O voto é complexo, multifacetado, composto por camadas que frequentemente se sobrepõem e até se contradizem
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Vamos adentrar em uma situação observada em uma das pesquisas qualitativas realizadas pela Cenário Inteligência na semana passada. A pergunta foi: Como você avalia a gestão atual do presidente Lula?
O entrevistado, um homem evangélico de uma cidade do interior de Pernambuco, pensou e respondeu sem hesitar: “Péssima!”. Em seguida, perguntamos o porquê, e ele explicou com clareza: “Lula e essa esquerda são a favor do aborto. Não pode isso. Eu não sou a favor e, por isso, é melhor a direita, que também é contra”.
Na sequência, perguntamos qual nota ele atribuiria à gestão. A resposta foi: 7. Ora, leitor, 7 é uma nota considerada mediana — suficiente para aprovação. Diante disso, indagamos: por que uma nota na média se a avaliação inicial foi “péssima”? Ele então se ajeitou na cadeira e disse: “Olha, eu sei que não concordo com as coisas, mas ele faz política para os mais pobres, ele ajuda o povo”.
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Esse exemplo evidencia que não se pode mais compreender o voto do eleitor apenas sob a lógica do voto econômico. O voto é complexo, multifacetado, composto por camadas que frequentemente se sobrepõem e até se contradizem. Muitos entrevistados rejeitam o presidente Lula por associações à corrupção, mas, ao mesmo tempo, reconhecem seus esforços em políticas sociais. Da mesma forma, há eleitores que estruturam suas percepções a partir de valores morais, frequentemente associados à polarização entre esquerda e direita — sendo a esquerda percebida como mais liberal e a direita como mais alinhada à família e à tradição.
Apesar disso, como aponta Alberto Carlos Almeida em “A cabeça do brasileiro”, vinte anos depois, as diferenças entre direita e esquerda no Brasil não são tão acentuadas quanto se supõe. Em complemento, Felipe Nunes, em “Brasil no espelho”, demonstra que o brasileiro médio possui valores predominantemente conservadores. Ainda assim, o que observamos em nossas pesquisas qualitativas é que o eleitor faz distinções ideológicas — mesmo sem domínio conceitual aprofundado.
Frases como “Bolsonaro é machista, é contra as mulheres. Flávio Bolsonaro deve ser a mesma coisa” ou “Lula e o PT não gostam da família tradicional. Não apoio isso” aparecem com frequência. Contudo, apesar da crescente centralidade dessa dimensão moral, não se pode negligenciar o peso do voto econômico na decisão final. São comuns comparações como: “Na época de Bolsonaro eu vivia melhor. A comida era mais barata e a gasolina também” ou “Agora, com Lula, não tem estresse. Dá até para comer melhor. Os preços estão abaixando”.
Como apresentado nos exemplos anteriores, as pesquisas qualitativas da Cenário Inteligência não se contentam com o trivial ou o óbvio. Tendo como orientação teórica Jacques Lacan, damos ao eleitor o direito à fala, a oportunidade de expressar sentimentos, fazer julgamentos e expor suas necessidades cotidianas. Buscamos, com base na teoria de Sigmund Freud, extrair as pulsões dos eleitores, as quais são motivadas por seus sentimentos e emoções — sendo estas, por sua vez, vetores da escolha eleitoral. Não nos satisfazemos, portanto, com explicações simplificadoras, como a clássica expressão “é a economia, estúpido”. A escolha eleitoral possui padrões, mas também é marcada por contradições.
Muitos políticos, marqueteiros e analistas têm um fetiche pelos números, acreditando que eles, por si só, são capazes de explicar o comportamento eleitoral. Reconhecemos a importância dos dados quantitativos. Contudo, é a psicanálise — enquanto abordagem capaz de interpretar contradições, desejos e “racionalizações” do indivíduo — que tem se mostrado particularmente eficaz quando utilizada como ferramenta teórica na análise de dados qualitativos. É justamente essa lente que permite compreender o eleitor para além dos números.
Maria Eduarda Oliveira – Cientista política. Diretora de Pesquisa da Cenário Inteligência.
Adriano Oliveira – Cientista político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa Qualitativa & Estratégia.
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