Mulher enterrada resiste ao colapso em montagem de Samuel Beckett, ‘Dias Felizes’

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Mulher enterrada resiste ao colapso em montagem de Samuel Beckett, ‘Dias Felizes’


Nos momentos em que o mundo fica muito absurdo, é hora de encenar Samuel Beckett novamente. Com esse pensamento, a atriz Patrícia Selonk sugeriu à Armazém Companhia de Teatro uma montagem de “Dias Felizes”, peça em que a personagem Winnie encontra em seus pequenos rituais diários uma forma de resistência contra o colapso.

Em uma superfície inclinada, Winnie, interpretada por Selonk, aparece enterrada até a cintura, no primeiro ato, enquanto lida com a luz do sol inclemente e a estridência de um sino que anuncia algo indecifrável. O fim dos tempos? A última chance de tentar ser feliz? No segundo ato, quando aparece enterrada até o pescoço, a luz diminui e a solidão parece mais intensa, mas a mulher segue viva.

O conteúdo da bolsa —uma escova de dentes, um batom, um espelho e um revólver— são o mote para as recordações da personagem que busca, entre o desespero e o sarcasmo, a atenção do único interlocutor possível, Willie, o companheiro silencioso, absorto e enigmático.

A sugestão da atriz foi feita ao grupo durante a pandemia, quando os artistas ficaram sem a possibilidade de dar continuidade a seus projetos e precisaram pensar em estratégias de sobrevivência. Uma das cenas de “Dias Felizes” chegou a ser registrada em vídeo na época, porém a peça só estreou para valer em maio do ano passado, no Rio de Janeiro.

Após participar do Porto Alegre em Cena, também em 2025, do Festival de Curitiba, em abril deste ano, e da programação do Modern Drama Valley Theatre Festival, em Shangai, na China, no mês passado, o espetáculo estreia no Sesc Pompeia, em São Paulo, no dia 25 de junho.

No palco, a dupla em cena vive em um mundo em que não existem mais as estruturas capazes de produzir sentido para a existência, dos pontos de vista moral, político e religioso. O desconforto, típico da obra de Beckett, escancara a fragilidade humana e também a capacidade de seguir em frente, do jeito que é possível: “Mais um dia feliz”, repete Winnie, em uma reação aparentemente insensata ao caos.

Willie, que pouco se comunica, é fundamental na trama por representar a possibilidade que a mulher tem de ser ouvida. “Será que você consegue me ouvir? Será que você consegue me ver?”, ela pergunta.

“Acho que a pior coisa que aconteceria para ela é se perceber falando sozinha, falando para ninguém”, diz Selonk. “Encontrei nas palavras da Winnie um jeito de expressar coisas que eu já vinha percebendo. Quando li o texto, pensei: caramba, quero preencher essas palavras de vida, porque elas dão conta de sensações minhas”.

Antes de entrar em cena, a atriz costuma refletir sobre a disposição do público, nos dias de hoje, para uma comunhão com uma figura que fica parada o tempo todo, semi-enterrada em meio a um cenário árido. Beckett, ela lembra, não oferece respostas fáceis para os espectadores.

Em 1996, quando estreou sua versão de “Dias Felizes” em São Paulo, Fernanda Montenegro garantiu: “O público gosta de ator falando”. Era uma época em que os vídeos curtos, auto-descritivos e banais vistos pelos celulares ainda não haviam virado epidemia, ou seja, a capacidade de concentração era outra.

Porém, apesar das dúvidas da protagonista, a montagem da Armazém Companhia de Teatro arrebata o público por onde passa, inclusive na China, onde foi encenada em português e com legendas no Daning Theatre, com capacidade para mil lugares.

Beckett escreveu “Dias Felizes” no início da década de 1960, quando o temor da bomba atômica assombrava o mundo. Agora, na visão do diretor Paulo de Moraes, são as catástrofes naturais que ameaçam soterrar a humanidade.

Ele criou o cenário de uma parede caída em cima de pedras inspirado no distrito de Atafona, em São João da Barra (RJ), que está sendo engolido pelo mar, com ruínas de construções e ruas antes cheias de vida, em uma mistura de materiais orgânicos e inorgânicos.

Montado sem patrocínio, o espetáculo usa plataformas de outras montagens da companhia e aproveita materiais guardados no depósito da sede do grupo, na Fundição Progresso, na Lapa, região central do Rio.

No segundo ato, quando apenas a cabeça de Winnie está desenterrada, um telão ajuda o público a acompanhar as minúcias das expressões da atriz, em uma interpretação que vai da esperança à ironia, e passa pelo desespero. Para Patrícia, é uma peça que dialoga com o mundo atual. De fato, mulheres contemporâneas conseguem ver a si mesmas na insistência de Winnie.

“Essa mulher, com algumas coisas dentro da bolsa e os rituais de todos os dias, encontra um jeito de seguir vivendo. Talvez ela mexa nessas coisinhas para não pensar muito na condição em que está. Fazendo um paralelo com hoje, ficamos ali, nas redes sociais, rolando, de certa forma como uma anestesia”, diz.

A Winnie de Selonk não é romantizada e não tem pena de si mesma. É uma mulher na faixa dos 50 anos que segue em frente. Wilie é interpretado em dias alternados por Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes, este último também responsável pela tradução do texto que transporta Beckett para os dias de hoje.

“A intenção não foi atualizar, mas evidenciar que essa experiência humana de persistir no meio da adversidade continua profundamente presente ainda hoje”, afirma Moraes.

Ao fazer a versão de “Dias Felizes” na França, Beckett mudou as citações de textos literários ingleses para obras francesas. A tradução de Jopa, por sua vez, recorre à literatura brasileira, relacionando a cultura local aos temas abordados pelo dramaturgo.

Há pequenos trechos de “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos; “No Meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade; “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda”, de Lamartine Babo; e “Eu Canto porque o Instante Existe”, de Cecília Meireles.

O mundo distópico de Beckett ficou em cartaz em São Paulo até o fim de maio em outra peça, “Fim de Partida”, com Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França dirigidos por Rodrigo Portella.

No caso da Armazém Companhia de Teatro, é a segunda montagem de um texto do dramaturgo. A primeira, em 1998, foi “Esperando Godot”. Entre uma e outra, o diretor destaca o fato de agora estar mais velho e, portanto, mais próximo do universo do escritor irlandês, o que deixa mais aguçada a percepção da resistência.

“A resistência precisa do tempo. É claro que um jovem também resiste, insiste, mas isso leva um tempo para acontecer de uma forma mais plena. E a ideia da resistência está no cerne de ‘Dias Felizes’. Winnie é uma mulher que insiste em resistir, em se relacionar”.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *