Jovem cria guia gratuito para ajudar estudantes a acessar universidade pública

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Jovem cria guia gratuito para ajudar estudantes a acessar universidade pública


Quando um professor lhe apresentou o Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e as Escolas Técnicas Estaduais (Etecs), Maria Gabriella estava na oitava série (atual 9º ano) e não sabia que aquelas instituições existiam. 

A conversa abriu um caminho que a levaria ao IFSP e, depois, à Universidade de São Paulo (USP). Hoje, ela reúne informações que fizeram falta nessa trajetória em um guia gratuito para estudantes de escolas públicas.

O “Tá, mas e daí?” explica como funcionam processos seletivos, cotas e pedidos de isenção de taxas. Também indica cursinhos populares e apresenta programas de moradia e auxílios, para que a preocupação com os custos da graduação seja discutida antes mesmo da aprovação.

“Essas informações sobre vestibulares e universidades públicas podem parecer óbvias para algumas pessoas, talvez porque conheçam alguém que cursou uma universidade ou porque aprenderam na escola ou no cursinho, mas não são óbvias para todo mundo”, afirma a criadora em entrevista à Alma Preta.

Aos 26 anos, a formada em Relações Internacionais pela USP, de Guarulhos, na Grande São Paulo, conta que só compreendeu a diferença entre Sisu, Fuvest, Fies e ProUni depois de entrar no Instituto Federal. Também desconhecia a existência de cursinhos populares. “A verdade é: como alguém vai buscar algo que não sabe que existe?”, reforça.

A pergunta orienta a proposta do site e a preocupação de fazer essas informações chegarem a jovens negros e de baixa renda. A fundadora defende que escolas e universidades apresentem as formas de ingresso e as políticas de permanência enquanto os estudantes ainda estão decidindo se vão tentar uma vaga.

Pessoas negras representavam 51,7% dos estudantes do ensino superior público brasileiro em 2024, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Baseado na Pnad Contínua, o levantamento aponta que 10,6% se declaravam pretos e 41,2%, pardos.

O recorte abrange o conjunto das instituições públicas de ensino superior, não apenas as universidades. Nas escolas que visita, a entrevistada encontra estudantes que ainda desconhecem os processos seletivos e outros que deixam de tentar por acreditar que não conseguirão se manter durante o curso.

Leia mais: Estudantes do ensino médio técnico têm maior empregabilidade e acesso ao ensino superior

Por onde começar

No guia, a consulta pode começar pela opção “onde estou na jornada”. O estudante é direcionado à pergunta “em que ano escolar você está?” e, a partir da resposta, encontra conteúdos relacionados à sua situação.

Quem seleciona o terceiro ano do ensino médio, por exemplo, pode buscar cursinhos acessíveis e gratuitos ou consultar orientações sobre isenção e cotas. É possível mudar a etapa informada e voltar às outras seções durante a navegação.

Os textos apresentam o que é e para que serve cada processo, entre eles Enem, Sisu, Fuvest, vestibular da Unicamp e Provão Paulista. A proposta é ajudar quem ainda não sabe como a nota de uma prova pode ser utilizada ou quais seleções precisa acompanhar.

O conteúdo também separa os caminhos para instituições públicas e particulares. Explica o uso da nota do Enem no Sisu e apresenta vestibulares próprios, como os da USP e da Unicamp. Nas particulares, diferencia as bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni) do financiamento pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Na seção sobre cotas, o estudante encontra explicações sobre a reserva de vagas e os critérios de participação. O material também chama a atenção para a matrícula: quem concorre por essas modalidades precisa comprovar o que declarou, conforme os documentos exigidos no edital.

A isenção da taxa de inscrição recebe destaque porque pode determinar a participação em uma ou mais seleções. O prazo para solicitar a gratuidade, lembra a fundadora, costuma ser anterior ao das inscrições para as provas.

“Sei que a taxa pode pesar no bolso, principalmente para quem quer aplicar para mais de um vestibular, e o pedido de isenção geralmente abre meses antes das inscrições. Então quem descobre tarde perde a chance de solicitar”, ressalta. 

Por isso, ela defende que as orientações circulem ao longo do ano. Quando a divulgação se concentra em outubro e novembro, período de aplicação de muitos vestibulares, algumas oportunidades já passaram.

“Quanto mais cedo escolas, professores e veículos de mídia falarem sobre Enem, Sisu e os outros caminhos, mais tempo os alunos têm para agir”, defende a criadora.

