Grifes rebatem monotonia a partir de seus próprios evangelhos em Milão

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Grifes rebatem monotonia a partir de seus próprios evangelhos em Milão


Bastaram 63 saias. Para Miuccia Prada, a peça é o equivalente à camiseta básica. “A saia é um objeto contemporâneo porque é flexível, adaptável. Ela convida à contradição”, diz a estilista italiana, que, ao lado de Raf Simons, levou uma miríade delas —plissadas, lápis, assimétricas— à passarela em seu desfile, que abriu o calendário de moda italiano, no último dia 22.

“Usamos a saia como base para diferentes ideias, diferentes abordagens; como uma matéria-prima para expressar conceitos. A limitação de sua forma simples —quase como uma tela em branco— pode impulsionar ideias, forçando você a reinventar a forma dentro de seus limites restritos”, explica Prada, que não economizou em detalhes ilógicos e subversivos, que são componentes importantes tanto para a grife quanto para essa coleção especificamente.

“Você pode pegar o elemento mais industrial —o velcro— e o mais delicado —bordados de cristal— e combiná-los. Há o uso de tecido de crinolina, mas nunca da maneira convencional. É um processo de questionar, reconsiderar, repensar”, diz Simons. É esse senso de liberdade criativa que, desde o primeiro prêt-à-porter da marca para o inverno de 1988, insinua colocar os códigos de classicismo e luxo em jogo, respondendo com uma certa selvageria baseada na simplicidade, composta pelo espírito do cinema neorrealista italiano e dos uniformes escolares. Uma luta constante contra o conservadorismo, aquele que, há oito anos, após a saída de sua apresentação de verão de 2019, a estilista disse, a uma pequena roda, que era preciso enfrentar.

O sentimento de Prada não estava errado. A verdade é que a moda não anda vivendo tempos bons. Enquanto há uma latente falta de autenticidade em seu amplo espectro, existem exceções que ainda resistem à repetição, à exaustão estética, à falta de liberdade e de expressão. Características que entraram em vias de extinção depois dos explosivos anos 90, quando não apenas vivíamos a última década offline, mas também um período de intensa experimentação e individualidade. Entretanto, na Itália, onde há uma concentração de marcas que permanecem independentes desde o seu surgimento, persiste o empenho em manter a autenticidade e a fidelidade ao próprio evangelho, como se cada estilista vivesse absorto em seu próprio universo.

Em 1984, Domenico Dolce e Stefano Gabbana eram apenas dois forasteiros entre gigantes como Armani e Versace e se tornaram dois dos estilistas há mais tempo à frente de suas próprias marcas. Assim, a coleção intitulada “Stravaganza Siciliana” resume suas tradições –leopardo, renda e alfaiataria. Não há nada mais Dolce & Gabbana do que isso. Em um duelo entre o sagrado e o profano, a lingerie aparece sob paletós encurtados e em peças com transparências que não escondem a ironia do puritanismo, enquanto as minissaias se levantam contra o decoro.

Um ano após a morte de seu fundador, as marcas da Armani permanecem em soberba evolução. Na Emporio Armani, a última coleção assinada por Silvana Armani e Leo dell’Orco, que passaram o bastão ao novo diretor criativo, Dario Vitale, é um belo encerramento de ciclo. Ele estreia na temporada de inverno de 2026. Por enquanto, os traços do tempo se tornaram elementos centrais para construir o guarda-roupa, agindo diretamente sobre os materiais, moldando superfícies e alterando cores, como se essas peças fossem usadas, vividas, preservando, ao mesmo tempo, silhuetas fluidas que estabelecem, mais do que nunca, um diálogo entre o masculino e o feminino.

“É o tempo que deixa sua marca, suaviza contornos e confere personalidade aos materiais, sem lhes retirar a leveza.” O efeito ácido e corrosivo do sal, que consome e decora, aparece tanto no tratamento quanto no bordado, em lavagens e técnicas de tingimento a frio, criando efeitos de cor irregulares; o seersucker é oco e amassado, e o veludo, tratado a laser, surge manchado.

O estilo da etiqueta homônima de Giorgio Armani permanece salvaguardado pela sobrinha. Entre os vestidos fulgurantes, as jaquetas inspiradas na alfaiataria masculina, os ombros marcados e as geometrias que flertam com os anos 80, Silvana homenageia Armani com um look formado por costume preto, camisa e gravata, que remonta ao visual usado pelo tio aos oito anos em sua primeira comunhão, em 1942.

“Usei algodão pela primeira vez porque ele [Giorgio Armani] não gostava do material; achava que ele não expressava muita coisa. Eu adoro, então o incluí. Parece-me que essa combinação de algodão com um toque de moda de festa funciona bem”, disse Silvana Armani.

O antídoto de Maria Grazia Chiuri para a opressão de que a juventude atual, mais sensível ao julgamento alheio, é uma volta aos anos 1970. Diferentemente da estética austera da sua estreia na Fendi, a estilista romana resgatou o espírito de ousadia para se vestir e se expressar, presente em nomes como Adriano Celentano, o primeiro homem sexy no imaginário italiano, e Raffaella Carrà, figura disruptiva da cultura pop, em uma série de silhuetas daquele período, quando Karl Lagerfeld lançou o prêt-à-porter da maison, compostas por peças como lingeries à mostra, decotes profundos, transparências, robes e peles recicladas como estolas. Elas surgem do outro lado do vidro espelhado —que dificultou a visibilidade da passarela— inspirado na obra “Cubo di Specchi (Mirror Cube)”, de Luciano Fabro, que força o público à descoberta do outro por meio da própria imagem refletida.

Justificar uma coleção antes de apresentá-la nem sempre é um bom negócio. E esse é um modus operandi de Demna Gvasalia. Para a “Store Show”, que, segundo ele, é sua primeira coleção na qual apresenta sua visão pessoal completa para a Gucci, fica evidente que a Gucci não é uma marca de luxo. Nas suas mãos, é uma marca cara. Em uma passarela formada por uma ironia fossilizada, que ele pratica desde os tempos de Balenciaga, Gvasalia torna as coleções um exercício estéril em termos criativos. Tem sido, afinal, um desafio para a grife, desde a saída de Alessandro Michele da direção, se estabilizar em um mercado que vem se questionando sobre o real significado do luxo contemporâneo, assim como fez Tom Ford, mas que, com a expressão desse tipo de subversão, que vem do âmago do estilista georgiano, só entrega roupa com aparência barata, poliéster e ostentação.



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