Um monstro humanoide de três metros invade uma pequena cidade no interior da Coreia do Sul e destrói tudo e todos que cruzam seu caminho, enquanto é perseguido por dois policiais e um grupo de caçadores.
“Hope”, o novo longa do coreano Na Hong-jin, pode parecer um tanto fora de tom na corrida pela Palma de Ouro, principal prêmio do Festival de Cannes. Mas se engana quem pensar isso.
Com explosões, tiros, sangue e perseguições, o filme de ação agitou um público cansado da safra morna do festival francês até agora.
A história começa quando o policial Beom-seok atende ao chamado de um grupo de caçadores. Quando chega ao local, uma estradinha isolada no meio de um campo de plantação, encontra um boi morto.
Estraçalhado, com a pele rasgada por garras enormes. São machucados grandes demais para uma pata de urso. O que quer tenha acontecido, a intenção não parece ter sido somente devorar o animal, ainda inteiro.
Preocupado, Beom-seok entra na viatura e avisa sua colega, Sung-ae. No caminho para o centro da cidadezinha —com as ruas estranhamente desertas— ele encontra um armazém com um enorme buraco na parede, como se tivesse sido explodido por uma bomba.
O homem entra, e o que ele encontra são prateleiras reviradas e pessoas mortas em meio aos escombros. Ele ouve um urro e tiros. Com um rifle na mão, persegue os sons bizarros. O diretor Hong-jin não mostra a criatura logo de cara, e cria uma aura de suspense enquanto o público tenta imaginar que tipo de coisa estaria causando toda a destruição.
Nessa primeira parte da perseguição, a câmera acompanha o desajeitado Beom-seok correndo pelas ruas da cidade, largas e estreitas, e só o que se vê são pessoas sendo atiradas contra edifícios e carros voando pelos ares. Ele encontra algumas pessoas no caminho, que criam os primeiros diálogos absurdos e cômicos do filme.
Quando a criatura monstruosa finalmente aparece, fica claro que Beom-soak não é páreo para ela. Ele está prestes a ser massacrado quando a agente Sung-ae chega, sai da viatura com um penteado meio-preso e uma metralhadora e acerta o monstro em cheio, em uma entrada heroica que arrancou palmas e gritos da plateia na sala Debussy, a segunda maior de Cannes.
Mas a criatura parece invencível. Estranhamente, durante o confronto, Beom-soak nota lágrimas em seus olhos, e se cria aí um mistério. É uma primeira metade cheia de ritmo e adrenalina.
Daí em diante, o filme se estende e repete suas fórmulas, num total de 2h40. Em uma perseguição na floresta, descobre-se que existem mais criaturas e que elas são, na verdade, alienígenas. A cenografia minuciosamente detalhada, aliás, é ponto alto do longa.
Mesmo em ambientes internos, a combinação de vários objetos típicos estranhamente desarrumados, como um bule manchado de sangue, por exemplo, ajudam a compor a atmosfera apocalíptica.
Hong-jin é considerado um mestre da ação pelos admiradores que conquistou com produções passadas, como “O Caçador” e “O Lamento”. Diferente de seus antecessores, porém, “Hope” não dá muito material para interpretações simbólicas ou mensagens nas entrelinhas, como comentários políticos que esse tipo de ação costuma prover —“Mad Max” que o diga.
Tudo o que o filme é e quer dizer está nas sequências eletrizantes, que de certa forma também o afasta dos adversários em Cannes.
Mas “Hope” é também o filme mais ambicioso da competição, com os atores europeus Michael Fassbender e Alicia Vikander dando corpo e rosto —junto ao uso de CGI— aos alienígenas. A revista americana Variety afirmou que o filme tem o maior orçamento da história do cinema coreano.
Em uma edição de Cannes marcada pela ausência de blockbusters americanos, parece que a Coreia do Sul quer ocupar o espaço vago.