Página inicial do site do guia gratuito “Tá, mas e daí?. (Créditos: Reprodução)

Vaga e as condições para estudar

O guia dedica uma seção à pergunta que acompanha parte dos candidatos antes mesmo da inscrição: como se manter na universidade? Segundo a criadora, há jovens que desistem de participar do Enem por acreditar que não terão condições de frequentar uma graduação.

“Existe uma preocupação socioeconômica real em muitos jovens e nas suas famílias sobre a permanência, muitas vezes antes mesmo de se inscreverem nos vestibulares: as taxas de inscrição, os preços dos cursinhos e como se manter durante a universidade, especialmente nos cursos integrais”, pontua. 

Em “Entrei. E agora? Como me manter na universidade”, o site apresenta a Política Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). As orientações incluem apoio financeiro, moradia, alimentação e transporte, conforme os programas, os editais e as condições de cada instituição.

A entrevistada defende que esses serviços sejam divulgados antes da matrícula. Conhecer as possibilidades de assistência pode ajudar na decisão de disputar uma vaga, mas ela ressalta que o apoio varia entre as universidades.

“Saber que essas políticas existem dá ânimo, sempre com o pé no chão, porque sabemos que elas têm suas limitações e que cada universidade oferece um apoio diferente”, argumenta. 

Leia mais: Estudo revela os impactos da política de cotas nas universidades públicas

O conteúdo procura esclarecer também a finalidade dos auxílios, para que dúvidas ou constrangimento não impeçam o estudante de buscar atendimento. “Essa assistência é um direito, e existe justamente para apoiar quem precisa. Por isso, ninguém deve deixar de pedir por dúvida ou por vergonha”, afirma.

As explicações são acompanhadas de links para fontes oficiais. Cada bloco resume o assunto e encaminha o leitor às páginas do Inep, do Ministério da Educação, das universidades ou dos órgãos responsáveis pelas seleções. “O guia é um mapa, mas a palavra final é sempre da fonte oficial”, acrescenta. 

Essa orientação vale especialmente para o calendário. O site apresenta épocas do ano com base nas seleções de 2026 e avisa que as datas mudam a cada edição. Antes de solicitar isenção ou fazer uma inscrição, o estudante deve conferir o cronograma oficial.

Segundo a responsável, os conteúdos e links são revisados por ela. Ajustes também são feitos a partir do retorno de usuários e da consulta aos sites das instituições.

Um material para levar depois da conversa

A ideia de reunir as informações ganhou forma nas visitas que a criadora passou a fazer a escolas públicas depois da graduação. Ao conversar com os estudantes, percebeu que dúvidas que haviam sido suas continuavam presentes.

“Eu sempre saía das palestras com a sensação de que a conversa abria muitas possibilidades na cabeça dos estudantes, mas que eles precisavam de algo concreto para levar pra casa”, relata. 

A experiência com marketing e comunicação, área em que trabalhou depois da USP e antes do mestrado, motivou a apresentação das informações oficiais em uma linguagem acessível a quem ainda não conhece o assunto.

Na própria trajetória, o incentivo para estudar veio de pais que não tiveram acesso completo à educação formal. O pai, um homem negro, cursou até a quarta série. A mãe ainda não havia concluído os estudos quando a filha chegou ao último ano do ensino médio.

A aprovação na USP veio em 2018, pelo Enem/Sisu, com cota de escola pública. Segundo a entrevistada, o percurso inspirou a mãe a concluir os estudos, passar pela Faculdade de Tecnologia (Fatec) e se tornar professora. A instituição também aparece no guia.

Maria Gabriella retornou a uma escola pública de Guarulhos para falar com turmas do ensino médio sobre sua trajetória. (Créditos: Acervo Pessoal)

Ao falar sobre como essas orientações podem alcançar jovens negros e de baixa renda, a fundadora destaca os professores. Defende que tenham acesso a informações organizadas e prontas para compartilhar com as turmas.

“Sou extremamente grata aos meus professores, porque foram eles que mudaram a minha vida e são ‘a linha de frente’ ali, no dia a dia com os jovens”, finaliza. 

O “Tá, mas e daí?” pode ser acessado gratuitamente em tamasedai.com.br.

Esta reportagem foi produzida com o apoio do Report for the World, um serviço de mídia global que fortalece o jornalismo local independente.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *