O encenador Jorge Takla deixou a direção artística do Theatro Municipal de São Paulo menos de dois meses após o Instituto Bacarelli ter vencido a disputa pela gestão do complexo, no final de maio. A informação foi divulgada, nesta segunda, pelo equipamento cultural, que diz que o diretor teatral deixou a posição por questões familiares. O Theatro Municipal não informou quem o substituirá.
“Lamentamos profundamente sua saída e expressamos nossos votos de sucesso em seus próximos passos, com a certeza de que o palco do Theatro Municipal continuará a ser sua casa”, disse a organização em nota à imprensa.
Com experiência internacional, Takla é considerado um dos grandes encenadores do país em termos de ópera e teatro musical, com trabalhos nas principais casas do Brasil e participações em festivais da Europa e dos Estados Unidos.
No início de junho, em entrevista, o diretor-executivo do Instituto Bacarelli, o maestro Edilson Ventureli, disse que, em comparação à gestão anterior, que esteve a cargo da organização Sustenidos até maio, nenhum espetáculo da nova gestão teria uma carga política ou identitária comparável.
Dias depois, Takla disse que “qualquer teatro é uma arena política”. “O Instituto Baccarelli me convidou para ser diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo em função da minha trajetória de 50 anos de serviços prestados à arte, à criação, à produção, ao teatro brasileiro. Em momento algum fui questionado sobre a minha orientação política (meu coração sempre esteve do lado esquerdo), nem sobre minha identidade sexual”, afirmou em nota publicada nas redes.
“Toda expressão artística é um posicionamento. Um posicionamento político. É um espelho da sociedade, um olhar atento, um ouvido. Um pedido. O artista é progressista por definição, por missão. Senão, ele não é um artista. Seja ele ator, cantor, musicista, ou bailarino. Minha missão é tentar harmonizar para podermos produzir, criar, ajudar os criadores e atender todos os tipos de plateia, entendê-las.”
Neste mês, o Municipal vai montar “Tristão e Isolda”, obra-prima do alemão Richard Wagner, que a casa tenta montar há pelo menos uma década. O título constava da temporada planejada pela Sustenidos. Agora, sob o Baccarelli, a ópera não será mais dirigida por Daniela Thomas e virá já pronta do exterior.
Desde 2021, quando a Sustenidos assumiu o Municipal, embates entre a Prefeitura de São Paulo e a gestora ilustram uma guerra ideológica.
O contrato da organização foi até o fim de maio, mas a gestão de Ricardo Nunes tentou rompê-lo em setembro do ano passado. Isso porque a organização social não demitiu um funcionário que republicou uma postagem no Instagram sugerindo que o influenciador trumpista Charles Kirk era nazista.
Na mesma época, a organização foi acusada por vereadores conservadores de aproximar demais a sua direção artística de pautas ligadas à esquerda.
No meio desse debate, parte dos corpos artísticos do teatro também protestou contra a Sustenidos durante a temporada da ópera “Macbeth“. O músico Brian Fountain foi afastado temporariamente por criticar a montagem dirigida por Elisa Ohtake.
Sobre ocasiões do tipo, Ventureli disse ter uma boa relação com o governo municipal, estadual e federal e que o Instituto Baccarelli é apartidário.
Agentes culturais, no entanto, temem que o Municipal dê uma guinada em direção ao bolsonarismo. A organização social tem como superintendente Hélio Ferraz, ex-secretário especial da Cultura do governo de Jair Bolsonaro.
Ventureli diz que os vínculos de Ferraz com o ex-presidente não contradizem o apartidarismo da organização social. “Ele não foi contratado em virtude da sua ideologia política”, afirmou o maestro.












