Capital tem visto crescer roteiros turísticos ligados aos “lugares do cinema” e facilitado gravações na cidade com apoio de uma Film Commission
Emannuel Bento
Publicado em 28/11/2025 às 18:41
| Atualizado em 28/11/2025 às 20:10
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O Edifício Oceania, localizado na Avenida Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, já se destacava na paisagem do local, dominada por espigões, ao preservar uma arquitetura multifamiliar do século 20. Há quase 10 anos, contudo, ele ganhou uma atenção especial após ser o cenário de “Aquarius” (2016), longa de Kleber Mendonça Filho.
Hoje, é comum ver visitantes da cidade irem tirar uma foto na frente do prédio, um símbolo de resistência contra a especulação imobiliária na ficção e na vida real. Quase demolido em 2003, ele foi considerado um Imóvel Especial de Preservação (IEP) da Prefeitura do Recife em 2024.
O cinema certamente contribuiu para esse reconhecimento. Mais que isso, a sétima arte tem a força de transformar lugares em destino. Isso tem se intensificado cada vez mais com o crescimento da filmografia do Recife, especialmente com Kleber.
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Atualmente, a capital tem assistido a iniciativas privadas e públicas para roteiros turísticos baseados em “lugares do cinema”. Além disso, o poder municipal tem facilitado gravações na cidade através de uma Film Commission. Já o Estado, começa a pensar em visitas educativas ao Cinema São Luiz e um novo centro cinematográfico.
Turismo baseado em ‘O Agente Secreto’






Atualmente, o roteiro “Locações O Agente Secreto no Centro do Recife” tem sido realizado semanalmente, aos sábados, pela agência de turismo independente La Ursa Tours em parceria com o Coletivo CineRuaPE. As inscrições são feitas pelo Sympla.
A caminhada guiada passa por algumas das locações do longa, duplamente premiado em Cannes, nos bairros da Boa Vista e Santo Antônio, no Centro.
A primeira edição ocorreu na pré-estreia do filme no Recife, em setembro, a pedido da distribuidora Vitrine Filmes. Na ocasião, o próprio Kleber guiou o grupo mostrando sua visão sobre as locações.
Entre os espaços, constam o Ginásio Pernambuco, que no longa é um instituto de identificação; a Galeria do Edifício Tereza Cristina, onde foi gravada a cena de perseguição; e a entrada da Vila Santo Antônio, na Rua do Riachuelo, onde existe o prédio de refugiados no enredo.
E é claro, não poderiam faltar o Cinema São Luiz e a Rua Dr. Sebastião Lins, na lateral da sala histórica, que foi totalmente caracterizada na época das gravações.
Roteiro baseado na obra de Kleber Mendonça



O La Ursa Tours, que co-realiza o passeio, é uma agência de turismo criada por Roderick Jordão, oferecendo passeios a pé e ciclísticos pela capital. Sete vezes vencedora do Tripadvisor Traveller’s Choice Awards, a iniciativa já havia feito roteiros baseados no cinema de Kleber Mendonça — apesar de atualmente não realizá-los por falta de equipe suficiente.
“Pretendemos, em janeiro, fazer os roteiros de ‘O Agente Secreto’ e da obra de Kleber. O interessante é que ambos são pelo Centro do Recife. Queremos incluir o Edifício Oceania neste segundo, justamente porque em 2026 teremos os 10 anos de ‘Aquarius’”, diz Roderick ao JC.
O guia afirma que existe uma presença considerável de recifenses nesses roteiros, mas que também tem visto muita procura de gente de fora. “Pessoas estão vindo ao Recife e procurando o nosso passeio. Elas se surpreendem pela forma como o nosso Centro é dinâmico, já que fazemos os passeios nos sábados de manhã, quando a cidade está viva”, conta.
“Sem dúvida nenhuma, é uma nova oportunidade que se abre. É um Recife diverso. Você tem uma cidade com o tradicional turismo de sol e mar, que está consolidado, tem o turismo cultural, que é o Carnaval, e se abre uma nova frente, que é o turismo cinematográfico.”
Estímulo às locações no Recife

Sala da Recife Film Comission, na Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura do Recife – CORTESIA
O potencial da atividade cinematográfica para o turismo é reconhecido pela Prefeitura do Recife, que criou em abril uma “Film Commission” — termo usado para escritórios governamentais que apoiam a produção audiovisual no sentido de facilitar e desburocratizar projetos.
Na gestão, o escritório fica em uma sala da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. De uma forma mais simples, a Film Commission ajuda a desburocratizar autorizações para gravações em locações — o que antes envolvia documentos em vários órgãos.
Outro serviço é a sugestão de locações, que neste caso envolve lugares como Rua da Aurora, Pátio de São Pedro, Orla de Boa Viagem, Forte do Brum, Parque 13 de Maio, entre outros espaços.
De acordo com o secretário Carlos Andrade Lima, existem algumas dezenas de projetos audiovisuais já apoiados pelo escritório, mas a maioria ainda são clipes musicais e propagandas.
“Cerca de 40% dos norte-americanos, por exemplo, viajam para destinos que eles já viram em filmes e séries. O mesmo ocorre com os asiáticos. Ao mesmo tempo, temos uma história cinematográfica muito rica aqui, que começa na década de 1920. Hoje, temos um período muito propício para o cinema e a exposição do Recife através dele é importantíssima”, diz Andrade Lima.
Roteiro em parceria com a EMBRATUR
A Film Commission, em parceria com a EMBRATUR, criou o “Passeio Cinematográfico – A Cidade no Cinema de Kleber Mendonça”, lançado durante o festival Rec’N’Play em um roteiro híbrido, de ônibus e a pé, visitando locais de “Recife Frio”, “Aquarius”, “Retratos Fantasmas” e “O Agente Secreto”.
A gestão ainda discute quando irá iniciar esses passeios de forma regular, com previsão para começar em dezembro. Além disso, o roteiro fica disponível a qualquer interessado pelo aplicativo ROTEO — fruto da parceria com o Rec’N’Play.
Cinemas de rua




