Precisamos cuidar, sim, da alfabetização clássica, mas é preciso oferecer um ambiente escolar que leve ao desenvolvimento de outros letramentos
MOZART NEVES RAMOS
Publicado em 05/04/2026 às 17:22
| Atualizado em 05/04/2026 às 18:26
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Começo dizendo que o Ministério da Educação (MEC) está correto ao reconhecer os esforços dos municípios no processo de alfabetização de nossas crianças na idade certa – ou seja, aos 7 anos de idade, quando elas devem estar na 2ª série do Ensino Fundamental (EF).
Para aqueles que fazem seu dever de casa, são atribuídos selos de reconhecimento – ouro, prata ou bronze, a depender da qualidade e da extensão do esforço realizado. De acordo com o MEC, considera-se uma criança alfabetizada quando ela desenvolve:
1. Compreensão leitora: Ler textos curtos, como tirinhas e bilhetes simples, captando o sentido da mensagem;
2. Autonomia na escrita: Escrever palavras e pequenas frases sem a necessidade de copiar, demonstrando domínio das relações entre sons e letras;
3. Uso social: Ser capaz de utilizar a leitura e a escrita para situações reais do cotidiano, como identificar nomes em uma lista ou ler avisos.
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Para medir a taxa de crianças alfabetizadas nos municípios, o MEC criou o Indicador Criança Alfabetizada (ICA), usando um corte de 743 pontos na prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) na 2ª. série do EF. A meta é chegar a 2030 com pelo menos 80% das crianças brasileiras alfabetizadas.
Para apoiar os municípios, o MEC instituiu o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), inspirado no exitoso programa do estado do Ceará, que alcançou o índice de 84% de suas crianças alfabetizadas, seguido pelos estados de Goiás, Paraná, Espírito Santo e Minas Gerais – com percentuais entre 70% e 80%, com base nos resultados de 2025 divulgados recentemente pelo MEC.
Pernambuco chegou a 66% de crianças alfabetizadas – alcançando a meta de 2025. Três estados nordestinos apresentaram avanços muito importantes de 2024 para 2025 – os estados da Bahia – quem mais avançou, Piauí e Alagoas.
Quanto aos municípios, vale aqui um breve recorte dos resultados em Pernambuco. O município campeão em nosso estadão é Carnaubeira da Penha com 100% de suas crianças alfabetizadas na idade certa. 28% dos municípios pernambucanos avançaram 10 ou mais pontos de 2024 para 2025; outros 12% que já estavam com 80% ou mais de crianças alfabetizadas em 2024 conseguiram avançar ainda mais em 2025. A Região Metropolitana do Recife, por sua vez, puxou para baixo os resultados em Pernambuco, com exceção de Igarassu e Itapissuma, este último chegou a 88%.
Agora é preciso fazer uma reflexão: o fato de a criança conseguir ler e escrever com compreensão – dominando o sistema alfabético, decodificando sílabas e palavras, e com capacidade para interpretar textos curtos – é sem dúvida um ponto de partida importante para o sucesso escolar, mas não de chegada. Isso decorre do fato de que estamos vivendo um cenário permeado por frequentes descontinuidades tecnológicas. São épocas de transformações exponenciais, e não mais lineares – o que torna bem mais complexos os problemas a serem resolvidos por esta e pelas próximas gerações. Uma consequência disso é que precisamos oferecer às nossas crianças uma alfabetização sedimentada em multiletramentos.
Hoje se sabe, por exemplo, que uma escola que promove uma alfabetização socioemocional nessa fase da vida da criança amplia enormemente suas chances – não só de ir bem na escola, mas também de ter sucesso na vida futura, tanto no campo pessoal como no social. Estudos de James Heckman – Prêmio Nobel de Economia – mostraram que crianças que desenvolveram as chamadas competências socioemocionais já na Pré-escola tiveram 44% maiores chances de concluir o Ensino Médio e 35% menos chances de terem problemas prisionais – além de poderem obter melhores salários – do que aquelas que não tiveram um currículo que promovesse, de forma intencional, tal desenvolvimento no ambiente escolar.
Por isso, precisamos cuidar, sim, da alfabetização clássica – isso, repito, é ponto de partida –, mas é preciso oferecer um ambiente escolar que leve ao desenvolvimento de outros letramentos que serão essenciais para a vida futura de nossas crianças. Mas hoje estamos aqui para comemorar os avanços recentes na alfabetização clássica – o que não é pouca coisa –, e continuamos esperançosos de que, ao chegar a 2030, teremos no mínimo 80% de nossas crianças sabendo ler e escrever. Até lá, não podemos nos descuidar, pois a alfabetização plena é a pedra angular para uma educação de qualidade.
Mozart Neves Ramos é titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE.
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