Jão retorna após hiato e quer ressignificar sua história no disco ‘Memórias Póstumas’

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Jão retorna após hiato e quer ressignificar sua história no disco ‘Memórias Póstumas’


Jão está parado no trânsito quando uma senhora de cabelos brancos quebra a janela de seu carro e o encara. “É engraçado que as coisas mais horríveis do mundo aconteçam em dias comuns. Que nascem com Sol, com cheiro de pão”, narra uma voz. “O cotidiano é traiçoeiro, leva sem aviso e depois fica ali, lembrando.”

É assim que começa o trailer que anunciou “Memórias Póstumas”, o quinto e mais recente disco do cantor Jão, lançado neste domingo (26). O vídeo, que mistura linguagem cinematográfica e referências literárias, funciona como uma introdução ao universo do álbum —a senhora, que em outro momento saca uma arma e atira no companheiro de almoço de Jão, seria uma personificação da morte.

O retorno acontece depois do maior momento da carreira do cantor. Em janeiro de 2025, Jão encerrou a turnê do disco “Super” com shows lotados no Nubank Parque, antigo Allianz Parque, em São Paulo. Antes disso, passou por outros espaços de grande porte do país, esgotando diversas apresentações. Centenas de milhares de fãs se reuniram para vê-lo na “Superturnê”.

“Eu lembro de pensar, quantas pessoas já tiveram essa experiência? Queria fotografar aquilo na minha cabeça para contar aos meus filhos”, diz. Pouco depois, porém, ele desapareceu dos holofotes.

Em meio ao afastamento, o artista perdeu o pai. Nessa época, deixou São Paulo e voltou a morar no interior paulista, ao lado da família. Foi ali, distante da rotina da carreira, que passou a questionar a própria relação com a música.

“Eu não queria ouvir música”, afirma ele agora. “Eu estava me sentindo um pouco infeliz de estar ouvindo música, fiquei um pouco sem perspectiva da minha carreira, de como eu queria seguir, se eu queria seguir.”

A reconciliação aconteceu de madrugada. Correndo pelas ruas da cidade onde cresceu, Américo Brasiliense, ouviu “Virgin“, álbum da cantora neozelandesa Lorde, e começou a chorar. Diz que naquele momento entendeu que a música continuava sendo sua linguagem mais natural. “Depois desse dia, começou um grande vômito de coisas que eu precisava dizer.”

Transformar esse conjunto de ideias em álbum levou um ano e meio. O trabalho voltou a reunir seus parceiros Pedro Tófani, namorado do cantor, e o produtor Zebu, com quem diz ter desenvolvido uma espécie de linguagem própria. “A gente passa muito tempo escolhendo a caixa da música, o timbre da bateria, do violão. O ‘funciona’ me mata. Se funcionou, qualquer pessoa faz funcionar. Eu quero fazer o que serve melhor à música.”

Desde a estreia, em “Lobos”, de 2018, sua discografia foi organizada quase como uma narrativa fechada. Jão costumava dizer que seus quatro primeiros álbuns correspondiam aos quatro elementos da natureza —terra, ar, água e fogo—, não apenas na identidade visual, mas também na maneira como o cantor entendia cada momento da própria vida.

As mudanças de estética se tornaram uma marca da carreira, replicando o que grandes divas do pop internacional fazem, com suas “eras”. A cada lançamento, mudavam as cores, a direção de arte, os figurinos e o universo simbólico que acompanhava as músicas. Para o cantor, eram uma forma de documentar quem ele era naquele instante.

“Se você pegar uma linha do tempo da minha vida, eu sou pessoas muito diferentes em todas elas, e eu acho que eu enxergo isso em mim, mas acho que todo mundo é um pouco assim”, diz. “Eu sempre acreditei em artistas que documentam quem eles são. Gosto de ver como a pessoa cresce, muda de perspectiva, fracassa, volta. Isso é muito humano.”

Pela primeira vez, Jão diz não saber exatamente em que lugar enquadrar o próprio trabalho. “Ele tem mais poder de me contar agora, a partir do momento em que eu o lanço, do que eu tenho para decidir o que ele é.”

O cantor afirma que este é “um álbum das palavras”. Para ele, as músicas nasceram da necessidade de reorganizar o significado das coisas depois de um período em que a própria vida parecia ter perdido sentido.

“Eu vivi algumas coisas que me fizeram entender a insignificância das coisas, primeiro do lado negativo e depois do lado positivo. Se as coisas não têm significado nenhum, então eu dou significado para elas. É um álbum das palavras. Eu queria recontar a minha história da minha maneira.”

O título, inspirado em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, surgiu muito antes de o disco existir por completo. Jão diz que costuma descobrir o nome dos álbuns antes mesmo de saber exatamente quais músicas farão parte deles.

Desta vez, a “literatura” —palavra que, aliás, batiza uma das faixas do disco— acabou servindo como ponto de encontro entre o tema da memória e a importância que a linguagem assumiu durante o processo de criação.

Voltar ao interior —que tanto quis escapar um dia— também mudou a sonoridade do trabalho. Jão conta que não pretendia fazer um disco nostálgico nem prestar homenagem a uma década específica, mas percebeu que as músicas brasileiras que ouviu durante a infância começaram a aparecer naturalmente nas composições. “Quando eu fui para lá e comecei a virar de novo essa pessoa que era de lá, entendi que eu sou fruto daquele lugar.”

Foi nesse período que voltou a escutar “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”, de Marisa Monte, primeiro disco que diz ter ouvido de cabo a rabo por escolha própria. A memória afetiva ajudou a explicar por que instrumentos, timbres e imagens ligadas ao interior aparecem de maneira quase intuitiva em “Memórias Póstumas”, como sons de sanfona, imagens que remetem à casa da avó e letras sobre uma cidade interiorana.

Apesar de o luto atravessar parte do álbum, Jão evita tratá-lo como um processo de cura. Diz que escrever as canções não o ajudou a entender a morte do pai. “Me ajudou a viver o dia. Lidar com o que eu podia lidar naquele dia era fazer esse disco acontecer.”

Quase dez anos depois de despontar como um dos grandes nomes do pop brasileiro, o cantor diz que aprendeu, acima de tudo, a dizer não. Afirma que as decisões mais importantes da carreira foram justamente aquelas em que recusou caminhos mais rápidos ou fáceis.

O afastamento dos palcos e das redes foi especialmente difícil pois significou também interromper uma relação que Jão cultivou durante quase uma década com os fãs. “Senti muita falta deles. Me senti culpado, como se tivesse abandonado a confiança que eles depositaram em mim. Eu entendia que precisava daquele tempo, e acho que eles entenderam também, mas era quase uma sensação paternal.”

Seus fãs, no entanto, parecem não guardar mágoas. Os 11 mil ingressos para a audição pública de “Memórias Póstumas”, realizada no Vale do Anhangabaú neste domingo, se esgotaram em cerca de um minuto, segundo a assessoria do cantor. Em setembro, Jão estreia seu novo show em São Paulo, dando início ao próximo ciclo do álbum.

Agora, com “Memórias Póstumas” finalmente nas ruas, Jão acredita que a obra deixa de pertencer apenas a ele. Depois de meses escrevendo para sobreviver ao cotidiano, ele espera que as palavras encontrem novos significados nas histórias de quem as ouvir.

“Eu sei o quanto é importante florescer através do trabalho de uma outra pessoa que disse o que eu não conseguia dizer, me mostrou o que eu não conseguia ver.”



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