A retórica de combate ao sistema pode se voltar contra Lula se o eleitor cansado do petista enxergar em outro nome a “verdadeira mudança”.
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou publicamente o que todos esperavam: será candidato à reeleição em 2026. O anúncio feito durante um discurso na cúpula da Ásia, veio num tom de que é preciso continuar para fazer justiça social no Brasil, consolidando uma estratégia que já vinha sendo percebida nos últimos meses, a de se apresentar como o líder que enfrenta o sistema.
Esse movimento tem servido para recuperar parte da popularidade perdida e para reposicionar o presidente num tabuleiro em que o Congresso Nacional virou o “inimigo preferencial”.
Depois de sucessivas tentativas frustradas de compor com os parlamentares, mesmo distribuindo cargos e ministérios, Lula passou a se apoiar em uma narrativa de confronto. Ele se coloca como o “representante do povo” contra os poderosos, os bancos, as casas de aposta e os bilionários, os chamados “BBBs”.
Essa retórica ganhou fôlego após a rejeição popular à PEC da blindagem, que provocou protestos e fez cair a credibilidade da classe política. Lula aproveitou o momento e consolidou um discurso de pobres contra ricos, em que o sistema seria o obstáculo à justiça social.
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O paradoxo
O risco estratégico para Lula é legitimar o humor antissistema e ver outro ator colher esse capital simbólico mais perto da eleição. Sim, isso pode acontecer. Ele tenta se apresentar como o homem que desafia o sistema, mas o faz de dentro do sistema, no cargo mais alto da estrutura política que ele critica.
Ao reforçar esse sentimento de negação à política tradicional, o presidente abre espaço para que surja alguém que ocupe o mesmo campo com mais credibilidade de outsider. Esse cenário não é hipotético.
O Instituto Ideia, em pesquisa conduzida por Maurício Moura, mostrou recentemente a existência de um ambiente propício ao surgimento de um candidato fora da política que represente a insatisfação popular. Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, Moura afirmou que o eleitorado está propenso a apoiar alguém que diga ser contra o sistema e que não tenha histórico político.
O risco
Hoje, as pesquisas mostram que a maioria dos eleitores preferiria que Lula não disputasse novamente. Mesmo assim, ele continua sendo o nome mais lembrado e, na ausência de opções competitivas, lidera por inércia.
Esse apoio de conveniência é frágil. Se um outsider surgir, com um discurso semelhante, pode canalizar tanto o cansaço com o sistema quanto a fadiga atual com o próprio Lula.
Foi parecido com isso em 1989, quando Lula perdeu para Fernando Collor. Naquele momento, o petista também representava a mudança, mas não tinha experiência administrativa nem a visibilidade do cargo que ocupa hoje.
Collor, que se apresentava como o caçador de marajás, encarnou o espírito de renovação e venceu. A diferença é que, agora, Lula é o presidente e lidera o próprio sistema que tenta negar.
A memória
A história de Collor serve de alerta. Ele também surfou na onda antissistema, conquistou votos com promessas de moralização e terminou deposto após medidas desastrosas como o confisco da poupança.
O ambiente de 2026 guarda semelhanças com aquele período de exaustão política, mas com uma diferença importante: o próprio presidente tenta vestir a roupagem de outsider. Isso cria uma contradição que pode ser fatal e facilitar a vida de um novato.
Ao se colocar como antissistema, Lula valida um discurso que outros podem usar contra ele. E se o eleitor não quiser repetir o conhecido, a próxima eleição poderá abrir espaço para qualquer figura que surja com um discurso de ruptura, mesmo sem projeto, partido ou experiência. Pode ser um jogador de futebol, cantor sertanejo ou algum coach. Tudo pode acontecer.
E quando tudo pode acontecer, não há nenhuma garantia de que dê certo. As coisas não estão fáceis, mas sempre há como piorar. É só lembrar de Collor.

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