, que acredita ter uma interpretação correta dos fatos e desconsidera uma simples e humilde consulta a um dicionário qualquer.

É claro que não estou dizendo que a pessoa específica que escreveu aquele cartaz tivesse lá esse complexo de superioridade. Ela quase certamente estava errada e pronto: sem maiores explicações. Mas o tipo do erro cometido assinala, sim, a presença desse espírito cabotino entre os usuários do idioma.

A segunda coisa, ainda mais bacana, é que a palavra “mutirão” nem é latina! Ela não pertence ao mundo de que vem o prefixo “multi-“. Os etimólogos ainda discutem os detalhes da sua introdução no português brasileiro: ela pode provir de uma língua africana ou indígena, mas parece bem seguro afirmar que sua base deve ser tupi.

Que a hipercorreção leve a propor uma releitura latina, europeia, de um vocábulo seguramente brasileiro é marca mais do que suficiente do tal do espírito espertalhão.

Mas que seja indígena, da terra, a raiz da nossa palavra preferencial pra um termo coletivista, que descreve uma lógica de colaboração altruísta, oposta por natureza ao modo de funcionamento do capital empresarial que tentou se apropriar do termo lá naquele cartaz, ora, convenhamos que é um refresco. Lava a alma.


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