Antes do primeiro desfile, a 61ª edição da São Paulo Fashion Week já tem duas portas de entrada fora do pavilhão. Inauguradas nos últimos dias, ambas com curadoria de Paulo Borges, criador do evento, as exposições de Davi Ramos e de Fernanda Calfat fazem o caminho inverso ao da passarela.
Em vez de anunciar a próxima estação, olham para trás, para as roupas, as imagens e, sobretudo, as pessoas que escreveram as três décadas da semana de moda.
A maior delas, “Moda Entre Olhares”, que ocupa o Instituto ViaFoto, abraça a carreira de Ramos na intermediação de imagens de moda. Stylist desde 1985 e chapeleiro há cerca de duas décadas, o mineiro fez seu primeiro desfile próprio no ano passado. Estava programado para repetir a dose, mas uma viagem a Paris mudou os rumos. “Fui a tantas exposições que a minha maior vontade era fazer uma própria, em homenagem à moda com os estilistas brasileiros”, ele afirma.
No galpão do instituto, no Largo da Batata, na zona oeste da cidade, looks de 22 marcas que passaram pelo evento, com peças que vão de 2002 a 2024, aparecem em contrastes. As roupas de arquivo ganham nova dimensão e outra carga dramática com um chapéu feito para cada look, mais um novo retrato assinado por Gustavo Ipolito.
“Eu procurei ser fiel a cada marca”, diz Ramos. “Que o estilista olhasse e se identificasse com o meu estilo em cima da roupa dele.”
A seleção foge do eixo Rio-São Paulo de propósito. Ao lado de Alexandre Herchcovitch, Marcelo Sommer, Cavalera e Walter Rodrigues estão Meninos Rei, Ateliê Mão de Mãe, Normando e Lino Villaventura. “A identidade do brasileiro é múltipla”, diz o stylist. O percurso se divide em quatro blocos, de uma sala inteira em vermelho a um final dedicado ao século 18, que tem João Pimenta como centro.
Na expografia, Borges optou pelo breu. Não há luz aparente, só o que precisa ser visto, e as fotos de Ipolito foram feitas com lanterna, nenhuma igual à outra. A sombra virou o eixo da mostra. “Uma imagem nasceu quando o Alexandre fez aquela roupa, e ela está emprestando aquele momento para que se crie outra imagem”, diz. “Essa sombra, para mim, é o DNA dessa aura criativa.”
As cabeças, para Davi Ramos, são o que desloca tudo. “Quando você coloca o chapéu, as imagens saem da realidade e criam uma imagem dois, três degraus acima”, diz. A peça que abre a mostra, um pássaro gigante, é réplica do seu primeiro chapéu, feito com um bojo de sutiã, tranças de lã e um bibelô natalino em formato de pássaro, surrupiado da sua mãe, tudo pintado de preto.
As asas voltam na série “Liberdade”, inédita. Sua trajetória aparece ainda nas imagens de 18 fotógrafos, de Bob Wolfenson e J.R. Duran até nomes mais jovens, como a dupla Mar+Vin.
O stylist-chapeleiro também é uma das vozes de “Reflexos”, de Fernanda Calfat, em cartaz no espaço Mula Preta, nos Jardins. Assim como ele, Calfat é personagem querida no mundo da moda e fez carreira longe dos holofotes, como fotógrafa de passarela.
Há mais de duas décadas cobrindo semanas de moda para a Getty Images, reúne 63 imagens de 25 anos de carreira, boa parte delas feitas na SPFW, onde começou. Ela queria ter aberto a mostra no ano passado, quando chegou a esse marco, e pediu a Borges que a curadoria aproveitasse para falar também do aniversário do evento.
Aqui, o desafio era outro. “No registro de passarela, você tem dezenas de imagens da mesma história, do mesmo momento. Cada fotógrafo tem uma”, diz Borges. “Como é que isso pode virar uma exposição?” A resposta veio do temperamento da fotógrafa, que fez amizade com estilistas e modelos, e as fotos foram escolhidas pelas histórias por trás dos cliques.
A série com a empresária têxtil Gabriella Pascolato na passarela da Zapping, em 2003, ganha texto emocionado da filha, Costanza Pascolato. Marcelo Sommer conta do dia em que, encantado com o desfile de papel de Jum Nakao, em 2004, pediu a peruca de Playmobil das modelos e apareceu com ela no encerramento do seu próprio desfile, no dia seguinte. Os textos, escritos por quem viveu cada cena, formam uma corrente —Luciana Curtis fala de Sommer, que fala de Nakao.
Impressas em papel arroz, várias fotos flutuam suspensas no espaço e nas paredes —Gisele Bündchen de terno para Ricardo Almeida, as fábulas de Ronaldo Fraga e os dramas de Lino Villaventura. Por trás delas há um arquivo que Fernanda guardou com método, ano a ano, desfile a desfile —um registro essencial dos primeiros tempos áureos da SPFW.








