“Todo o Sentimento”, exibido na noite desta terça-feira (15) no Festival de Brasília, imagina um Brasil no qual a tentativa de ruptura institucional após a eleição de 2022 foi bem-sucedida. “Tudo É Tempo”, de segunda (14), prefere olhar para o país que de fato existiu, por meio de quatro personagens filmados durante o primeiro governo Lula e reencontrados muitos anos depois.
São duas maneiras bastante diferentes de tratar da política brasileira. O primeiro, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, cria uma distopia em que uma ditadura vigia e controla os cidadãos. O segundo, documentário de Marcos Guttmann, observa como o tempo alterou a vida, as opiniões e até as contradições de quatro eleitores.
Em “Todo o Sentimento”, o cineasta Henrique, interpretado por Aldri Anunciação, vive isolado numa casa colonial no Recôncavo Baiano. O país é governado por um regime autoritário, e a vigilância faz parte da vida cotidiana. A chegada de Gustavo, vivido por Lucas Leto, obriga Henrique a sair, ao menos em parte, do isolamento.
A distopia criada por Rosa e Nicácio não aposta num futuro cheio de invenções espetaculares. Pelo contrário. O país que aparece na tela continua reconhecível, inclusive em sua arquitetura a e em estruturas sociais muito antigas.
Henrique já havia aparecido em “Ilha”, longa lançado pela dupla em 2018. A retomada do personagem permite aos diretores colocá-lo diante de outro momento do país e também verificar o que o tempo fez com ele. Aldri Anunciação ganhou melhor ator e Ary Rosa e Glenda Nicácio venceram roteiro no Festival de Brasília daquele ano.
“Reencontrar um personagem como Henrique, que é um personagem caro, só faz sentido se for num outro contexto. Eu acho que o Brasil de 2016, daquele Henrique, é um Brasil muito diferente de 2026, desse Henrique”, afirmou Rosa no debate realizado na manhã seguinte à sessão.
Para o diretor, voltar a Henrique significa também retomar uma preocupação presente nos outros trabalhos realizados com Nicácio: procurar relações de afeto mesmo em situações adversas. Em “Todo o Sentimento”, porém, isso acontece num país em que a repressão passou a fazer parte da rotina.
O roteiro não é novo. Nicácio contou que o projeto passou anos engavetado e chegou a parecer ultrapassado quando a situação política brasileira mudou.
“Por alguns segundos, o Brasil foi mudando de conjuntura e a gente pensou: ‘Não vai dar mais para fazer o ’Todo o Sentimento’, porque vai perder o tempo’. Ele era para aquele tempo que ele foi escrito, a gente não conseguiu fazer”, disse ela.
A situação, segundo a diretora, acabou se invertendo. “De repente, numa reviravolta, não mais que de repente, é o Brasil de novo.”
Se “Todo o Sentimento” inventa o que poderia ter acontecido ao país, “Tudo é Tempo” encontra seu interesse justamente no que aconteceu.
Guttmann começou o documentário durante a eleição presidencial de 2002. Entre dezenas de pessoas que votavam numa mesma seção eleitoral do Colégio Pedro 2º, no Rio de Janeiro, chegou aos quatro personagens que permaneceriam no filme: Carlos Ibrahim, Cristiane Rosa, Fernando Pereira e Heber Cunha.
Eles formam um grupo particularmente bom para um documentário. Fernando, o Nando, passou por diferentes trabalhos, mora na Cidade de Deus e mantém uma relação constante com o samba. Cristiane é médica infectologista.
Heber é poeta e passa boa parte do filme revendo posições e confrontando as próprias contradições. Carlos Ibrahim, filho do histórico líder sindical José Ibrahim, é o mais diretamente ligado à militância e à atividade política.
O resultado é curioso e frequentemente divertido. A política está presente o tempo inteiro, mas o filme interessa sobretudo quando mostra como ela se mistura às questões mais imediatas da vida: dinheiro, profissão, família, saúde, moradia e relações pessoais.
As primeiras filmagens se concentram no período iniciado em 2002 e avançam pelo primeiro governo Lula. Depois, o projeto é interrompido. Anos mais tarde, quando o país já havia entrado em outro estágio de polarização política, o diretor volta a procurar os mesmos personagens.
A interrupção não havia sido planejada. “Não foi uma estratégia deliberada. Eu tentei finalizar, captar recursos para o filme, para prosseguir ou para finalizar uma versão naquele momento, mas não consegui”, afirmou Guttmann no debate do festival. “Então, o projeto foi para a prateleira durante muitos anos.”
O intervalo acaba produzindo uma das qualidades do documentário. Quando Guttmann volta a Fernando, Cristiane, Heber e Carlos, não encontra simplesmente versões mais velhas das pessoas que havia filmado.
Algumas opiniões permaneceram, outras mudaram de maneira radical, e as diferenças entre aquilo que eles diziam no início do século e o que dizem anos depois são o melhor do filme.
“O tempo é o eixo central do filme”, disse Guttmann. “A memória não é linear; ela é multifatorial, e o filme optou por respeitar essa arbitrariedade da memória em vez de usar recursos tradicionais de flashback.”
Assim, os dois longas chegam à política brasileira por caminhos opostos. Ary Rosa e Glenda Nicácio recuperam um personagem conhecido e modificam radicalmente o país em torno dele. Marcos Guttmann retorna muitos anos depois às mesmas pessoas para descobrir quanto o país —e o próprio tempo— as modificou.
O repórter viajou a convite do Festival de Brasília














