A assimetria de custos revela que guerras contemporâneas podem ser travadas com armamentos baratos, desde que direcionados a alvos de alto valor
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Oficialmente, em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos da América e Israel lançaram um ataque coordenado à República Islâmica do Irã. Com o codinome de Fúria Épica, pelos EUA, e Leão Rugidor por Tel Aviv, os ataques tiveram como alvos importantes instalações iranianas, autoridades e comandantes. Desde seu início, o conflito teve como objetivo declarado a mudança de regime.
Teerã retaliou lançando dezenas de drones e mísseis balísticos contra Israel e nações do Golfo Pérsico que abrigavam bases americanas. Sem condições de entrar em uma guerra simétrica contra os EUA e Israel, o Irã optou por elevar os custos da guerra atacando locais diversos no Oriente Médio com os meios que tem à disposição. Para compreender os danos do conflito, principalmente os de natureza civil, foi feito um levantamento dos pedidos registrados pela Autoridade Tributária de Israel (Israel Tax Authority — ITA) e das companhias de resseguro dos países do Golfo, com o objetivo de estimar os prejuízos que os ataques iranianos têm causado. Cabe ressaltar que essa análise não inclui os custos operacionais da guerra, nem os negócios afetados pelo fechamento do Estreito de Ormuz, mas tão somente os danos materiais consolidados causados pelos mísseis e drones.
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A assimetria de custos é, antes de tudo, uma característica marcante dessa guerra. As ameaças e o posterior emprego de drones no campo de batalha, tanto na Ucrânia quanto agora no Oriente Médio, evidenciam uma tendência que poderá se confirmar em conflitos futuros: o uso de drones baratos e de baixo aporte tecnológico, que custam cerca de 40 mil dólares, como é o caso do Shahed iraniano. Já os sistemas interceptadores, dependendo de sua configuração, podem custar entre 4 milhões de dólares — no caso do Patriot, por míssil — ou, na configuração mais acessível, o Tamir, míssil utilizado pelo Iron Dome, que gira em torno de 40 mil dólares a unidade.
Assim, a assimetria se manifesta a partir do momento em que o defensor gasta muito mais, mesmo que o sistema de defesa baseado em mísseis não tenha sido projetado para isso, para neutralizar uma ameaça relativamente barata. Cabe ressaltar que, dependendo da resposta do agressor, como no caso de saturação por mísseis, esse desequilíbrio se torna o pior cenário em relação à diferença de custos.

Dados da guerra no Irã – ARTE
Porém, se formos analisar a assimetria não somente pela ótica dos meios empregados, sistema de defesa aéreo por mísseis versus drones, e avaliarmos pelo prisma dos alvos em si, o quadro se revela ainda mais preocupante. Quando um atacante dispara um drone e este causa danos a alvos de grande importância financeira, como refinarias, usinas de energia, portos, aeroportos e hotéis, o atacante está criando impactos econômicos altíssimos a baixo custo. A situação se torna ainda mais alarmante quando se estimam os negócios não realizados na área petrolífera e, principalmente, na indústria do turismo nos países árabes.
Com a finalidade de estimar os danos causados pela assimetria de custos presente no atual conflito, uma análise apurada dos relatórios apresentados pela Autoridade Tributária de Israel e pelas companhias de resseguro dos países árabes mostra que, ao atacar seus oponentes, o Irã direciona seus esforços de maneira distinta.
Para Israel, os ataques iranianos parecem visar um maior volume de alvos, com impacto econômico unitário relativamente menor. Não se pode afastar deste cenário a hipótese de que este resultado seja fruto da seleção de interceptação realizada pelo sistema de defesa aéreo israelense, que pode estar redirecionando os danos sem que isso reflita necessariamente a intenção original do atacante. Já para os países árabes, os ataques iranianos visam alvos de alto valor indireto, alvos que criam uma pressão econômica na cadeia de fornecimento de petróleo e derivados.
Os números apresentados pela Autoridade Tributária de Israel mostram que, nas primeiras semanas, foram registrados 10.314 pedidos de indenização, evoluindo para 12.845 já na segunda semana de conflito. Ao completar um mês de conflito, os relatos mais recentes apontam um aumento para 22.600 pedidos, quase 100% a mais, o que representa aproximadamente 1,3 bilhão de dólares, com custo médio entre 30 e 80 mil dólares por pedido.
Nos países do Golfo, o cenário é mais grave: ao analisar os relatórios de danos emitidos pelas companhias de resseguro, observa-se que países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos indicam que os ataques iranianos atingiram duramente alvos de grande impacto econômico, além de gerar uma disrupção regional significativa, especialmente nas atividades ligadas ao fluxo de energia e ao transporte marítimo. Isso, por si, justifica os números medidos pelas companhias de resseguro: entre 1,1 e 3,2 bilhões de dólares na Arábia Saudita e 1 bilhão de dólares nos Emirados Árabes Unidos, sem incluir os negócios não realizados, ou seja, apenas danos materiais diretos.
Já no Catar e no Bahrein, estima-se, com a mesma metodologia aplicada, uma intensidade de danos consideravelmente menor. Os valores estimados estão entre 210 milhões de dólares para o Catar e 120 milhões de dólares para o Bahrein, sendo que a maioria dos danos é indireta — manifestada por meio de aumentos nos custos de seguro e interrupções operacionais.
Os dados iniciais mostram que os maiores efeitos econômicos têm sido sentidos na Arábia Saudita. Israel e seu sistema de defesa antiaérea parecem ter minimizado os impactos na infraestrutura civil, embora essa capacidade de interceptação também possa mascarar a real intenção dos ataques iranianos.
Por outro lado, a estratégia do Irã de atacar os países do Golfo e prejudicá-los economicamente apresenta algum grau de sucesso. O uso de drones e mísseis está sendo acompanhado com lupa pelo mundo, por seu baixo custo e pela capacidade de impor danos materiais consideráveis.
Em síntese, a assimetria de custos, pedra angular da estratégia iraniana neste conflito, revela que guerras contemporâneas podem ser travadas com armamentos baratos, desde que direcionados a alvos de alto valor estratégico e econômico. Enquanto o mundo debate os limites do direito internacional humanitário no uso de sistemas autônomos e mísseis de cruzeiro, os custos do conflito, humanos e materiais, só aumentam a cada dia.
Antonio Henrique Lucena Silva (UFPE/UNICAP) e Marco Túlio Delgobbo Freitas (ECEME)
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