Além das locações, ainda existem roteiros voltados aos cinemas de rua do Centro — os que existem e os que já se foram. O abandono dessas salas é o tema central do documentário “Retratos Fantasmas” (2023).
O Coletivo CineRuaPE, composto por dez mulheres, foi criado em 2015 com o intuito de promover atividades na preservação dessas salas. Há anos, elas são convidadas por festivais para fazer roteiros e visitas guiadas. Alguns desses passeios ocorreram junto ao La Ursa Tours.
“Além do São Luiz e do Parque, passamos pelos antigos cinemas Veneza e Moderno. Também falamos de cinemas com perspectiva de retorno”, diz Priscila Urpia, uma das integrantes.
Mais cinemas de rua podem potencializar o turismo


Ao “retorno”, Urpia se refere aos edifícios Trianon e Art Palácio, localizados na Avenida Guararapes. O Trianon, onde existiu um cinema de mesmo nome, será reformado em parceria da Prefeitura com o governo federal para abrigar um IFPE.
Dentro dessa iniciativa, o Art Palácio, que fica bem ao lado, será reformado para ter uma sala. Ainda não existem informações claras de como ela funcionaria — por exemplo, se seria da instituição de ensino ou teria gestão municipal.
Neste horizonte de futuro, o Distrito Guararapes, que irá conceder por 30 anos a área para a iniciativa privada, prevê também a criação de uma Cinemateca em um edifício ainda não informado.
Os roteiros do CineRuaPE adentram os espaços culturais para contar suas histórias, em parcerias com os gestores dos equipamentos culturais. “É bem legal, porque o Parque, por exemplo, tinha um hotel, cujo imóvel ainda existe na parte de trás e dá para ver o caminho que as pessoas faziam.”
Visitas educativas e novo centro de referência



Por conta dessa demanda crescente, a própria Secult-PE/Fundarpe, que gere o Cinema São Luiz, prevê a criação de visitas educativas ao local, a exemplo do que ocorre em equipamentos municipais, como o Teatro de Santa Isabel.
Esse passeio incluiria visitas até a cabine de projeção e à sala administrativa, onde existe uma cena com Maria Fernanda Cândido em “O Agente Secreto”.
“Em um passado recente, dava-se mais valor a construções coloniais ou de um outro momento histórico. Agora que os cinemas migraram para os shoppings, o cinema de rua volta com um ar diferenciado”, diz Priscila Marques, superintendente de Espaços Culturais da Fundarpe.
Ainda está sendo planejado um Centro de Referência do Audiovisual de Pernambuco no segundo andar do edifício, utilizando o acervo do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (MISPE) — atualmente, a reserva técnica desse museu está na Casa da Cultura.
“Assim que a reforma do São Luiz acabar, em março, iremos começar a montagem desse espaço, que dará luz a uma parte documental do nosso cinema e também trará maquinários e projetores que temos no MISPE. Todo esse material será disponibilizado a pesquisadores e curiosos, inclusive para uso em outros projetos e documentários”, diz Marques.

MISPE – Museu de Imagem e Som de Pernambuco, localizado na Rua da Aurora – JOANA PIRES/FUNDARPE
Cerca de 855 minutos do acervo de filmes cinematográficos em 16mm e 35mm do MISPE foram digitalizados por conta de recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG).
A sede original do MISPE, localizada no número 379 da Rua da Aurora, está fechada há 17 anos. A superintendente de Espaços Culturais da Fundarpe diz que o Governo tem reformado outros patrimônios edificados que precisam de atenção e o MISPE “naturalmente está na fila”, mas ainda não existe previsão de data.
“No momento, vamos demonstrar parte desse acervo sem esperar a reforma do prédio, para no futuro retomar o edifício da Rua da Aurora”, diz.
Ainda sobre retomadas, a Prefeitura do Recife informou à reportagem que pretende retomar a sala de cinema do Teatro Apolo, no Bairro do Recife, até 2026.
Art Palácio com mais destaque?
Em uma entrevista à Vulture, Kleber Mendonça Filho revelou que o seu próximo longa-metragem será ambientado no Recife dos anos 1930, com uma história que está inserida em “Retratos Fantasmas”.
A pista aponta para uma curiosa história registrada no documentário: o cinema Art Palácio foi originalmente projetado para receber um cinema da UFA, produtora da Alemanha nazista usada como máquina de propaganda.
Sendo esse ou não o tema, novos imaginários cinematográficos nas paisagens do Recife serão criados nos próximos anos. E o Recife tem a ganhar com isso.
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