Minha avó nos deixou em 25 de fevereiro de 2025. Este é o segundo Dia das Mães da minha mãe sem a mãe dela. E, desde então, eu a tenho observado…
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Mães também ficam órfãs. Foi preciso que a minha mãe perdesse a mãe dela para que eu pensasse neste assunto e o assimilasse melhor. Talvez porque a gente cresça olhando para as mães da mesma forma que olha para casas antigas: imaginando que estarão sempre ali, sustentando tudo, sabendo tudo, suportando tudo.
Há uma força nelas que nos engana. E, por muito tempo, eu achei que essa força anulasse certas fragilidades. Até entender que não. Mãe também sente falta de colo. E eu vejo, nitidamente, a minha sentindo essa ausência.
Não é raro ouvir a minha mãe cantar baixinho uma música que a minha avó Dapaz adorava, de Moacyr Franco: “Se eu tivesse o coração que dei…eu nunca mais vou te esquecer, meu amor”. E toda vez que isso acontece é impossível não parar por alguns segundos e meditar a respeito. Há músicas que não apenas tocam. Elas reaparecem. Trazem de volta presenças inteiras, intactas.
Minha avó nos deixou em 25 de fevereiro de 2025. Este é o segundo Dia das Mães da minha mãe sem a mãe dela. E, desde então, eu a tenho observado em pequenos instantes. Não nos grandes. E é fácil perceber que a saudade mais funda raramente faz espetáculo. Ela aparece nas coisas mínimas. Num comentário interrompido no meio. Numa receita. Numa lembrança puxada sem querer. Numa música cantada distraidamente enquanto organiza a casa.
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É curioso compreender isso. Porque, em algum momento da vida, a gente deixa de enxergar apenas a mãe e passa a enxergar também a filha que existe nela. A filha que perdeu alguém. A filha que, mesmo adulta, mesmo forte, mesmo cercada de gente, ainda sente falta daquela pessoa específica para quem ligaria primeiro.
Talvez o Dia das Mães também seja isso para muitas mulheres: um dia vivido por uma ausência silenciosa. Enquanto recebem flores, mensagens, abraços e homenagens, há uma parte delas olhando discretamente para trás. Para a própria mãe. Para a voz que não escutam mais. Para o conselho que já sabem de cor, mas gostariam de ouvir outra vez.
E não há exagero nisso. Há é continuidade. Porque o amor, quando é verdadeiro, não desaparece com a ausência física. Ele muda de lugar. “Muda de frasco”, como diria a saudosa poetisa Ana Jácomo. Passa a morar na memória, nos gestos herdados, nas frases repetidas sem perceber, nos gostos que ficam.
Eu vejo muito da minha avó em minha mãe. E muito da minha mãe em mim. Talvez seja esse o jeito que a vida encontrou de driblar as despedidas: fazendo com que ninguém vá completamente embora.
Pensei muito nisso antes de escrever este texto – e continuei pensando enquanto escrevia. Nas mulheres que seguem sendo mães enquanto ainda aprendem a conviver com o fato de não terem mais as suas. E há algo de profundamente delicado nisso, já que, no fundo, talvez ninguém deixe de precisar de mãe completamente.
Suponho que a gente apenas aprenda a sentir saudade de formas diferentes. E siga. Às vezes, forte. Às vezes, meio torcida. Mas siga. Com amor. Com memória. E com essa estranha delicadeza de continuar ouvindo, em certas músicas antigas, a voz de quem o coração se recusa a deixar partir.
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